terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Sobre leitura

A brincadeira começou no Facebook. Alguém teve a ideia, que foi se espalhando, até que chegou até mim através da Adri Magre, que deixou a vontade para quem quisesse participar.

O "desafio" é escolher os vinte livros que marcaram sua vida, ou os seus preferidos. Na minha prolixidade, seria impossível citar vinte livros sem dizer o porquê de cada um ter me marcado.

Será possível perceber a minha relação forte com o mundo real, no que tange a leitura. Minhas obras prediletas são, em grande parte, biografias ou histórias reais (saudades de quando dizer "história real" era pleonasmo vicioso).

Seria fácil colocar aqui grandes clássicos da literatura mundial, os quais somos obrigados a ler no Ensino Médio, e eu ainda li e trabalhei a análise literária de muitos deles durante o curso de Letras. Mas citar clássicos, para quem não me conhece, me soa meio pernóstico. Logo, preferi partir para o mundo mais desconhecido, lúdico ou menos popular.

A ordem é aleatória, e em alguns casos não consigo citar uma única obra, mas sim, o autor de coletâneas. Então segue minha pequena e singela lista:

1. Marcelo, martelo, marmelo - Ruth Rocha: esta obra é um clássico da literatura infanto-juvenil. Muito interessante a forma com a qual a autora aborda o signo linguístico, o significado e o significante e a arbitrariedade do signo. Os objetos recebem nomes sem que eles tenham qualquer ligação com o nome. Indico para estudantes de Letras.

2. Emília no País da Gramática - Monteiro Lobato: escolher vinte obras sem citar Lobato é quase uma heresia. Nesta genial obra - para mim a melhor de todas dele - a personagem título faz uma viagem pela Língua Portuguesa e ensina de forma lúdica nuances da nossa complexa língua que muitos professores não são capazes de passar aos seus alunos.

3. Feliz Ano Velho - Marcelo Rubens Paiva: li este livro aos treze anos. E desde então, há citações deste jornalista que são tão fortes que marcam minha vida desde então. Leitura imprescindível para se compreender que "...a vida dura poucos segundos..." (MRP)

4. Mistério do Trem Azul - Agatha Christie: também fui apresentada para a rainha do mistério por volta dos doze, treze anos. Um dia, meu pai chegou com o livro e disse-me: "filha, acho que você gostará deste livro. Bingo. Não só gostei, como me tornei uma aficcionada pela escritora, colecionando toda a sua obra e lendo cada um dos exemplares, os quais me desfiz de quase todos há um ano, para que outras pessoas pudessem sentir o prazer que tive.

5. Meu Pé de Laranja Lima - José Mauro de Vasconcelos: obra única. Foi minha primeira literatura de "adulto". Havíamos acabado de nos mudar para a Zona Norte. Conheci uma vizinha cuja filha tinha a mesma idade da minha irmã e passei a frequentar sua casa. Um dia, encontrei o livro na estante e me interessei. Tinha nove anos. Há trinta, ainda choro, tanto para assistir ao filme, quanto quando releio o livro. Leitura incansável e para a vida. Eu tinha nove anos.

6. Milagre nos Andes - Nando Parrado: nasci e cresci em uma casa de pais que liam muito. Não sei por qual motivo, me identificava mais com os gostos do meu pai. A história dos jovens uruguaios que sobreviveram a um acidente de avião, comendo carne humana e vivendo em flagelo total, emociona a qualquer pessoa que tenha sentimento. 

7. O Diário de Anne Frank - Anne Frank: é impossível não se desesperar com a história desta jovem que consegue se salvar da maior atrocidade que ocorreu na humanidade: a tentativa de extermínio de todo um povo, em plena uma guerra que dizimou um número de pessoas que até hoje gera controvérsias, mas foram milhões e milhões delas.

8. Vale Tudo - Nelson Mota: uma biografia do Grande Tim Maia, escrita de forma gostosa e irônica pelo autor, tal qual foi a vida do "síndico". Depois de ler, ouvi em audiobook e mesmo conhecendo a história e sabendo que o personagem morria no final, chorei, no meio da rua, quando Mota narrou: "e morria o gordinho mais famoso do Brasil...".

9. O Escafandro e a Borboleta - Jean-Dominique Bauby: esta obra foi escrita apenas com o piscar de um único olho. Após sofrer um AVC, Jean desenvolve esclerose lateral e perde todos os movimentos do corpo, exceto do olho, salvo engano, esquerdo. Assim, uma profissional da saúde na França desenvolve um alfabeto, que ela vai falando e ele pisca o olho quando deseja aquela letra. Uma história para chorar e repensar nossas vidas, assim como....

10. A Lição Final - Randy Pausch: professor e pai de três filhos, descobre um câncer e a sentença de morte. Ele aproveita o tempo que lhe resta para viver intensamente tudo que não viveu durante os outros anos. Comovente, triste, forte, encorajador!

11. Eu, Malika Oufkir, a prisioneira do rei - Malika Oufkir: seria pretencioso da minha parte tentar escrever algo sobre esta obra. Então deixo aqui o link da wikipedia e, se alguém se interessar, fica a linda dica: http://pt.wikipedia.org/wiki/Malika_Oufkir

12. "Animal Farm" - George Orwell: ganhei este livro em 1995, da minha chefe, em língua original. É uma obra atemporal, que mostra a sociedade antes da Primeira Guerra e podemos transportar tudo para a sociedade de hoje. "...todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros...'. Como sempre digo, quer conhecer alguém? Dê-lhe poder!

13. Abusado - O dono do Morro Santa Marta - Caco Barcellos: meu irmão me emprestou este livro e eu morava em Portugal. Certo dia, mandei-lhe um email, perguntando a ele se era normal eu estar do lado dos bandidos e torcer para que eles tivessem um final feliz. Muito sábio, ele me respondeu que a intenção do seu colega de trabalho era exatamente levar aos leitores esta sensação. Conseguiu. E com esplendor!

14. Rainha Noor - Memórias de uma vida inesperada: a biografia da ex-Rainha da Jordânia nos leva a conhecer um pouco mais deste universo tão distante do nosso, que é o Oriente Médio. Gostei tanto deste livro, que emprestei para uma amiga e não o tive de volta. Comprei de novo, emprestei de novo, e mais uma vez perdi. Comprei-o pela terceira vez e nunca mais o emprestarei.

15. As margens do Rio Pietra, eu sentei e chorei - Paulo Coelho: apesar de muita gente achar brega ler Paulo Coelho, confesso que há anos busco entender tal rejeição a um dos autores mais lidos do mundo. Li quase toda a sua obra. As últimas não me causaram grande interesse. Contudo, este livro em particular faz parte daqueles livros que vou ler e reler ao longo da vida.

16. "A Christmas Carol" - Charles Dickens: há quem considere "Oliver Twist" a obra prima de Dickens. Porém, a história do velho Scrooge e todas as lições apresentadas neste clássico, são dignas de serem apresentadas a todas as gerações, sendo a releitura obrigatória e principalmente é preciso assistir ao filme, "Os Fantasmas de Scrooge", que leva toda a história para a telona.

17. O Velho e o Mar - Ernest Hemingway: neste clássico da literatura mundial, o autor consegue levar aos leitores uma fantástica história de persistência e superação. Bom para reler de tempos em tempos.

18. O Médico e o Monstro - Robert Louis Stevenson: para mim, esta obra mostra de forma clara e verdadeira os dois lados que todo ser humano apresenta. Ninguém é o tempo todo bom. Ninguém é o tempo todo mal. Mas todos nós temos os dois lados, mesmo que um deles se manifeste apenas uma única vez na vida...

19. Marian Keys e toda a sua obra: nada melhor que um romance "mamão com açúcar" para passar o tempo. Assim são os livros da escritora irlandesa, que usa praticamente o mesmo "script" para todos os livros. Uma delícia de se ler quando não queremos pensar em nada.

20. Paulo Freire e toda a sua obra: quem conhece uma obra deste autor, se apaixona pela educação. Mas como nem tudo são flores, ao ler a próxima, e a próxima e a próxima obra, começamos a nos questionar: se é tão fácil e está tudo escrito, por que nada é colocado em prática? Por quê?

E se você acreditou que eu me contentaria com vinte obras, já foi enganado até aqui. Para a enganação ser completa, fecho com um cara que acho excepcional:

21. Margos Bagno: é inútil citar uma única obra do doutor Bagno. Seu conhecimento linguístico e sua humildade ao narrar que as diferenças não podem ser consideradas erros, leva o indivíduo comum pensar na sua arrogância e prepotência quando julga a linguagem falada e escrita de outro indivíduo. Apesar de contemplar toda a sua bibliografia, tenho como preferido o livro "A língua de Eulália".

Se você chegou até aqui, merece todo o meu respeito, consideração e mais vinte e uma indicações. Quer?

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Sobre a morte do Madiba e sobre o espírito de Natal

Decepção não seria a palavra. Indignação, tampouco. Vivemos em um mundo egoísta, individualista, no qual a maior preocupação é com o “eu”. Esta máxima tão ouvida por tantos, mas que poucos fazem algo para mudar, ficou clara para mim ontem, após o anúncio de um dos maiores líderes que a História mundial já teve: Nelson Mandela.

Com total respeito a cada opinião emitida (todos têm direito de expressar o que sente, sem julgamentos), e não me refiro, aqui, a crianças ou adolescentes. Refiro-me a pessoas adultas, cultas, entendidas, preparadas (?) para expressar opiniões congruentes com seus “perfis” pessoais e ajudar a espalhar aos menos favorecidos de conhecimento, quem foi e o que representou a figura de Mandela.

A mim, não cabe dizer quem ele foi. Não tenho conhecimento o suficiente e vocabulário para contar sobre as décadas de luta incansável de um homem pela igualdade de raças.

A segregação existe em todo lugar. Quando se fala em raça, não se cita raça negra – ou mais politicamente afrodescendente – mas sim, toda e qualquer raça que hoje, no ano de 2013 depois de Cristo, ainda guerreia por poder, por terras, por vaidade.

Mandela manteve sua simplicidade durante toda uma vida. E deixa ao mundo um legado de que é possível. Tudo que queremos é possível. Basta persistir, lutar e acreditar.

Em tempos de Natal, no país Cristão que é o Brasil – mesmo que a Constituição Federal pregue um Estado Laico – pessoas esquecem-se do propósito de Cristo: pregar a igualdade, o amor ao próximo e a ajuda aos necessitados.

Enquanto a cidade em que vivo – São Paulo – fica intransitável por conta da corrida exacerbada pelo consumo, vejo instituições sociais que cuidam de idosos, crianças carentes, deficientes físicos que são abandonados pelos pais por não acreditarem ser capazes de criar seus filhos – e poderia citar muitos outros casos – abandonados, a ver navios, contando com as poucas e restritas contribuições que chegam da mesma forma em qualquer mês do ano. E em vários lares cristãos, serão trocadas dezenas de presentes, haverá mesas fartas, com tanta comida que pessoas passarão mal no dia seguinte, como se só existissem no ano dois dias para se comer. Fica a minha pergunta: quais são os seus valores de vida?

Cresci em uma família que sempre comemorou o Natal. As recordações que tenho de infância jamais serão sentidas por meus filhos, pois a forma a qual decidimos incutir esta data na memória deles, foi de um dia de reflexão, de oração, de pedir pelos necessitados e principalmente, de agradecer por todo o privilégio que temos, por nossos corpos físicos perfeitos, pela cama quente e pelo alimento sagrado que temos diariamente. Mas tal gesto não faz parte do nosso ritual apenas na noite de Natal, dia simbólico para comemorar o nascimento de Jesus. Semanalmente, unimo-nos os quatro para mostrar gratidão por mais uma semana de vitórias e pedir paz e saúde para a próxima, não apenas a nós, como a todos os nossos irmãos.

Que mais pessoas possam seguir os exemplos de grandes homens: mais amor ao próximo!


Descanse em paz, Grande Homem!

domingo, 1 de dezembro de 2013

Sobre o pagamento que recebi por meus trabalhos

Alguns ciclos da vida se encerram, para que outros possam surgir

Bibizoca não foi a melhor e nem a puor aluna até o sexo ano, quando a escola mudou o sistema de ensino e precisei mudá-la de escola. O fato de estar adiantada um ano afeta muito o desenvolvimento da criança nesta mudança, do Fundamental I para o II.

No período em que esteve na outra escola, dois anos e meio, foi um tempo de provações em minha vida. A coordenação, a direção da escola e a terapeuta fizeram tudo que tinham ao seu alcance para que ela se enquadrasse em um padrão "normal" como os outros colegas. Entretanto, foram notas baixas, advertência, suspnsão e a minha sorte é que ela nunca foi pra conselho de classe. Assim, aos trancos e barrancos, chegou ao nono ano. Desde a saída da escola no sexto ano, alimentava o sonho de voltar.

Admito que não foi a vontade dela que nos fez volta-la à escola anterior. Discordávamos do modo como a escola em que ela estava fazia o rito de passagem do Ensino Fundamental para o Médio: com uma viagem para a Disney, a qual nem 10% dos alunos formandos participariam (dados da Diretora).

Unimos o útil ao agradável: ela teve que escrever de próprio punho uma declaração, comprometendo-se a estudar e entrar no ritmo da escola anterior, na qual os colegas estavam bem a sua frente.

Para nossa surpresa, e muito grata, a chave dela virou. Ela terminou o ano com CATORZE notas dez. Gabaritou em prova de física, matéria que, junto com química, nunca tinha tido contato. Ganhou concurso literário e seu soneto foi publicado em um livro. Ela, a aluna mais nova da sala, foi se superando. No segundo semestre, inúmeras as vezes em que ela me ligava pedindo pra ficar a tarde na escola ajudando as amigas.

Em maio, ela atingiu a segunda escala para bolsa de estudos em um dos melhores colégios para Ensino Médio no Brasil. Matriculamos-na, contudo, viria os desafios das escolas técnicas.

Durante esta semana, passei mal e sofri horrores. Ela quer muito fazer Edificações e este querer está naquela lista de coisas que o dinheiro não paga. Fizemos um combinado: ela teria uma semana com sono e alimentação equilibrados, comeria chocolate todos os dias para acalmar-se, mas iria estudar. E lá foi ela, com matérias do sexto até o nono ano, estudando e ralando.

Meu maior sofrimento era a culpa de não tê-la, junto com vários amigos, colocado-a para fazer cursinho preparatório. E ela jogava na minha cara que, se não entrasse, é porque não tinha frequentado o cursinho.

Hoje foi o dia da prova. Nem sei o que vai ser de mim quando chegar a hora do vestibular. Tensionei cabeça, corpo e alma em grau mil. A surpresa veio, após as dezoito horas, com a divulgação do gabarito: ela pegou segundo lugar na turma dela, passando os colegas que fizeram cursinho e cursaram todo o ciclo em uma escola mais puxada.

Não há nota de corte, uma vez que esta se estipula de acordo com as colocações gerais. Independente do resultado, para nós, ela saiu vitoriosa.

Peteleco nem há muito o que dizer. Teve médias finais DEZ em: Geografia, Português, História, Ciências, Inglês, Matemática e Alemão, e recebeu nos três trimestres um "carimbo" por ser dos melhores alunos da sala. Sua professora o elogiou o ano todo, disse que seu raciocínio está sempre a frente do que ela vai explicar e ele é um aluno nota dez.

Vários dias me deprimo por estar em casa, sem trabalho remunerado, sentindo-me menor que outras mulheres. Porém, é nesta época do ano que recebo, com juros e correções, por todo o esforço e amor dispendido em um ano.

Orgulho master das minhas crias!