domingo, 27 de outubro de 2013

A verdade sobre mim - nove dias depois


Semana passada, quando escrevi sobre meu sumiço, contei só a parte cor-de-rosa e escondi alguns pequenos detalhes, que hoje me sinto à vontade para contar.

Há dez anos, desenvolvi a depressão. Tinha uma vida agitada, baladas noturnas várias vezes por semana, academia de segunda a sábado, trabalho intenso, faculdade, viagens a trabalho, a lazer. De repente, me casei. Logo, fiquei grávida. Mais logo ainda, iniciei o processo de aborto no meio da estrada, indo fazer um trabalho em Taubaté, fui socorrida em um hospital em São José dos Campos e após ser medicada para que o organismo expulsasse o restante do feto, que ainda encontrava-se nas primeiras semanas de formação, voltei pra São Paulo dirigindo.

Além deste quadro, conheci meu marido quando havia duas semanas que ele saia de um relacionamento de sete anos e de repente, a ex que não o queria mais, resolveu que queria sim, e minha vida tornou-se cinza e escura. Em meio a toda a tempestade, tive o apoio dos meus primeiros sogros, que levaram minha filha para casa deles e eu ficava com ela aos finais de semana. Esta foi a derradeira para que me afundasse de vez.

Até aquele momento da vida, depressão pra mim era coisa de madame desocupada que fica chorando em casa. Então eu faltei ao trabalho o primeiro dia. No segundo também. No terceiro, desliguei telefone de casa e celular. Já não acessava a internet. Chorava durante todo o dia e estava inteira quando marido chegava em casa. Pensava ser forte o suficiente para curar aquele momento de frescura. Até o dia em que não apenas meu chefe, mas meus amigos começaram a ligar no PABX da empresa em que Toruboi trabalhava e ele se espantou com meu sumiço, pois achava que eu estava trabalhando e levando a vida normalmente. Naquele momento, ele saiu do trabalho e chegou em casa na hora do almoço, me encontrando jogada em meio ao vômito no chão do banheiro. Nem sei dizer como emagreci, mas nem na adolescência fui tão magra. Imediatamente, fomos para o pronto-socorro e atendidos por um clínico geral que também era médico do Sírio. Marido perguntou se poderíamos fazer o tratamento particular e ali começou minha saga com anti-depressivos.

A depressão é uma doença crônica. Não existe cura. As crises podem ficar anos sem acontecer e do nada, reaparecem. Quase dois anos depois de diagnosticada com depressão e morando na Europa, comecei a ter fobias. Não conseguia levar minha filha do quarto do flat em que morávamos até a portaria para pegar o transporte escolar. Acredito que somos rodeados de anjos pelo Céu, e aqueles terrenos que surgem quando precisamos. Meu anjo se chamava Cláudia, era a gerente do flat em que já morávamos há alguns meses (a Polícia Federal encontrava-se em greve e nossa mudança ficou presa no porto de Lisboa por cinco meses) e foi a Cláudia quem, diariamente, subia ao quarto, levava o café para mim e para Bibizoca, arrumava minha menina e levava-a até o transporte escolar, fazendo caminho inverso ao final do dia. Eu mal conseguia respirar, tinha a mais absoluta certeza de que morreria sufocada, suava de deixar a roupa inteira molhada e o mundo girava mais que a música do Fábio Júnior. Consegui uma médica que me receitou medicamentos fortes e eu tomava tudo escondido do marido.

Depois de dois anos fora, voltamos ao Brasil, engravidei do Peteleco e tive depressão durante toda a gestação. Ao completar sete meses, fui encaminhada a uma psiquiatra para que ela me assistisse durante o período final da gestação e a chegada do bebê. Minha tia, psicóloga, não permitiu que eu fosse à psiquiatra e me colocou para fazer terapia com uma excelente profissional. O bebê nasceu, continuei o tratamento por dois meses e me dei alta. Tudo era muito difícil, Peteleco mamava de hora em hora e eu já era um zumbi. Com três meses e meio, pedi para que aquela abundância de leite que eu produzia fosse cessada com medicamentos. Introduzi o leite comum no meu bebê, que apresentou diversas alergias até que encontramos um leite que ele aceitasse. Naquela época, a lata custava vinte e cinco dinheiros e cada uma durava um dia e meio. Conseguimos alimentá-lo com aquele leite até quando a pediatra disse que não era mais necessário, o que durou mais de um ano. Ele comia bem, de tudo, mas adorava aquele leite fedido.

Anos se passaram e senti-me deprimida de novo dois anos e meio atrás, quando sofri o acidente e quebrei a perna. Ficar dependente de tudo e de todos até para lavar os cabelos, para fazer um simples xixi me deprimiu, mas não me deu depressão.

Estar deprimida é um estado letárgico de tristeza que você não tem vontade de fazer as coisas. Estar com depressão é chorar por olhar a chuva ou pelo nascer do Sol, a qualquer hora do dia ou da noite, sem controle sobre as emoções. A depressão veio em seguida, e ao ser liberada para andar, a coisa que mais tinha medo era de cair novamente. As crises de pânico voltaram.

Segundo a associação mundial de Psiquiatria, síndrome do pânico é uma doença derivada do transtorno de ansiedade (soube disto este ano). O indivíduo entra num estado de ansiedade tão crítico, que vem o medo e o pânico. Foi neste momento que encontrei outro anjo, a Dra. L.V.M.S., conforme disse no post anterior, e que vem me tratando desde então.

Neste momento do tratamento, onde tomo suplementos, vitaminas, hormônios e mais os remédios controlados para as doenças psiquiátricas, houve alguma combinação que não se ajustou. Há quinze dias, tive uma crise de pânico horrível, sozinha em casa com Peteleco. Quando tive a certeza de que iria morrer, tive duas atitudes: a primeira de pedir que ele repetisse o telefone do Toruboi, para eu ter a certeza de que ele tomaria alguma atitude caso o quadro piorasse. A segunda, foi mandar um torpedo pra minha médica, que me ligou imediatamente, passou uma medicação emergencial para três dias e eu fiquei nova em folha. Seguindo o tratamento, a alimentação e as visitas diárias ao parque.

Contudo, vieram novas crises de pânico e a depressão se instalou no meu organismo. Quatro dias chorando sem parar e finalmente chegou o dia da terapia. O terapeuta me ordenou que procurasse a médica. Eu achei que poderia esperar até minha consulta, dia 31, mas ele disse que não, naquela quarta-feira, eu precisava de uma solução. Foi em meio à crise depressiva que escrevi o texto da semana passada, tentando elencar tudo de bom que eu estava vivendo para tentar parar de chorar. Em vão.

Liguei no consultório da minha médica, que me retornou em seguida e eu só chorava. Ela entrou com nova medicação de emergência e estava saindo para uma viagem naquele dia, não havia como me ver. Entretanto, amanhã ela está de volta e estaremos juntas para entender a situação. Sei, contudo, que ela já chegará com todos os planos, A, B, C, D.... Ela é assim, e não me abandona.

Na quarta-feira, minha amiga Elaine me ligou e conversamos bastante, tempo suficiente para que eu não chorasse e me mantivesse tranquila. Na quinta-feira, passei o dia conversando com minha amiga Lilly por email e ela me ensinou uns truquezinhos para melhorar. Com a medicação e o carinho, mais os cuidados do meu Petelequinho, que virou um gigante e me surpreendeu, mudou-se de mala e cuia para meu quarto para cuidar de mim (enquanto marido está a trabalho pela Ásia) e assim, meu bebê tornou-se um homem. Cuida da minha alimentação, me leva ao parque para respirar e ontem conseguiu me tirar de casa para ir ao aniversário de uma amiguinha, o que me fez super bem, pois a família desta amiguinha é minha conhecida há anos, e estive muito feliz por reencontrar pessoas queridas, conversar e rir. Sim, eu ri e ri muito. E mesmo hoje sendo acordada pela minha mãe, não fiquei estressada, não fiquei de mal humor e fui ao parque caminhar. A novidade é que, além da caminhada, comecei a intercalar com trotes e para quem até seis semanas atrás subia e descia as escadas de casa suando em bicas, intercalei cinquenta passos com cem trotes.

Logo, por mais que todas as notícias possam ter parecido ruins, eu estou bem, passei mais uma vez por todo este transtorno que me cercará por toda a vida; porém, cada vez mais sei como me auto-socorrer, como me ajudar e superar tanta dor que surge do nada e vai embora sem aviso prévio.

Assim inicio uma nova semana e desejo que todos tenham luz em seus caminhos, assim como ela ilumina o meu!

Beijos e obrigada a cada um que passa por aqui e me deixa seu carinho.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Por onde andei, enquanto vocês me procuravam

Meus amigos,

É com muito amor e carinho que lhes escrevo esta mensagem, após passar quase quatro semanas sem acesso ao Facebook e receber tantos emails, mensagens inbox e algumas mensagens na timeline.
 
Poucas pessoas sabiam que eu precisaria dar este tempo para cuidar de mim.
 
Há três meses, comecei a fazer um check up completo, destes que envolvem REMA, Tomo, ultrassonografias. Foram testes de imagens e laboratoriais feitos ao longo de noventa dias, para que minha médica conseguisse definir um diagnóstico preciso sobre alguns problemas de saúde que me acompanham.
 
Os resultados não foram bons, mas assim como acredito em anjos no Céu, acredito que eles também existam na Terra, e aqui, a minha atende pelo nome de L.V.M.S. É ela quem tem me assistido há exatos dois anos e que me resgatou à vida. Na nossa primeira consulta, ao final de setembro de 2011, estava andando ainda com andador, não conseguia pisar o pé esquerdo com firmeza e tinha medo. Muito medo. Medo de andar, de cair, de passar de novo por uma cirurgia e este medo me deixou em um estado de pânico grave. Logo na primeira consulta, L. me abraçou e afirmou que estaríamos juntas nesta luta até o fim.

Desde os nove anos de idade, pratiquei esportes. Comecei com natação, jazz, balé, e conforme a idade foi aumentando, introduzi musculação e todos os tipos de esportes que o tempo me permitia. Assim foi até os vinte e oito anos. Foram dezenove anos de exercícios físicos diários, e em muitos dias, cheguei a passar cinco horas na academia. A endorfina se torna um vício necessário para quem malha. Além dos exercícios físicos, comecei a trabalhar aos catorze anos, e desde que entrei na escolinha, aos três anos de idade quase, nunca parei de estudar. Da faculdade para a pós, da pós para outra graduação, especializações, enfim, uma vida intensa. Até que um dia, acordei em outro país, com meu marido expatriado, eu sem visto para trabalho e minha filha com três anos de idade, a qual eu só cuidava aos finais de semana.
 
Esta mudança radical na minha vida fez com que em um ano eu ganhasse sessenta quilos. Sem que eu me desse conta e só soube disto dois anos depois, quando entrei no consultório do meu GO e ele me explicou o porquê de há um ano eu estar tentando engravidar e não conseguir: a gordura era tanta, que parei de ovular. Desde então, comecei uma saga em busca de emagrecimento. Mesmo com sessenta quilos de obesidade mórbida, tinha exames clínicos inacreditáveis: colesterol e diabetes sempre perfeitos. Quinze dias após o diagnóstico de não conseguir engravidar, engravidei. Foi uma difícil gestação e quando meu filho nasceu, meu nível de esgotamento era tamanho, que eu pensava em me matar e matar o bebê. Até que encontrei uma solução: parei de amamentar, coloquei-o em um berçário, contratei uma personnal e passei a caminhar e a nadar, diariamente. Contudo, o que eu comia fazia com que continuasse sempre empatada.
 
Em 2007, encontrei um médico milagroso, que fazia qualquer pessoa emagrecer. Procurei-o muito esperançosa e o dr. Y.M. pediu-me alguns exames antes que começássemos o tratamento. Infelizmente, naquela semana, perdi meu pai repentinamente e demorei quase um ano para retornar com os exames. Com o organismo em ordem, comecei o tratamento a base de anfetaminas em altas doses, fora as demais substâncias usadas nas fórmulas. Em seis meses, eliminei os sessenta quilos e junto, minha saúde, meus cabelos, minhas unhas. A depressão veio imediatamente e associei que, se eu comesse e engordasse de volta, teria minha saúde, meus cabelos, minhas unhas. Não sei dizer se foi consciente ou inconsciente. Neste momento, estudava e cheguei a trabalhar por três anos, entre estágio e aulas de espanhol e inglês em escolas de Ensino Fundamental. Contudo, os fatos de: ter filhos pequenos, depender de empregada e ter um marido que trabalha sem parar, fizeram com que eu parasse tudo seis meses depois que terminei a Licenciatura. Era o ano de 2009 e eu tinha engordado quase trinta quilos.
 
Depois disto, vivi o maior pesadelo da minha vida. Havíamos comprado na planta um imóvel, dois anos antes, para que fosse um sonho realizado. Aquilo se tornou tudo de mais triste e terrível que vivi. Muita gente acompanhou minha saga por aqui, e ela teve fim há um ano e meio, quando vendi meu apartamento.
 
Desde que comecei meu tratamento com a Dra. L., consegui emagrecer e engordar vinte quilos. Num mês perdia dez, no outro aumentava cinco e assim foram mais de vinte meses. Cinco meses antes de conhecer a Dra. L., fui encaminhada de imediato para uma cardiologista do Sírio Libanês, Dra. A.M.B., que me detectou hipertensa e encaminhou-me para diversas especialidades, mas optei por trartar-me com medicina alternativa e ter uma única médica cuidando da minha saúde.
 
Todo este histórico de emagrece-engorda-emagrece-engorda foram afetando meu organismo de forma cruel. A priori, parei de produzir algumas substâncias essenciais e comecei a tomar suplementação. Nem assim conseguíamos aumentar a produção de nada. Até que neste check up, a coisa que mais alarmou minha médica foi o que veio escrito em um dos mais de cinquenta exames: “alto risco cardíaco”. Nos eletros, tanto em atividade como em repouso, a confirmação: meu coração está fraquinho e precisa se restabelecer. E o que faz meu corpo não produzir vitamina A, D, cortisol, dopamina (que afeta a adrenalina e todo o sistema nervoso) e outros hormônios? O estresse. Além da falta de nutrientes e do coração fraco, também apareceram seis nódulos na tireoide, seguido de um quadro de hipotireoidismo e a doutora foi clara: acabou a brincadeira. Ou você faz tudo que te disser agora, ou o resultado está aqui: “alto risco de doença cardíaca”.
 
Assim, foi-me passado um tratamento que em nenhum momento consiste em emagrecer, mas sim, em desestressar. A médica aumentou meus medicamentos para Transtorno de Ansiedade, no intuito de me ajudar a relaxar. Ordenou que diariamente eu faça caminhada. Caminhadas leves, respirando fundo e deixando o oxigênio entrar em meu organismo. Que eu sinta o barulho dos pássaros, observe a natureza e desfrute deste benefício que tenho, de morar ao lado de uma das maiores reservas florestais do Brasil. Também me passou suplementos diversos e em altas doses, para tentar repor de vez tudo que faltava. A alimentação deve ser seguida a risca: alimentação ortomolecular. Tenho que diariamente preparar minha refeição, o que fez com que a família inteira se tornasse saudável. Todos os alimentos são orgânicos, frescos, verduras, frutas, legumes, arroz integral, feijão azuki e peixes (salmão, atum, sardinha, pescada). Nem pensar em carne vermelha e o único lácteo permitido é uma colher de queijo cotagge passado no pão integral de 12 grãos no café da manhã. Tomo também dois litros de chá verde por dia e um copo de setecentos mililitros quando retono da caminhada. Com tudo isto, meu tempo tornou-se voltado a mim. Minhas consultas estão sendo quinzenais para monitorar tudo, o terapeuta tem ajudado muito no processo, mas o medo tomou conta de mim, e tenho tido crises de pânico. Na última semana, contudo, passei quatro dias em crise e foram as piores desde que fui diagnosticada há dez anos. A certeza de que vamos morrer porque não conseguimos respirar só pode ser descrita por quem já teve uma crise.
 
O fato é que ainda estou estressada. Melhorei muito. Faço alongamento todos os dias, coloco meu iPod no meu iPanda e relaxo na bola de Yoga. Desintoxiquei meu organismo, a pele está linda, os cabelos brilhantes e o único problema é que um dos remédios pode dar problema de pele. Estou com uma mancha ao lado do nariz, mas nada que não se resolva futuramente.
 
A coisa mais importante que existe neste momento na minha vida sou eu. Tudo é secundário. Tenho a vantagem de ter criado meus filhos sempre muito independentes. E eles têm curtido participar deste processo todo. Foi gratificante hoje ouvir minha filha pedindo para fritar um ovo e sentindo nojo com o cheiro. Acostumou-se com a comida saudável.
 
Tenho ingerido também muitas nozes, castanhas e termogênicos: pimenta, canela e gengibre.
 
Ainda não sei se houve mudança no meu quadro clínico. No primeiro dia, caminhei da minha casa até o parque: um quarteirão. Mal conseguia sair do condomínio. Voltei molhada e bufando.  Hoje, um mês depois, dou cinco mil e quinhentos passos no parque, fazendo subidas e descidas o tempo todo e volto sem suar, sem aquela transpiração excessiva. A falta de ar só existe se alguma crise de pânico está para surgir.
 
E se você chegou até aqui, parabéns. Merece todo o meu amor e carinho. Mesmo estando com saudades dos amigos, dos familiares, do contato virtual que me fazia rir muito o tempo todo, preciso, por ora, continuar afastada e focada no tratamento alimentar, medicamentoso, físico e mental (que envolve muita literatura especializada).
 
Não consigo responder aos emails que tenho recebido, nem as mensagens inbox no Facebook, porque graças a Deus são muitas. É bom sentir-se tão querida, e só tenho a certeza de que faço o certo, porque se eu fosse uma pessoa má, não teria tanta gente boa preocupada comigo. Agradeço imensamente o carinho de todos e prometo continuar dando notícias, mesmo que daqui a um mês, quando refarei toda a bateria de exames, para saber se avançamos em algo. E eu creio que sim! Porque não quero mais tratamentos paliativos, como acupuntura ou terapias que resolvem momentaneamente. Quero me curar de tudo e para sempre.
 
Quem quiser me ajudar, peço que coloquem meu nome em suas preces, pedidos, desejos, orações. Mesmo os ateus acreditam em alguma coisa, que o Universo pode conspirar a favor de quem está em busca de cura.
 
Deixo um beijo com muito amor e carinho para todos.
Úrsula - Pandinha