sexta-feira, 28 de junho de 2013

Sobre gratidão

Sempre fui boa ouvinte. Não conheço uma pessoa que não tenha dito isto. Tenho tanta certeza de que teria sido uma excelente psicóloga, que esta será minha próxima faculdade, todo mundo sabe.

Mesmo sendo geminiana, e tendo como característica principal a comunicação, meu ascendente deve ser aquele que escuta. Ouço, dou conselhos e estou sempre disponível. Se hoje tivesse que elencar características minhas, diria que solicitude é a primeira delas.

Não sei dizer se sou uma pessoa bondosa, generosa. O fato de sempre ouvir e ajudar, para mim, não é generosidade. Generoso foi meu pai, que por inúmeras vezes chegou em casa sem a camisa do corpo. Que recebeu a herança da avó materna, junto com seus quatro irmãos, e todos eles ajeitaram a vida. Papai emprestou a parte dele para o chefe comprar uma casa na Granja Viana, quando o primeiro condomínio de luxo estava sendo construído. Para este chefe, ele trabalhou metade da vida, sem tirar férias, mas sempre assinando que as recebia, aguardando quando o chefe pudesse pagar por tudo. E morreu aguardando.

Eu não tenho religião. Acredito no Universo e no Cosmos, na força que move a vida e as pessoas. A este Universo, dou o nome de Deus. É para ele que agradeço diariamente quando desperto: pelo teto que me cobre, pela cama que me acolhe, pela família que construí. É a Ele que peço forças para mais um dia, que eu lide com as adversidades e que possa ajudar pessoas necessitadas que cheguem a mim. Assim, ele me manda. Não gente que bate à porta pedindo comida, dinheiro. Manda-me pessoas que precisam falar, precisam de conselhos.

Ao longo da minha jornada, fui ajudada, e muitas vezes. E sempre tive gratidão. Infelizmente, existe algo dentro de mim que precisa pagar por tudo que recebe. Este é um grande ponto negativo, soa a arrogância. Mas não é. Faz parte da minha gratidão. Tenho a mais profunda certeza de que jamais fiquei devendo pra ninguém nesta vida em ajuda. Sei também que já ajudei muito mais do que fui ajudada, entretanto, mesmo nas vezes que enxerguei o limbo, tive alguma mão para me levantar.

Pessoas fogem da internet, têm medo do que está por detrás dela. Eu, como me casei com uma pessoa que conheci em uma sala de bate-papo, e este casamento dura doze anos, não tenho do que fugir, tampouco ter medo. Foi na internet que fiz infinitas amizades. Como na vida real, algumas a gente leva, outras se renovam. Minha primeira amiga de internet foi a Giovanna Burgarelli. Morava em Portugal, Orkut começava a dar as caras e marido Toruboi desconfiou daquela mulher querendo ser minha amiga. Voltei ao Brasil, desvirtualizamos, e agradeço muito à Gi, por tudo que ela já fez por mim e pela oportunidade que estou tendo hoje de me curar graças a ela.

O universo de blogueiros é um mundo muito unido. Há dez anos como blogueira, fiz diversas amizades, desvirtualizei. Há dois anos, dei um tempo no meu blog por muitos motivos. Exposição demais, não gostava da cara dele, estava sem ideias. Broxei. Nunca, porém, deixei de ler blogs dos mais diversos assuntos e lugares.

Assim, acompanhei desde o ano passado uma moça bonita do Rio de Janeiro que engravidou. Que ganhou bebê. Orei por ele em silêncio em muitos dias de hospital. E no dia do óbito, morri com aquela mãe. Uma morte tão verdadeira e profunda, que mandei uma mensagem pra ela no Facebook. Ela me retornou. Assim, passamos a trocar palavras diariamente. Li o blog dela inteiro, tudo que não conhecia sobre ela. E descobri que há alguns anos, ela havia padecido de alguns males que carrego há tempos. Perguntei-a como conseguiu sair de tudo aquilo, e a resposta veio a contento: terapia. Minha confiança nela foi tão grande, que ela conseguiu um feito que meu marido tentava há anos. Fui pra terapia. E esta terapia está me fazendo crescer, me conhecer, descobrir coisas escondidas, aceitar outras imutáveis.

Um dia, alguma amiga em comum deixou uma mensagem para esta moça e para outra, de Santa Catarina. Não me lembro do conteúdo, mas deu a entender que a de SC também havia perdido o seu bebê. Pedi a amizade desta moça e ela me aceitou.

Na vida, nada acontece por acaso. Começamos a conversar, ela foi confiando em mim, contando-me sua vida, eu fazia analogias para mostrar-lhe que aconteceram coisas ruins, mas que boas viriam. Descobri que esta pessoinha tinha apenas vinte aninhos. E neste dia, meus olhos se encheram de lágrimas. Pensei como alguém com tão pouca idade poderia ter vivido tantas coisas? A resposta veio através da minha própria história de vida, que não foi fácil e sempre cheia de porradas, as quais agradeço todas, pois com elas, veio o meu crescimento pessoal.

Fomos nos aproximando mais e mais, falando-nos todos os dias, duas geminianas, faladeiras. E a amizade se estreitava. E no caminho, algo engraçado aconteceu: ela disse que alguém falou como nos parecíamos. Não achei. Mas marido toruboi achou. E outras pessoas acharam. E assim, virei praticamente que mãe da moçoila de vinte e um aninhos, sem nunca tê-la parido. Como existem mistérios da vida.....viveremos com este.

Outro dia, com toda a liberdade que já temos uma com a outra, esta amiga me perguntou por que não arrumava meu blog, colocava um template bonito. Disse que este era meu sonho, mas não sabia fazer. Ela disse que tinha uma amiga que fazia, e me ajudaria. Perguntou o que eu queria, foi difícil explicar a ela o que era um ‘toruboi’, mas eu nem tinha expectativas de nada.

Ontem, ao final do dia, fui surpreendida com um email com meu novo template: eu, a Pandinha mãe, minha filhotinha de Panda, meu filhotinho de Panda e meu marido Toruboi. Quando olhei aquela imagem, reuni a família, e todos se emocionaram. Meus olhos se encheram de lágrimas.

Graças à Deus e a muito trabalho, tenho tudo de material que quero e muito mais do que preciso. Mas carinho, amor, amizade verdadeira não se compram. E aquilo que eu queria há tanto tempo, que já tentei com pessoas que fazem como profissão, que fazem por hobby, que nem fazem, mas sabem fazer, ganhei assim, sem pedir.

Sempre digo isto: quando fazemos algo por alguém, sabemos que estamos tentando agradar, mas jamais saberemos o quanto conseguimos agradar.

Minha filha de aparência, amiga de coração, já te disse ontem e repetirei muitas vezes: ganhei um presente inesperado, de quem eu não esperava, mas que sempre quis ter.


Há quem não entenderá o significado de uma imagem, ou até este gesto seu, mas são as pequenas coisas que trazem as grandes alegrias! Sheronh, obrigada por me fazer tão feliz. Este texto é dedicado à você, que retribuiu com gratidão tantas coisas que faço de coração por pessoas que permeiam minha vida!

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Sobre cabelos: minha única vaidade

Há dois dias que estou chorosa. E não é TPM, uma vez que já tem quase oito anos que optei por usar o contraceptivo Mirena, e mesmo com o marido vasectomado, nada pode ser melhor do que este dispositivo intra-uterino para conter as cólicas e dores de cabeça alucinantes que eu tinha antes do uso dele.

O motivo da minha sensibilidade é "quase" que único: meus cabelos.

Quem me acompanha há anos, ali no dia-a-dia, e não aparece só para festas, necessidades e oba-obas, sabe que em 2007/2008, fiz uma dieta maluca, com acompanhamento médico quinzenal, a base de doses altíssimas de anfetaminas. O resultado da dieta começava a ser percebido de forma tão brutal, que a pediatra alopata dos meus filhos, preocupada com a minha saúde, fechou a agenda dela uma tarde inteira e se deslocou do Hospital das Clínicas até a Zona Norte. Queria conhecer o médico, saber se de fato se tratava de um profissional da saúde e, também obesa, pedir tratamento para ele. Feita a conferência, ela me deu o aval, no segundo mês de tratamento, para continuar com ele.

No sexto mês, eu pesava 60 quilos menos. Coisa mais fantástica de se ver. Várias amigas começaram a fazer tratamento com o mesmo médico. Algumas conseguiam resultado, algumas desistiam.

Os efeitos de anfetaminas no organismo só podem ser descritos por quem já as usou: suor, tremedeira, agitação. É uma droga. Por isto, foi proibida no Brasil já há algum tempo. Por tal motivo, nem todo mundo que começa o tratamento, consegue segui-lo adiante. No entanto, eu consegui. 

PAUSA: na infância, meus cabelos sempre foram lisos e escorridos. Descobri na terapia que este meu apego com cabelos vem exatamente deste período da minha vida. Minha irmã tinha cabelos cacheados, minha mãe sempre fazia lindas "maria chiquinhas" nela, e eu ficava olhando e admirando. Foram várias as vezes em que pedi para que minha mãe as fizesse em mim também, e ela dizia que no meu cabelo não dava. Já não bastasse eu me achar feia, também tinha um cabelo feio. Não, minha mãe jamais disse que meus cabelos eram feios. Mas a minha leitura de criança foi esta. Cansada daqueles cabelos lisos, um dia, deixei de penteá-los. Ao invés de passar o pente ou escova, amassava os cabelos até que eles estivessem muito secos. Com o tempo, aquela coisa lisa começou a ganhar volume. E beleza. A cor peculiar, um ruivo acastanhado, ou um castanho meio ruivo, naqueles cabelos longos e lindamente ondulados, sempre chamaram a atenção onde quer que eu passasse. Neste momento, deixo de ser o patinho feio, para me tornar o cisne, graças aos meus cabelos. DESPAUSA

Além de anfepramona e femproporex, a fórmula receitada pelo doutor milagroso também continua muitas outras coisas, como sene, cáscara sagrada e muitas outras coisas. Eu tinha que engolir aquelas gigantescas cápsulas, cinco pela manhã, cinco pela tarde. E fome? Nenhuma. Era algo que não existia. Sem comer quase nada, tinha uma energia fora do normal. Minha natureza já é de agitada, imagina então drogada? Nunca consegui fazer tantas coisas ao mesmo tempo e em tão pouco tempo.

O problema é que além dos sessenta quilos, começaram a ir embora também todas as vitaminas do meu corpo. Claro. Eu não comia. Como poderia sustentar 1,71mts de altura, em um corpo com ossos pesados, sem comer? Sem vitaminas e nutrientes, as primeiras coisas a morrer em mim foram minhas unhas e meus cabelos. 

Naquele momento, jamais imaginei que a perda dos cabelos pudesse ter algo a ver com a dieta. Ingênua, não associei nada, e passei a sofrer calada. Um dia, uma amiga me visitou e eu mostrei-lhe meus cabelos. Ela me disse uma frase que guardo todos estes anos: "você tinha os cabelos mais lindos que uma mulher já pode ter, eram sua marca registrada. Preferiria ser gorda, a ter perdido os cabelos". Contudo, a mensagem por mim recebida foi: "volte a comer, assim, seus cabelos voltarão a ser o que eram antes". 

Além do meu marido, algumas amigas vivenciaram este drama comigo. Era final de inverno na Europa. Pedi para que minha cunhada comprasse algumas boinas e me enviasse, de modo que eu conseguisse esconder aquele resto de cabelo em forma de palha que juntou sobre meu couro cabeludo.

Nada, entretanto, fazia com que eu me sentisse feliz. Comprei lenços de diversos modelos, tamanhos, texturas. Não saia nas ruas jamais sem algo cobrindo a cabeça. Até que um dia, veio a luz: minha vizinha disse que a prima dela fazia progressivas em domicílio, e que tal tratamento poderia relaxar os fios rebeldes. Como ela fazia o mesmo tratamento nos cabelos dela, parti para a progressiva. E foi meu fim. Os cabelos que restaram começaram a cair da mesma forma que caem os de uma pessoa em tratamento de quimioterapia: em tuchos. Via minha cabeça esvaziar lentamente. A cada fio de cabelo que caia, eu comia, mais e mais, na esperança de ter a beleza resgatada. Os cabelos foram nascendo de novo, ainda ruins, e pior: brancos. Era o meu fim.

Decidi comprar estes shampoos tonalizantes e pintei aquilo que restava na minha cabeça. Os brancos eu escondi, mas a feiura continuava. Passado um ano, cabelos nasciam e eram iguais aos do Cebolinha, do Neymar, ou de qualquer outro ser real ou imaginário, que tenha cabelos espetados para cima. Decidi tentar a progressiva pela segunda vez. Pela segunda vez, passei pelo mesmo processo. Desisti dos cabelos. Desisti da vaidade. Desisti de mim.

Estava novamente obesa, sem saúde e com vários problemas psicológicos.

Acredito que na vida, nada é para sempre e eu nunca, jamais, perdi as esperanças. Foi há dois anos, enquanto me recuperava do acidente que culminou com a colocada de sete pinos e uma placa de titânio na fíbula esquerda, que conheci o meu salvador. Uma vizinha minha, jornalista, pediu para que eu ajudasse ela a divulgar o trabalho de um amigo, que era seu maquiador na tevê. Ele estava fazendo progressivas para ajudar no orçamento. Quis ser a cobaia. Se tem uma coisa que tenho na vida, é persistência. Estava decidida a tentar pela última vez. Ali, naquele momento, nascia um novo pedaço de mim.

Não renasci por completo. Foi um pedaço muito pequeno. Descobri também um cabeleireiro ótimo para fazer luzes e esta dupla, que se chama Edu e Plaft, passaram a fazer de mim uma nova mulher.

Há alguns meses, uma amiga comprou um salão de beleza. Mostrou-me a qualidade do trabalho das suas funcionárias, e decidi que da próxima vez, faria a dupla "luzes-progressiva" no salão dela, desde que ela comprasse o produto que o meu amigo usava, pois nunca mais meus cabelos caíram. Ao contrário, ganharam vida, brilho e beleza. Este produto é algo bem específico. Não tem formol, e lavo os cabelos, deixando-os secar ao natural, sem necessidade de secador ou pranchas. Passei o nome do produto para ela e pedi que o comprasse inteiro para mim, não queria que o produto ficasse no salão, pois com ele em mãos, qualquer cabeleireiro poderia "progredir" meus cabelos e eu não teria preocupações. Isto aconteceu há dois meses. Como faço tudo na vida com antecedência, queria meus cabelos feitos para meu aniversário, que foi dia sete de junho.

Começou a história: o produto não chegava. E em vários momentos, minha amiga não podia falar comigo, não atendia o telefone, pois o barulho no salão é grande, e eu aguardando ansiosa. No dia do meu aniversário, uma sexta-feira, ela garantiu que na segunda estaria com o produto em mãos, que estava comprado e estava aguardando chegar. Assim, fiquei aguardando. Semana retrasada, cansei de esperar. Sabia que meu cabeleireiro estava indo para o Chile exatamente nesta semana, e não tenho coragem de entregar meus cabelos para ninguém, por motivos óbvios. Ela me disse que o produto já havia chegado, estava no shopping e no dia 17, estaria nas mãos dela. Tentei a semana passada inteira tocar no assunto do produto, e ela desconversava. 

Segunda-feira foi a gota d'água. Estamos indo viajar, férias em família, e não quero sair nas fotos com quatro dedos de raiz que ondula e me deixa com cara de sei lá o que. Ela me disse que o produto chegou, mas foi devolvido três vezes por problema no nome dela. O interessante, é que ela tem o mesmo nome para comprar este ou qualquer outro produto que chegue no shopping. E como ela mesma me disse anteriormente, quase tudo que compra para o salão, compra pela internet. Por que com o meu produto?

Discutindo com meu marido a noite, depois de muito chorar e ser consoladas por amigas, e mais ainda, depois de ter chorado muito com o Plaft e ele ter ido desesperadamente atrás do produto para mim, como um amigo faz com o outro, meu marido disse que eu era boba de ter ficado tanto tempo esperando e pior, acreditando. Fez-me entender que a mentira é patológica, mas como várias outras doenças, as pessoas não aceitam e as mascaram. Ouvir isto fez com que eu sentisse uma raiva infinita de mim. Estou acostumada com as inúmeras mentiras ao longo de 25 anos de amizade. Mas para mim, neste caso, foi traição. Conversei ontem exaustivamente o assunto com meu terapeuta, narrando diversas outras situações de mentira, e tive uma consulta de quase três horas com minha médica ortomolecular, que já deixou de ser médica há muito tempo, e hoje é minha grande amiga, e eles disseram o mesmo que meu marido. 

Sempre soube das mentiras. E sempre deixei com que minha amiga acreditasse que eu acreditava. Não me fazia mal. Como sempre diz meu marido, eu pago qualquer coisa para fugir de um conflito. Porém, estou crescendo. Estou renascendo. Com a ajuda do meu marido e destes dois profissionais da saúde, mais um tratamento espiritual que estou fazendo graças a uma grande amiga, a querida Gi, estou me curando de muitas coisas, inclusive da estupidez. Assim, decidi que não vou mais passar as mãos na cabeça das pessoas. Da mesma forma que eu estava doente e fui atrás de ajuda e de todas as alternativas para me curar, acredito que todo mundo pode - e deve - também fazê-lo. 

Com a ajuda de uma amiga querida, consegui com urgência uma pessoa de confiança para retocar as luzes, e meu anjo salvador veio em casa fazer minha progressiva. Agora vou viajar bonita, feliz, com a alma lavada e muito mais madura.

Nada em nossas vidas acontece por acaso. Pessoas entram e saem o tempo todo. Algumas voltam, outras se perdem no tempo. O que não posso perder, jamais, é meu caráter, minha dignidade, meu compromisso que tanto prego com a verdade e com o respeito ao próximo. Este tombo serviu para muitas coisas, e só tenho a agradecer minha amiga, pelo mal que ela me fez. Espero, de coração, que ela entenda o tamanho e a gravidade do problema da sua vida, e vá em busca da cura. 





Legenda das fotos: na primeira, meus cabelos antes da queda total; na segunda, os cabelos lisos da infância (foto do meu primeiro RG); as três seguintes foram tiradas quando recebi da minha cunhadinha as boinas e o tamanho da minha felicidade (detalhe para o pouco e estragado cabelo sob as boinas)

terça-feira, 25 de junho de 2013

Sobre um amor de infância

Esta história foi originalmente publicada no Facebook. Mas minha amiga Lilly acha o mesmo que eu, que as histórias no lá na Rede Social vão se perdendo, então, publico-a aqui, na íntegra:

Vou contar uma história da minha vida (de antes de eu trabalhar em #Saramandaia). Eu era pequena, tinha uns dez anos e desfilava na fanfarra da escola. Tinha um menino da 8a série que era o galãzinho da escola. Eu sempre sentava na janela, e ele vinha com a corneta do meu lado. Várias vezes, íamos para outros municípios, passavamos o dia inteiro em concursos e a volta era cansativa. Este menino lindo foi a única pessoa que levantou minha auto-estima aos dez anos, pois eu me achava um patinho feio e ele sempre "brincava" comigo. Um dia, ele disse que quando eu crescesse, se casaria comigo. Quase comi fermento quando cheguei em casa. Ele saiu da escola, mas morava na rua debaixo da minha. Um dia, quando eu já era crescida (e tipo uns 13 anos, pensado em casar sério), descobri que a namorada dele stava grávida e meu mundo ruiu. Chorei sozinha naquele dia. Os anos se passaram. Qd fui cursar Letras, encontro a irmã dele estudando Direito e revivi aquele momento tão infantil e sublime. Hoje, a minha quase ex-futura cunhada deixou uma mensagem linda em um post numa brincadeira que eu fiz. Mas o mais bonito, foi ela dizer que tenho uma família linda e um marido que me ama muito. Este é o meu maior tesouro, e nada abala esta estrutura que tanto prezamos em casa. E a minha "um dia quase" cunhada é você,Patrícia Guimarães de Souza. Muito obrigada pelo carinho. Suas palavras refletem a realidade da minha vida! Desejo tudo de bom pra vc, hoje e sempre! Um beijo no seu coração!

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Sobre um dia qualquer de uma burguesa

Acordei com um desejo de passar o dia na cama. Sei que para muita gente, isto é impossível: "como alguém consegue ficar deitada o dia inteiro?". Eu consigo. E adoro. Mas não tinha como. A lista de afazeres era enorme. Então comecei o dia.

Fiz meus agradecimentos matinais. Em um Universo com tanta miséria e pobreza, agradeci como que num ritual: "obrigada por esta cama confortável que me acolhe todas as noites, por meus sete travesseiros, por meu marido ao meu lado, por meus filhos saudáveis que estão na escola. Que eles três tenham um dia abençoado.".

Espreguicei-me. Faz bem alongar todo o corpo pela manhã ou em qualquer hora do dia. Descobri que ontem havia deixado um pacote de bolachas integrais na mesa de cabeceira. Comi e tomei meu primeiro meio litro de água, dentre os tantos que virão durante o dia. Tomei meus remédios e criei coragem para enfrentar o dia que me esperava.

Banhei-me. Troquei-me. Abri todas as janelas do 3o andar. Fiz as camas, limpei os banheiros, coloquei as toalhas pra secarem. Desci levando roupas sujas, sacos de lixos dos três banheiros e dos dois escritórios. Parei no 2o andar. Abri as janelas das duas salas e a cozinha. Juntei mais lixo. Limpei o lavabo e desci com todo o lixo e as roupas. Separei rapidamente as roupas, analisei o tempo, programei as lavagens e a primeira começou. Coloquei o lixo pra fora. Lavei as mãos, abri o freezer e programei o almoço. Voltei para o 3o andar. Separei as contas do dia 30 e do próximo dia 15. Programei a semana: dois médicos, terapia, comprar roupa, fazer "mercado", ir ao cartório, depilação,  manicure, pedicure, cabelos, sobrancelha. 

Sentei no closet e programei mentalmente as malas. Mas tinha de preparar o almoço. Corri pra cozinha, fiz tudo e de olho nas notícias e no Facebook. Almoço pronto, às 13h, chegam duas criancinhas famintas. Lembro que tenho emails do aniversário ainda não respondidos. Filho menor chega. Almoçamos. A roupa. Esqueci dela. Tiro da máquina a primeira leva e coloco a segunda. Estendo tudo e deixo o espaço de passar na lavanderia todo preparado. 

Closet de novo. Começo a separar tudo pra viagem e paralelamente, faço uma lista pra não me esquecer de nada. Tenho uma tática infalível. Penso na rotina diária. O que eu faço? Acordo e pego o tablet (carregadores separados). Levando, tomo banho e escovo os dentes (necessarie completa pronta). Precisamos de calças, blusas, casacos (estamos indo para o frio), gorros, cachecóis, lenços, botas, tênis, pijamas, camisetas, roupas íntimas, meias, brinquedos para distrair as crianças. Serão 24 horas de estrada. Acho que serão mais, mas não quero pensar nisto. Malas esquematizada. Desço e a segunda máquina terminou. Estendo e já vou passando a primeira leva. Vantagem de morar em um lugar onde venta muito. A filha mais velha chegou. Quase quatro da tarde. Lanchinho para os dois e resolvo não fazer mais nada. Adoro não fazer nada.

Passo uma água no corpo, coloco a camisola e deito-me no sofá. Cinco da tarde. Como o dia voou. Olho as agendas, confiro as lições, programo mentalmente as lancheiras de amanhã. Vai começar Malhação e ainda tem roupa no varal. Melhor tirar. Pode chover. Recolho e já passo tudo. A última máquina vai ser um lava e seca. Toalhas de banho: sempre cheiram melhor neste esquema. 

Depois de folgadamente assistir a Malhação, vejo também a novela das seis, a qual insisto e não guardar o nome. Hora do jornal. Hora do jantar. Enquanto as crianças comem, preparo as lancheiras. Lembro-me de que não fiz os exercícios de fortalecimento dos joelhos. Eles são necessários. Troco a roupa. Desço, amarro as caneleiras e vamos lá: três séries de 20 repetições. A novela das sete começou. Também não sei o nome. Enquanto ela passa, me atualizo sobre os acontecimentos do dia. Em portais, blogs e redes sociais.

Meu Deus, perdi a hora de colocar o filho menor pra dormir. Faz xixi, escova os dentes, inspeciona a limpeza, prepara o material e uniforme pro dia seguinte. Um pouco de carinho nas costas, muitos beijos, oração e....menos um filho. Um dia quase no fim. Falta ouvir as histórias da filha, bate-papo de meninas. Ela também dorme.

Melhor um banho básico pra relaxar o corpo. Marido chega. Desço de novo. As botas longas já não fecham nas panturrilhas. Haja músculos. Acompanho-o no jantar. Conversamos um pouco. Subimos. Tenho meu momento de solidão e reflexão do dia enquanto ele toma banho. E o momento é longo. Ele volta, me abraça, me protege. Conversamos um pouco e adormecemos um nos braços do outro. Até que amanhã, tudo comece outra vez!


sábado, 22 de junho de 2013

Sobre Países

É a primeira vez que participo das chamadas "blogagens coletivas". Em minha opinião, a grande maioria não passam de "bobagens coletivas". A única que já vi, e que o tema me chama a atenção, é o proposto pela Rita, lá do Canadá, do Blog Botõezinhos, que propõe todo final de semana que as blogueiras contem suas pequenas felicidades. Muita gente capta o espírito da coisa, mas eu leio tanta coisa "nada a ver com nada", que acabei nunca participando.'

Quando vi no grupo de blogueiras a proposta da Deza, o tema me encantou na hora. Afinal, sou apaixonada por países.

Minha paixão vem de bem pequena. Venho de uma infância muito pobre. Hoje, no Brasil, existe uma acessibilidade maior de as pessoas viajarem. Entretanto, quando eu era criança, jamais imaginava que meu dia chegaria.

Meu tio paterno mais velho era quase um andarilho, e vivia pelo mundo. Suas chegadas ao Brasil eram como eventos. Ele era uma espécie de "rei" para nós. Nunca esqueço-me do dia em que ele esteve na Flórida e trouxe-nos presentes "made in Flórida". Quanta felicidade.

Fui crescendo e o desejo latente de sair do Brasil crescia comigo. Comecei a trabalhar muito cedo, me empenhando muito no trabalho, e quanto mais o tempo passava, mais eu tinha a certeza de que eu cruzaria alguma fronteira. Minha primeira vez foi em 1998, aos 23 anos.

Estava no trabalho e minha chefe me disse: "vamos para a Argentina passar uma semana?". Nós duas, juntas? E quem vai ficar aqui? E como vamos pagar esta viagem (duas durangas)? Quanto custa? Nossa, eram tantas perguntas. Ela me disse que viajaríamos em uma semana de feriado de Corpus Christie, o escritório emendaria toda a semana, pois o feriado cairia na quarta-feira (este esquema é muito comum em consultorias). Logo, poderíamos viajar as duas. A agência que atendia a empresa nos faria um bom desconto, o dólar estava com um câmbio razoável em relação à nossa moeda. Pagaríamos tudo em cinco vezes. Nem fiz as contas. Dei ok para comprar minhas passagens e fazer minha reserva no hotel. E em quinze dias partimos. A viagem foi a parte mais barata da viagem. Contraditório? É que a primeira vez, a gente quer comprar tudo. Comecei fazendo estrago no Duty Free aqui no Brasil: comprei perfumes, máquina de fotografia, óculos de sol. Lá, consumi tudo que quis, trouxe presentes. Passei muito tempo pagando tudo: a viagem, o que comprei pra levar, o que gastei no caminho e tudo o que trouxe. E não me arrependo de nada.

Minha vontade e desejo de morar fora do Brasil só aumentaram. Poderia ser para qualquer lugar do mundo e em 2004, apenas seis anos depois, surgiu esta oportunidade. Meu marido trabalha em Varejo, e foi expatriado para o Chile. Lá, vivemos por um ano e aquele país é simplesmente encantador. Não conheci muitos lugares no mundo, mas o Chile é pra mim o mais bonito do mundo. Vivi lá em alguma vida passada, não há dúvidas. Infelizmente, a filial da empresa foi vendida para uma empresa local, e de lá, fomos expatriados para Portugal. 

Apesar de termos a oportunidade de viajarmos pela Europa a preços módicos, não fomos felizes naquele país. O povo português trata muito bem turistas, mas com expatriados, que estão lá 'tirando' o lugar de um deles, o negócio é outro. Minha filha tinha apenas quatro anos, sofria bullyng na escola. As leis trabalhistas são muito engessadas, meu marido trabalhava quinze horas por dia, de domingo a domingo para conseguir dar conta do seu departamento, já que seus subordinados eram totalmente insubordinados, devido à estabilidade trabalhista. O contrato de trabalho, que era pra ser de quatro anos, foi rompido por nós em apenas um. 

Foi bom, serviu de experiência, viajamos para alguns lugares, mas as recordações que trouxemos foram das piores.

Hoje, nossa família alimenta dois sonhos: ou voltarmos a morar no Chile, com meu marido conseguindo algum trabalho no Varejo local, ou nos desfazermos dos nossos bens, e vivermos no Canadá. A sorte que tenho é que casei com um homem tão borboleta quanto eu, e sabe que este mundo é grande demais para ficarmos parados em um único lugar!

terça-feira, 18 de junho de 2013

Sobre respeito, educação, cultura e conhecimento

O Brasil está vivendo um momento histórico. O país resolveu acordar. Claro que não o país, ele não faria isto sozinho. O povo está nas ruas. Em várias partes deste grande solo, cada povo clama por algo: fim à corrupção, contrariedade ao aumento de passagens, falta de qualidade na educação, e a saúde, acho que é inquestionável. Sem contar o transporte, de Norte a Sul do país, cuja qualidade é zero.

As pessoas se uniram. Não vou afirmar, mas salvo engano, o movimento começou em São Paulo, após a Prefeitura aumentar a tarifa de ônibus e metrô em vinte centavos. A coisa, contudo, tomou um porte maior, e hoje o povo clama por muito mais que vinte centavos. Este valor foi o estopim, a gota que faltava para transbordar o líquido no copo de muita gente.

Há pessoas alheias aos movimentos. Para muitas, é tudo indiferente. Respeito-as.

Há pessoas engajadas. Participam, vão às passeatas, levam balas de borrachas pelos corpos, são atingidas pelo temível gás lacrimogênio. Respeito-as.

Há pessoas que estão em casa, apoiando o movimento, divulgando informações, publicando-as em suas páginas em redes sociais, dando suas opiniões. Respeito-as.

Para qualquer atitude que tomemos na vida, devemos lembrar que, sempre e acima de tudo, há que se haver o respeito. Ele é primordial, imprescindível, e faz a diferença no caráter do indivíduo.

Muito se fala em má qualidade da educação nas escolas, sejam públicas, sejam particulares. Ontem li um texto interessante. Enquanto muitos protestam, esquecem de ensinar valores para os filhos dentro de casa. Antes de aplaudir e mostrar aos filhos o que é cidadania, é preciso mostrar aos filhos como se comportar dentro deste mundo: respeitando-o. Não consumindo produtos piratas, não jogando lixo na rua, ajudando um idoso a atravessar a rua, JAMAIS aceitar que se parem carros em vagas exclusivas (quem já esteve cadeirante, sabe a dificuldade ínfima que representa parar em uma vaga normal).

Tem gente que fala demais. E sabe de menos. E se junta em um grande grupo que sabe de menos. Aí a cobra fuma. Junta meia dúzia de palavras desconexas, ninguém entende nada e aplaude. É o ativista de sofá. Aquele que diz que vai fazer, mas não tem culhão para dar a cara a tapa. Aquele que julga quem está no sofá, enquanto assiste a tudo no camarote.

Eu não julgo. Não é minha função por aqui. Também não prego coisas que não sei. Cultura e conhecimento estão ao alcance de todos, só não vai atrás quem não quer. 

Alguns meses atrás, circulava pelas redes sociais uma notícia sobre alguma empresa. Infelizmente, dentre tantos casos que vemos corriqueiramente, não me lembro especificamente deste caso. Acordei e vi a tal notícia. Ignorei. Dali poucos minutos, alguém a compartilhou. Chamei a pessoa 'em off' e disse que não procedia, e lhe forneci as fontes para pontuar o que estava dizendo. Ao meio-dia, minha 'timeline' já estava recheada com aquela informação. Não dava mais para chamar um por um. Coloquei um aviso a todos, informando que aquilo não procedia, e que as pessoas precisam ser menos levianas ao circular mensagens sem checar as fontes, pois tal comportamento pode acarretar processo por crime contra honra, quais sejam, calúnia, difamação ou injúria (artigos 138, 139 e 140 do Código Penal Brasileiro). 

Coloquei tal texto de forma educada e totalmente informativa, respeitando a desinformação das pessoas, afinal, ninguém é obrigado a saber tudo. O fato, talvez, de ter usado a palavra 'leviana', me rendeu umas dez exclusões naquele dia.

Estou em redes sociais desde 2004. Sou uma das primeiras cadastradas no Orkut, idem no Facebook. Uso-as para tudo. Fazer amigos, reencontrar velhos amigos, divulgar informações, obter informações, rir, chorar, amparar, ser amparada. Nestes quase dez anos, contudo, uma única vez fui obrigada a excluir e bloquear um casal. Minha filha está usando aparelho dentário e, no condomínio em que eu morava, a filha do casal foi dizer que era um absurdo eu ter pago tal valor no aparelho. Fiz um desabafo na minha página. O pai da criança começou a agir de maneira agressiva comigo, postando ofensas em vários posts meus. Dei um 'print' em todas as páginas e os bloqueei. Se a situação continuasse a incomodar, seria obrigada a utilizar de recursos legais para me defender. Ainda bem que não foi preciso e o bom senso prevaleceu.

O respeito do indivíduo existe quando há divergências de opiniões. Eu não como algumas coisas por nada deste mundo. Não sou fanática por carne, mas não tenho perfil para vegetariana. Se fosse pra virar vegan, morreria. Contudo, admiro absurdamente pessoas que têm o dom de conseguir viver sem a proteína animal. Além, claro, de respeitá-las. Do mesmo modo que espero ser respeitada quando, raramente, decido saborear um bife. 

O mundo cresce na diversidade. É na troca, no dia-a-dia, que talhamos o nosso crescimento. Já é hora de adultos pensarem melhor e crescerem. Faz bem pra alma!

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Explicando a "classe média" a uma criança de sete anos

Meu filho de pouco mais de sete anos me perguntou o porquê de todo mundo tem falado tanto sobre a classe média, e em seguida, a pergunta:

- “O que é classe média?”.

A terapeuta da minha filha já me dizia: você dá informação demais para estas crianças. Responde apenas o que eles perguntam. Acontece que eu não sou prolixa, de maneira nenhuma. Minha objetividade faz com que as pessoas muitas vezes tenham raiva. Contudo, não consigo falar com criança sem contextualizar. Então comecei a explicação:

- “Filho, o ser humano é um ser gregário, ou seja, ele vive entre outros seres e depende destes para viver. Vivemos em comunidade, um ajuda o outro, pois ninguém é capaz de produzir tudo que precisa para viver. Desde que o mundo existe, existe guerra por causa de terras e por causa de poder. Então vamos pular lá pro século XVIII, que está bem pertinho da gente e quando ocorreram dois importantes movimentos para o mundo de hoje: as revoluções Francesa e Inglesa ou Industrial. Elas foram responsáveis por um momento de pensamento do homem, e dão início ao sistema capitalista de produção, que é sucessor do feudalismo. Calma que vou te explicar tudo!

O sistema capitalista é um sistema no qual as pessoas trabalham buscando ganhar dinheiro. É o que nós vivemos. Nestas duas revoluções, surgiram as indústrias. Até aquele momento, o trabalho era feito de forma manual. Pouca gente tinha o poder, o dinheiro nas mãos. Eram os senhores feudais, os donos das terras, a menor parte da população. Quando o homem aprende a pensar, e faz a revolução Francesa, e aprendendo a pensar descobre que não precisa ficar na mão dos senhores feudais, cria as máquinas e surge a revolução Industrial, o mundo se torna capitalista. Todo mundo trabalha por dinheiro, por capital, cada um quer ganhar mais que o outro. Está entendendo?

Para que tudo isto aconteça, existe uma ciência, que é a Sociologia. Ela nos faz pensar o mundo de forma crítica, percebendo as coisas à nossa volta, com raciocínio crítico. É por isto que as duas revoluções foram tão importantes, pois são as responsáveis pelo pensamento.

A Revolução Francesa durou dez anos, tendo início em 1789. É neste movimento que surgem os primeiros pensadores, os Iluministas, que pautam a ciência na razão. Os principais pensadores são Jean Jacques Rousseau, John Locke, Voltaire e Montesquieu. O Iluminismo propõe uma nova organização social. O indivíduo, dotado de razão e perfeição inata, é destinado à liberdade e igualdade social. A razão é o motivo pelo qual o indivíduo construi novas formas de vida. E assim, já começamos a falar em Liberalismo, cujas ideias e princípios eram os mesmos do Iluminismo. Você é pequeno para entender tanta coisa. Mas sua irmã, com treze anos, já entende bem tudo isto.

Na Inglaterra, Thomas Hobbes e John Locke foram os precursores da Revolução. Quando ela surge, existe a necessidade de produto (tecido), matéria-prima (lã). As ovelhas (matéria prima da lã) precisavam de pastos, com isso começa a desapropriação de terras. Quanto mais terra, mais pasto, mais tecido e maior a riqueza. Locke afirmava que o homem vinha ao mundo como uma caixa vazia, e para criar condições de falar, andar, ouvir, ver, precisava ser estimulado e a experiência é passada de indivíduo para individuo, formando, assim, a sociedade. Assim, afirma ser o homem um ser social por natureza, podendo perecer sem tal aprendizado.

A lei é algo criado com o intuito de organizar a sociedade, e nesta época, ela já existe há muitos séculos, pois desde o Império Romano – lembra que lemos sobre ele? – começaram a existir.

Muitos países não concordaram com o capitalismo. Achavam que todos deveriam ser iguais, e ainda acham. Estes são chamados de países socialistas. Só que mesmo os países socialistas têm maneiras diferentes de exercer o socialismo. Se a gente pegar Cuba, Venezuela, que ficam aqui na América, e pegar o exemplo da Suécia, da Coreia, veremos que são socialismos diferentes. Um deles quer o poder. O outro, nivela o povo pela educação, e a partir da educação, algumas pessoas podem e tem o direito de ter mais “capital” que as outras.

E onde entra a classe média que você me perguntou? Vou explicar pra você usando a nossa família, ok?

A mamãe começou a trabalhar muito cedo. O papai, um pouco mais tarde. Entretanto, sempre trabalhamos muito. Hoje, o papai trabalha quinze horas por dia, nós não temos empregada, a mamãe cuida da casa, das compras, das contas, das roupas, da comida e da família. Tudo para que possamos economizar dinheiro para outras coisas. Quando alguém trabalha com honestidade e sem preguiça, vai evoluindo no trabalho. A pessoa também precisa estudar sempre. Não pode parar. Estudando e trabalhando muito, a pessoa vai mudando de cargo e recebendo mais salário. Veja nosso caso: a mamãe e o papai eram muito pobrezinhos. Então resolvemos morar fora do Brasil, para tentarmos conseguir algum dinheiro para comprar uma casa própria e parar de pagar aluguel. Foi difícil, a mamãe ficou doente, mas nós conseguimos. Quando paramos de pagar aluguel, aquele dinheiro começou a sobrar, e aí compramos o apartamento em que morávamos. E conseguimos pagá-lo, assim, mudamos para esta casa que moramos hoje. Então ontem – no passado – éramos muito pobrezinhos. Hoje, somos chamados de classe média.

Para muitas pessoas, é feio ser classe média. É pecado. Não é uma coisa boa. Porque para muitas pessoas, quem pertence à classe média são pessoas que sentaram debaixo da árvore que dá dinheiro, com um guarda-chuva virado de ponta-cabeça, e ficaram esperando cair dinheiro. A classe média é formada por um povo trabalhador que lutou para mudar de vida. A classe média é a classe que paga taxas absurdas de impostos. Quase metade de tudo que o papai recebe pelo trabalho dele, vai para o governo. E muita gente não entende isto. É como se pertencer à classe média fosse um pecado. Muitos ainda chamam a classe média de burguesia.

Enquanto tudo isto acontece, nosso governo pensa em se tornar um governo socialista. Mas os programas sociais do Brasil não estão muito certos. Porque o verdadeiro programa social começa com a educação. A partir do momento em que todos os brasileiros tiverem direito à educação de qualidade, todos terão direito a lutar por bons empregos. Hoje, o governo tem muitos programas sociais, que distribui benefícios às pessoas, levando muitas a não lutar pela mudança de vida, porque elas não estudaram, e não sabem e nem conhecem o outro lado da vida. Deu pra entender um pouco filho?”.


“- É confuso, mas deu sim mamãe. O papai trabalha e o papai dos meus amigos trabalham e o governo dá o dinheiro da metade do salário deles para as pessoas que não querem trabalhar?”.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Sobre 'carteiradas'

Que atire a primeira pedra quem já teve carteira e nunca usou pra dar carteirada. Eu, se tivesse uma fábrica delas, usaria-as todas.

E não se trata de querer tirar vantagem não. Muitas vezes se trata de resolver mais rápido, de tirar o assunto da frente.


Explico-me: tenho muitos amigos jornalistas, além do irmão. Não sei dizer quantas vezes vi coisas erradas e ameacei chamar a imprensa, dando nome e sobrenome aos cidadãos que nos representam no quarto poder. Detesto vitrine sem preço. É lei. Temos direito. Não temos que entrar, perguntar o preço e as chatas das vendedoras terem o "poder" de cobrar da gente de acordo com o que vestimos ou aparentamos. Não ameaço com o Procon. Pergunto direto ao dono se uma visita da imprensa seria bem vinda. No dia seguinte, não há um produto sem preço.


Este é apenas um dos tantos exemplos.


Quer ver outra coisa que me irrita? Ser maltratada em supermercado. Meu marido trabalha oitenta horas por semana, sem ganhar hora extra, pois a única coisa que leva de extra é o que Maria ganhou atrás da horta. Ai a gente chega no caixa e é maltratado. Se a pessoa está lá trabalhando, não quero saber se ela ganha pouco ou muito. Quero saber que ela acordou com a outra parte que faria bem feito aquele serviço por aquele salário. Então faça. Porque até que um produto chegue ao caixa de um supermercado, só quem está nos bastidores sabe o árduo caminho percorrido. Aí vem a pessoa do caixa e acaba com tudo? Espanta um cliente que é conseguido a duras penas? Dou carteirada. Aviso que meu marido é diretor da rede. Que aquela atitude será imediatamente reportada ao chefe direto. Ligo pro meu marido e exijo meu direito de consumidora. Sem peso na consciência, pois o meu trabalho, eu faço bem feito e o valor pecuniário que ganho por ele é nada.


Mas por que este papo? Por conta da polêmica causada na última sexta, sete, envolvendo a pessoa do Promotor Público Zagallo. O indivíduo estava já há duas horas parado em meio às manifestações que têm parado São Paulo, e com hora para buscar o filho na escola. No ímpeto da emoção, teve a infeliz ideia de desabafar com sua única companhia no momento: o Facebook. Em minutos, uma viral. Em poucas palavras, Rogério Zagallo incita a Tropa de Choque, fala mal o PT e diz que aquela é ‘sua’ jurisdição, o que acontecer ali, será feita vistas grossas.


O calor da emoção fez com que o Promotor desse sua carteirada. Acontece que estamos falando de um grande jurista. Zagallo ocupa uma das cadeiras da renomada instituição de ensino Mackenzie, instituição esta que tem um dos maiores índices de aprovação na OAB-SP hoje, índice este maior que a tradicional PUC, e graças ao excelente corpo docente que conseguiu compor (falo aqui com propriedade, pois além de ter amigos que integram este corpo, tive o privilégio de ter aulas com alguns destes docentes).
Naquele momento, o indivíduo Rogério quem falava, mas por conta do calor humano que todos têm, usou sua ‘carteira’, causando polêmica, abertura de inquérito em seus processos e um provável afastamento do Mackenzie.

Sou a favor das carteiradas em um país como o nosso, onde nada funciona. Sou contra manifestações que culminem em depredação de patrimônio público. Sinto que alguém entra na minha casa e quebra coisas compradas com o meu dinheiro. E não é verdade? Sou contra manifestações que atrapalhem o ir e vir do cidadão que está no seu trajeto de trabalho, levando e trazendo problemas, preocupações, emoções.

Em minha opinião, manifestações devem ocorrer em cima dos culpados. Lá na porta do Palácio do Governo, lá na porta da Prefeitura, da casa do Alckimin, do Haddad. Jamais na Avenida Paulista, lugar este que é reduto de maternidades.

Alguém já parou pra pensar quantas mulheres desesperadas por estarem em trabalho de parto entram em processo de pré-eclâmpsia por medo de não chegar a tempo, quando tudo está parado e não se tem pra onde fugir? Alguém já parou pra pensar que, talvez, o caso do Promotor, que dizia estar indo buscar o filho, pode até não ser verdade, mas quantas e quantas mães largam seus trabalhos tresloucadas para chegarem nas escolas dos filhos antes dos seus fechamentos, e se veem paradas no meio do caminho?

O mundo anda muito cheio de julgamento e muito escasso de pensamento. Eu já deixei de julgar faz tempo. Atirar pedras é fácil, difícil é ser vidraça.

Espero que esta e outras histórias tenham um final feliz, que o mundo pense mais e fale menos, que as redes sociais tenham um cunho mais social, seja no sentido de fazer amigos, trocar ideias, e não de exposições auto-punitivas, seja no sentido ‘socialista’, de fazer o bem ao próximo, de grupos que se unem para ajudar a quem necessita! Quem sabe, assim, não sejam aposentadas muitas ‘carteiras’?


terça-feira, 11 de junho de 2013

Sobre o "Sabor de Maboque" (post atualizado com a nacionalidade correta da autora)


Há alguns anos, descobri uma escritora Angolana, através de uma comunicade de blogueiros, que escreveu um livro que leva o título deste email. A família dela saiu da colônia portuguesa quando ela ainda era muito criança, indo viver em Portugal, mas terminaram todos no Brasil.

Adulta, ela tem a oportunidade de voltar à sua terra Natal e seu desejo é apenas um: saborear aquela frutinha que marcou sua infância - o maboque.

Para mim, a infância é um período que trabalha os cinco sentidos, mas infância de filhos de mineiros é altamente palativa.

Ontem dormi oito horas da noite. crise de enxaqueca, sono desregulado. Levantei-me onze da noite para pegar água gelada. Ao descer as escadas, encontro marido sentado no sofá terminando de jantar. Ele imediatamente se levanta e me acompanha até a cozinha. Lá, valiosos presentes me esperavan.
A pessoa que presenteia alguém sempre tem boas intenções, mas jamais saberá o que realmente causou na pessoa presenteada. Confesso que não contive a emoção ao ver ali, na minha mesa de jantar, tantas espécies de "maboque". As lágrimas desceram sem que eu as pudesse conter.

Há seis anos, meu pai teve um enfarte fulminante. Morava em Minas, sua terra natal. Cuidava deuma tia doente. Alimentou-a. O "moço do queijo" passou e ele pediu duas peças para o dia seguinte. Eram 14h. Às 15, ele faleceu. No dia seguinte, após o sepultamento, estávamos todos na casa da matriarca da família, minha bisavó, e onde meu pai morava, e ao meio-dia o "moço do queijo" veio trazer as duas peças de queijo encomendadas. Estranhou a quantidade de gente e desmaiou quando soube do acontecido. Trouxemos aquelas duas peças de queijo, e viemos dentro do ônibus, meus irmãos e eu, com a última recordação do meu pai.

Receber estas peças de queijo foi como receber algo enviado por meu pai, direto da terra dele, de alguma forma.

Só quem é de família mineira consegue entender este vínculo forte com a família e com as raízes.

Para mim, foi o melhor presente de aniversário de todos os tempos.

* meus "maboques", queijos e doces mineiros, foram ofertados pelo Leandro, que integra a equipe do meu marido Toruboi na empresa, e que vez ou outra aparece com deliciosas gordices para alegrar meus dias!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Sobre "Bandeiras"

O que eu tinha para escrever hoje, na verdade, não tem nada a ver com o que escreverei. Ontem, quando fui tomar o remédio para dormir, ele se esfarelou todo, e como há três semanas houve um corte radical de 50% exatamente neste remédio, às quatro da matina eu estava ainda acordada. Naquela altura, a cabeça já doia: de rezar, de contar carneirinhos, de pensar na vida.

Acordei seis e meia pra mandar filhotinho Hummel pra escola, tomei dois gramas de Novalgina, um Dramim, um Profenid e...desmaiei. Dormi até as onze e meia e levantei com a casa num verdadeiro caos, varejão pra fazer, roupas pra lavar, almoço. Mas sem dor.

Introdução feita, venho dizer que eu jamais consigo fazer uma coisa apenas por vez. Não rola comigo. Perco a concentração. Começo dez e termino as dez coisas. E entre um lixo pra fora, guardação de bagunças, comida e lavagem de roupas, vou me atualizando na blogsfera e me deparo com uma mãe vivendo a situação que vivi um ano atrás.

Ela mora com a família (marido e filhos na mesma idade dos meus, só que o menino, são dois lá) e decidiu deixar todo o conforto e luxo de um condomínio clube, priorizando os valores educacionais da família. Quando terminei o texto, respirei fundo. Não estou sozinha no mundo.

Tem gente que vai achar que tenho levantado bandeira contra mulher-mãe que trabalha fora. Longe de mim. Respeito a opção das pessoas e não levanto bandeiras, sequer políticas ou de times.

O que eu tenho enfatizado é a minha prioridade de vida em educar meus filhos. Em deixar melhores filhos para o mundo. Morava em um lugar no qual muitos filhos eram terceirizados. Onde me cansei de ver funcionários do condomínio, ganhando seus miseráveis salários, serem maltratados pelo novo rico. Vendo meninas de onze anos mostrando calcinhas para os meninos. Vi esta cena algumas vezes, debaixo da minha janela. Isto era a maioria? Nunca mensurei, mas eram muitos filhos terceirizados, e os  que não eram, tinham educação bem diferente da que idealizo e luto pra dar aos meus filhos.

De que me adiantavam quatro piscinas, lan house, salões de festas, de jogos, ateliê de pintura, espaços e mais espaços de lazer, se meus filhos pouco se interessavam por aquilo?

Mudamos. De casa, não de ideais. Hoje moramos em um condomínio de apenas vinte casas e demos a tremenda sorte de ter, em grande parte delas, crianças na idade dos meus filhos. Hoje, vejo-os felizes, porque eu sou capaz de passar a felicidade que sinto. Aqui, ninguém cuida de filho de ninguém. As mães gritam os nomes dos filhos com horário marcado no relógio, pra comer, tomar banho. Exigem respeito porque ensinam a respeitar. Aqui, apesar de ser um imóvel que custa mais que o dobro do que onde morávamos, não existe o novo rico. Existe berço. Ninguém ostenta, todos respeitam.

No fundo, acho que levanto, sim, uma bandeira: a de um futuro com filhos melhores para o mundo!


domingo, 9 de junho de 2013

Sobre amizades virtuais

Há quase dois anos não escrevo um post novo para meu blog. Pouco tempo depois de parar de blogar, bloqueei todos os posts, deixando o blog literalmente às moscas. Até que em janeiro, resolvi desbloquear os textos, comecei, abandonei de novo, e há um mês desbloqueei setecentos textos que ainda estavam "escondidos".

Neste tempo afastada da blogsfera, o que eu fiz? Desabafei todos os meus devaneios no Facebook. Sempre com mais ideias do que espaço pra escrever, relutando em retomar meu espaço por aqui, acabei criando um pseudônimo e um blog novo, que pretendia estrear neste mês.

Com o tempo, veio a pergunta: por que usar um pseudônimo e deixar de ser eu mesma? Pra agradar trouxa que fica bisbilhotando minha vida? FODA-SE! É isto aí! Não gosta do que lê por aqui, fecha a página, porque continuarei no meu espaço, na minha 'casa', com as portas escancaradas e livres pra quem quiser entrar, liberdade, a mesma, que usarei para dizer o que bem entendo!

Estou completando dez anos como blogueira, e este é meu quarto blog. Depois deste, criei alguns outros, que estão no ar, mas não estão ativos. Agora, quero reativar este cantinho que tanto me faz bem, e que me trouxe tantas pessoas queridas na vida!

Do blog, levamos pessoas para as relações nas redes sociais. E destas relações, surgem novas relações. Algumas blogueiras, outras ex-blogueiras, outras novas blogueiras.

Passei momentos muito difíceis nos últimos dois anos, principalmente em relação à minha saúde. Nestes momentos, conseguimos direitinho separar o joio do trigo, e quando é possível visualizar esta separação, passamos por um processo interior de crescimento tremendo. Acredito também que a proximidade com os quarenta tem ajudado nesta maturidade que insiste em tomar conta de metade de mim. Porque a outra metade, para (in)felicidade geral da nação, nasceu e morrerá criança.

Fiz muitas amizades no Facebook nos últimos tempos. De vários lugares, de várias idades, das mais diferentes tribos. Não tenho dúvida de que estas pessoas foram fundamentais e essenciais neste meu processo de cura. 

Ainda há pessoas que têm medo da internet. Respeito. Como respeito toda e qualquer opinião, e exijo que as minhas sejam respeitadas. É no respeitar que encontramos a grande 'sacada' de viver: saber que somos diferentes, e as diferenças agregam, principalmente quando são contrárias às nossas vontades, desejos, opiniões.

Graças às amizades virtuais, resolvi retomar este espaço. Graças às amizades virtuais, fui convidada pra fazer parte de alguns grupos de blogueiras na internet e estou resgatando projetos de vida.

A amizade é a essência do indivíduo. Já disse Rousseau, que somos seres gregários, e precisamos viver em sociedade. Então, um viva à sociedade, mesmo que ela seja alternativa!

p.s.: Quero deixar um beijo pra amiga blogueira Cacau Venturini, que achou que eu tinha retomado o blog. Amiga...agora sim, estou voltando!