terça-feira, 19 de abril de 2011

Por que estou sumida?

Estou sumida por estar tentando me encontrar. E quando entramos em um processo de busca, acabamos encontrando mais coisas que procurávamos. É aí que mora o perigo da terapia. Só que meus encontros não são apenas pessoais. Estou reencontrando o mundo. E nele me revolto cada vez mais.

Vivemos em um mundo desprovido de valores. Por várias vezes, arrependo-me de ter posto filhos neste. Pessoas são fúteis, preocupadas cada vez mais com o seu eu. Será que isto traz felicidade?

Não consigo enxergar felicidade em tirar vantagem do próximo. Não consigo entender mais o trânsito caótico e cada um pensando em si. Carros estacionados nas vagas de idosos e deficientes físicos. Pessoas furando fila. Consumindo pirataria. Burlando fiscalização.

Todo mês de abril é a mesma coisa. Revolto-me com o lixo que é o país em que vivo, no qual só pago, só tenho obrigações e nenhum dos meus direitos são cumpridos. 

Revolto-me ainda mais ao ler o blog de um jornalista brasileiro que abandonou tudo: estabilidade de emprego na maior empresa de telecomunicações da América Latina, outro emprego em uma emissora pouco menor, família, amigos e foi encontrar a paz do outro lado do planeta. Por acaso, este cara especificamente é meu irmão. Contudo, há várias outras histórias, como a dele, mundo afora. E quando acordo e me deparo com um texto destes, questiono-me mais ainda: o que o Brasil oferece para nós?

Sem querer abusar da metalinguagem, mas já abusando, encontro ainda este texto. Outro jornalista brasileiro, que saiu e foi embora. Só que este voltou. E encontrou a realidade brasileira na volta. Com a experiência de que existem lugares decentes para se viver, a revolta se torna ainda maior.

E já que estou abusada, trago outra amiga jornalista. Uma pessoa inteligente ao extremo. Sua inteligência, contudo, empata com sua humildade. Não é o que estou acostumada a ver. Pessoas muito cultas e muito inteligentes tendem a ser arrogantes, a se acharem melhor que as outras. Esta minha amiga é especial, pois sua simplicidade serve de exemplo para muita gente. E dentro desta sua humildade, conversávamos no chão da minha sala sobre a educação dos nossos filhos. Sobre a falta de uma escola que eduque nossos filhos de modo que eles possam competir com o mundo lá fora, um mundo que não é este Brasil. Nossa conversa daquele dia me deixou reflexão para vários outros. Será que existe aqui o que estamos buscando?

O povo brasileiro é um povo politicamente engajado. Engajado em denegrir a imagem da Arezzo, que usou pele de animais para criar 300 peças da sua nova coleção. Pagou seus impostos e fez tudo dentro da legalidade. Porque as pessoas preferem comprar peles de animais de maneira ilegal. As pessoas sentem-se felizes em usar "fakes" de bolsas Louis Vuitton. Dá status. É glamouroso. As pessoas sentem-se felizes em ter, pouco preocupando-se com o ser.

Gosto de coisas boas. Um bom restaurante, uma boa viagem, um bom carro, um bom lugar pra morar. Quem não gosta? Só que as coisas são boas para mim, não para mostrar status para meu vizinho. Não para levantar bandeira do ecologicamente correto. 

Minha parte para o mundo eu estou deixando. Chamam-se Isabela e Leonardo, e por mais que achem que eu seja rígida demais na criação do meu legado, é assim que vai ser. Ensinarei a estes dois seres que pessoas são mais importantes que coisas, sempre. Que coisas vão embora e que pessoas ficam. Que fidelidade e lealdade são riquezas mais valiosas que o dinheiro. Que por mais injustas que sejam as leis, elas precisam ser cumpridas, para que possamos acordar todos os dias e sair de casa com a cabeça erguida. E que felicidade não precisa ser dita; quando ela existe, está estampada dentro de nós que transparece num olhar.

Infelizmente, não é possível entrar no mundo de Poliana. Pois se fosse, com certeza lá seria o melhor dos mundos para mim. Entretanto, continuarei lutando e tentando. Se eu conseguir fazer bem feito este meu árduo trabalho de mãe, e transformar duas pessoinhas em seres de bem, terei feito algo grandioso.

Uma Feliz Páscoa para todos. Que este momento da Ressurreição de Cristo sirva para que cada um possa refletir na sua responsabilidade com este mundo tão grande. Pois independente do Deus que existe para cada um, ou até mesmo para aqueles que Deus não existe, temos um compromisso com um futuro. E que ele seja bom para se viver em qualquer cantinho deste mundão.

sábado, 9 de abril de 2011

Realengo: somos todos culpados

Meu nome é Úrsula, tenho 36 anos, sou mãe de duas crianças e também professora. Além de ser humano que habita este planeta insano. Portanto, nada do que eu venha a dizer tem a ver com insensibilidade. Pelo contrário, tem a ver com indignação.

INFORMAÇÃO 1: Antes de mais nada gostaria de deixar claro que tenho depressão crônica diagnosticada oito anos atrás (quase nove, na verdade), já tive crises de pânico alguns anos atrás e tenho graves casos de doenças psiquiátricas na parte feminina da minha família materna.

INFORMAÇÃO 2: Também gostaria de dizer que sofri bulling na infância. Não foi fácil chamar-me Úrsula. Fui alvo de chacota e gozação por muitos anos. Também sofri bulling porque tinha a testa grande. Minha mãe me ensinou que era sinal de inteligência, e como modéstia a parte sempre fui inteligente, comprei a história dela e vivi feliz com as chacotas. Na época, elas nem se chamavam bulling e jamais eu teria aparecido na Rede Globo em horário nobre por ser alvo de gozações devido à minha testa grande.

INFORMAÇÃO 3: Odeio o PT. Desde criança. Odeio o Lula. Também desde criança. E odeio a Dilma. Mas esta só desde o ano passado, e ainda assim, porque ela pertence ao partido do Lula, quem eu acho um charlatão, aproveitador e manipulador de pessoas. Talvez se ela pertencesse a qualquer outro partido, pouco me importaria.

Imaginem só se eu resolvo trocar um computador ou uma máquina fotográfica por uma arma. Alguém acha que seria difícil? Não quis pesquisar na internet. Tenho preguiça. Mas acho que a dificuldade seria zero. E não tem nada que ver com arma legalizada ou não. Não tem nada que ver com o plebiscito nacional que liberou o uso da arma de fogo. Com ou sem liberdade, elas são usadas da mesma maneira.

Então eu consigo a arma ilegalmente. Aprendo a atirar. Entro na escola dos meus filhos. Ou em uma escola para lecionar. Ou ainda em outra escola que eu resolva pedir para o diretor, para o coordenador, ou para qualquer outra pessoa que tenha acesso à escola, que eu também tenha o acesso. Na minha normal aparência, tenho certeza de que eu teria dificuldade zero para adentrar qualquer instituição de ensino, pública ou particular. Assim, munida com a arma ilegal, atiro e mato algumas pessoas, crianças ou adultos.

DE QUEM É A CULPA?

A culpa é do bulling sofrido na minha infância? Do meu histórico de "loucura" familiar? Do Lula e da Dilma? Ou ainda da impunidade que nosso judiciário permite, por ter leis tão mansas, num país cujo indivíduo tem o direito a matar uma vez na vida e sair livre depois de alguns anos vivendo às custas do Estado? Ou será ainda a culpa de Deus, que não protegeu a escola? Ou das religiões que pregam fanatismo?

Não adianta buscar culpados. Não há um culpado específico. Há, sim, uma imensidão de culpados. Começando por cada um de nós.

Somos culpados quando permitimos que nossos filhos cometam pequenos deslizes. Sabotem um amigo, desrespeitem um professor, não obedeçam a nós, seus pais. Somos culpados quando terceirizamos a educação dos nossos filhos, responsabilizando as escolas por tudo de ruim que acontece. Quando permitimos que um filho faça coisas que venham a ferir princípios éticos e morais. E pior, somos culpados quando erramos e permitimos que nossos filhos convivam com estes erros.

Vivo em um mundo medíocre e hipócrita. No meu mundo, pessoas jogam cocô pelas janelas das suas sacadas, mas ninguém de fora pode saber que isto acontece. É como jogar o erro debaixo do tapete. Tampar o Sol com a peneira. A sociedade em que vivo é medíocre a ponto de um indivíduo se achar no direito de boicotar a comunicação coletiva, por não estar de acordo com a política que seu líder adotou. Este é o cidadão que cria os futuros matadores nas escolas.

Indivíduos mandam seus filhos para as escolas, muitas vezes julgando que aquela escola é a melhor. A melhor escola para meus filhos é a minha casa. Qualquer outra é apenas complemento.

Na escola da minha casa procuramos ser politicamente corretos. Não consumimos pirataria. Não fazemos contrabando. Não toleramos falta de respeito. Quando não estamos de acordo, tentamos argumentar, mas pregamos o respeito ao próximo. Educamos nossos filhos para um mundo no qual eles serão muitas vezes vítimas de preconceito e discriminação, exatamente por estarem fora dos padrões: a corrupção, a malandragem, o jeitinho brasileiro, que não acontece só em terras tupiniquins, mas em qualquer parte do mundo.

Peço profundamente em minhas preces para que haja muita luz para tantas e tantas famílias que todos os dias são vítimas do sistema que nós próprios criamos. E que não precisem ocorrer catástrofes como a da escola do Realengo para que repensemos a maneira com a qual estamos criando nossas crianças.

Paz no mundo. Utopia? 

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Reaprendendo a viver

Todo recomeço é mais difícil que qualquer começo. Quando começamos, não temos vícios, nosso corpo, nossa consciência e nossa alma estão livres de manias. Recomeçar significa apagar da memória todos os erros para que a experiência possa dar certo. Nesta nova fase da minha vida, tive que mapear tudo que estava errado e recomeçar. 

Na última consulta à cardiologista, nove dias atrás, saí com encaminhamento para várias especialidades médicas. Foram três semanas quase que vivendo dentro de clínicas e laboratórios. Se eu tivesse saído de casa de roupa branca nos últimos vinte dias, teria sido chamada de doutora, pois minha presença foi constante em alguns lugares. Todo este processo me desgastou horrores. 

Na última quarta-feira, passei quatro horas e meia em consulta domiciliar com a nutricionista. De início, tive três opções de profissionais, e tenho a certeza de que fiz a melhor escola. A profissional trabalha uma linha nutricional muito ligada à medicina ortomolecular. Acredita que nosso organismo é reflexo daquilo que inserimos nele, e no caso do meu, tudo está apodrecido.

Sei precisar exatamente o momento em que virei minha vida do avesso: quando parei de trabalhar, de estudar, de fazer academia diariamente e fui morar em outro país, cuja comida eu detestava. Depois de um ano, mudei-me para um novo país e em mais um ano voltei para o Brasil, onde cheguei e engravidei. Mais um ano que passou e resolvi mudar, mas da forma errada, tomando anfetaminas, sibutraminas e todos os inibidores de apetite existentes no mercado. Contudo, em nenhum momento me dediquei aos exercícios físicos, em nenhum momento voltei a comer bem. Simplesmente não comia. Preferia usar todas as minhas calorias diárias em um pote de sorvete, sem enviar para dentro qualquer coisa saudável.

Junto com a nutricionista, também iniciei outro tratamento alternativo: terapia holística. A profissional também foi indicação e a melhor que poderia ter tido. A terapeuta holística trata o ser humano como um todo, energizando o organismo em seus pontos falhos através da acupuntura, da cromoterapia, do uso de florais. 

Como já estou na segunda semana com a terapia holística, vejo melhoras absurdas. Desde o início não tive mais dor de cabeça. Uma vitória imensa. Meus rins restabeleceram funcionamento, voltei a urinar normalmente. Melhor ainda, minha evacuação teve uma mudança brusca, o que significa que meu intestino também vai bem, obrigada. Outras descompensações, como na vesícula e no baço serão "consertadas" com a alimentação.

Estou fazendo uma dieta de desintoxicação. Ela tem finalidade específica: preparar meu organismo para receber as vitaminas necessárias. Através dela, também tenho a regularização da pressão arterial e das vitaminas que estavam faltando no meu organismo. Consiste em fazer um desjejum com água morna e gotinhas de limão. Desacreditei quando tomei a primeira vez e, pasmem, adorei. Cada dia há uma novidade no café da manhã. Dieta preparada especificamente de acordo com as minhas necessidades e com os alimentos que gosto. O almoço de hoje, por exemplo, terá arroz integral, legumes no vapor, lentilha (amo de paixão), escarola refogada e omelete com alho poró e atum. Tudo gostoso e saudável. Faço três lanches diários (manhã, tarde e pós-jantar). O jantar de hoje é sopa de mandioquinha com espinafre e frango desfiado. Não dá para fazer cara feia, não dá para não gostar.

Minha assistente do lar tem sido a pessoa mais importante, depois de mim, neste processo todo. É ela quem tem preparado tudo com o maior carinho. Substituímos o suco artificial, muito consumido em casa, por natural. Eu tomava umas seis latas de refrigerante por dia. Na última semana, tomei apenas uma no almoço do sábado e outra no do domingo (ainda não estava na desintoxicação). Não posso tirar o refrigerante da minha vida, pois é um vício e o corte não deve ser radical. Mas a diminuição foi drástica: de mais de quarenta latas semanais, para duas. Vitória.

A acupuntura tem me ajudado a ficar calma. Na primeira sessão, dormi a tarde inteira. Ela também zerou minha dor de cabeça. Esta foi a primeira noite que dormi inteira, sem sequer levantar para fazer xixi. Com o sono restabelecido e o medicamento, minha pressão está em torno de 9x6 ou 10x7. Pressão de bebê. Os batimentos cardíacos ficam entre 60 (ao acordar) e 80 (depois de caminhar bem leve). 

De sábado até ontem tive muita falta de ar. A terapeuta aplicou tratamentos para que o pulmão, enfraquecido, voltasse ao normal. Foi resultado imediato e se não fosse comigo, duvidaria por ouvir alguém contando.

Ainda tenho um último exame para fazer e consulta com o ginecologista. Meus tumores não são de risco, e o máximo que pode acontecer, em algum caso muito extremo, é ter que tirar útero e ovário. Já tenho dois filhos, nenhuma intenção de ter outro, e retirar os órgãos do aparelho reprodutor não fará diferença na minha vida. Mas sei que não precisaremos desta histerectomia.

Devo voltar à cardiologista em duas ou três semanas, com este último exame, quando ela deve me liberar para exercícios leves em água. Quero voltar a nadar.

Junto a todo este processo de medicina alternativa que adotei, tive a felicidade em ter de volta ao Brasil minha ex-personal e amiga, que voltou ao país com várias técnicas novas no trato do indivíduo e me auxiliará na parte da recuperação física.

Dentre as mudanças adotadas, a parte de aprender a tomar café da manhã e almoçar têm sido as mais importantes para mim. Forço-me a comer pela manhã, e também a almoçar sagradamente ao meio-dia. Assim, tenho tido forças durante o dia e fome zero a noite, momento do dia onde eu cometia verdadeiras orgias alimentares.

Nos armários da minha casa não é mais possível encontrar salgadinhos, bolachas, bolos e porcarias. Não há qualquer pote de Haggen Daz no freezer. A fruteira está cheia de frutas e a gaveta de verduras e legumes abastecida. Uma grande vitória é eu fazer uso de tudo que abasteço nestes lugares.

Em menos de um mês, minha vida deu a volta. Sinto que agora estou voltando ao ponto de onde saí nove anos atrás. Para cuidar de mim, tive que esquecer dos outros. As crianças vão de transporte escolar agora e eu não me estresso mais no trânsito. Não me sinto culpada em ir com o marido fazer compras no final de semana, pouco me importa se der tempo de a casa ser limpa, o que me importa é que minhas verduras estejam limpas e bem servidas à mesa. Não quero saber dos problemas de ninguém. Preciso ser egoísta para estar inteira. Não ligo mais o computador todos os dias. Ele era um grande companheiro dos refrigerantes, então, está em "stand-by". Tirei férias da pós-graduação e só retorno na segunda quinzena de maio. 

Tenho lido muito. A psicanálise é minha companheira e me faz entender tudo que estou vivendo. Minha orientadora é alguém importante para este meu redescobrimento. 

É preciso chegar ao fundo do poço para subir. Sei que sem recursos financeiros, não poderia ter acesso a nada do que estou tendo, pois todos os profissionais custam muito caro. Então meu marido, provedor deste meu momento de luxo, é uma pessoa importantíssima nisto tudo, mesmo que não me dando toda a atenção que eu gostaria neste momento e estando envolvido profundamente nos seus problemas. Mas o dinheiro que ganha com seus problemas resolve os meus problemas. Não deixa de ser uma parceria, egoísta de ambos os lados, mas uma parceria.

Importante também ter recebido tantos emails nestes últimos dias, de apoio, de força, de orações, de carinho, de fé. Obrigada Deus, por ter pessoas ao meu redor, e principalmente por todas estarem respeitando este meu momento de solidão, o qual foi preciso para que eu pudesse entender tudo. Obrigada a todos pelas vibrações e palavras positivas, que me fizeram entender que o mundo precisa de mim de alguma maneira e ainda não era hora de eu deixá-lo.

Espero imensamente que pessoas que vivenciaram este meu processo de alguma maneira, entendam o quanto uma alimentação saudável é imprescindível para uma vida plena.

"Carpe Diem"