domingo, 31 de maio de 2009

Festa de quinze anos: comemoração ou teatralização?


Estamos vivendo uma retomada às tradicionais festas de quinze anos. Vinte anos atrás, quando fiz quinze anos, quis muito ter a tal festa. Cresci sempre com a idéia da tal festa na minha cabeça, minha tinha Ana não deixava de comentar, ano a ano, como seria a minha festa. 1989 se aproximava e nada de ninguém falar sobre a organização. Naquele ano, grande parte das minhas amigas estavam completando quinze anos, mas poucas fizeram festa. Eu queria a festa. Meu pai ficou desempregado naquele ano e vi um sonho indo por água abaixo. Tive uma infância feliz, uma adolescência sem ter do que reclamar. Sempre tive muito menos do que as outras meninas ao meu redor, fato que não me fez infeliz, ao contrário, me fez crescer com força e coragem para batalhar e conquistar coisas materiais as quais sonhava. Mas a frustração por não ter a festa de quinze anos...

Já estávamos no mês de maio. Meu aniversário chegando e a tristeza tomando conta de mim. Na minha família, não havia domingo em que não estivéssemos todos reunidos, sempre na nossa casa. Foi em um domingo de maio que a tia Ana juntou todos os tios e decidiram que eu teria a festa. Papai já havia voltado a trabalhar, mas não dava para bancar tudo sozinha. Assim, ela dividiu as tarefas: um tio seria responsável pelas bebidas, outra tia pelo vestido, ela pagaria o aluguel do salão e meus pais se comprometeriam com o resto. Tive a festa de quinze anos muito além do que eu poderia sonhar.

Claro que gostaria de fazer uma festa de quinze anos para minha filha, com tudo que ela sonhar, mas nem sei se ela sonha com isso. Quando tinha a idade dela, nem tinha idéia de como era uma festa assim. Ao contrário, ela já vem participando de algumas, uma vez que a idade chegou aqui para a mamãe e as filhas das amigas estão fazendo, pasmem, quinze anos.

No Orkut, tem uma comunidade com o mote: “festa de quinze anos”. Fico impressionada com a realidade que algumas meninas “Cinderelas” vivem. Há um tópico dentro da comunidade que questiona quanto custou cada festa. Umas custaram pouco, vinte mil Reais. Outras são mais sofisticadas, cem mil Reais. Fomos a uma festa este ano que foi um deslumbre, nem casamento eu já tinha visto tão chique, tão lindo e tão cheio de glamour. Minha filha ficou entediada. Meu marido, mal humorado. Eu deslumbrada e meu filho, por ter apenas três anos, ficou dançando na pista de dança.

Ontem, fui à festa de quinze anos de uma criança que vi nascer. Conheci a mãe dela quando ela estava na quinta série. Desde então, nossas histórias foram se construindo. Hoje, minha amiga tem quatro filhos, dois casais. Uma verdadeira benção. A pequenininha é uma surpresinha extra que chegou há quatro meses. No sanduíche entre as duas meninas, dois meninos maravilhosos. Quatro filhos lindos, inteligentes, educados. Não é fácil nos dias de hoje criar e educar um, imaginem quatro? É de tirar o chapéu.

Minha amiga é uma mulher batalhadora, dessas do tipo “Mariadocarmodasenhoradodestino”, que nada derruba. A bebê nasceu em fevereiro. Em março, o segundo filho completou oito anos e não deixou de ter sua festa, amorosamente preparada pela mamãe. Em abril, a bebê adoeceu, ficou internada e enquanto estava no hospital padecendo com a doença da pequena, se empenhava nos detalhes para a festa de quinze anos da mais velha.

Ontem tivemos a honra de participar do evento que foi a festa da minha querida “sobrinha”, a qual proibi de me chamar de tia. A festa foi linda. A família mora em um condomínio na Granja Viana, o que faz a diferença já pelo cheiro. Quando chegamos ao condomínio, já respirávamos outro tipo de ar. O tema da festa era “hippie”. A garotada toda vestida conforme o tema. Uma banda tocando música de verdade, não aquelas barulheiras “putz putz putz” que costumam ouvir. Os salgados não continham carne; além de hippies, a turma é vegetariana. O Buffet servia crepes dos mais variados sabores. Mas nada disso nos chamou tanto a atenção, como a decoração do salão. Cada detalhe foi minuciosamente planejado pela mãe, desde as florzinhas que decoravam até os banheiros, passando pelos arranjos das mesas, decorações de paredes e teto e terminando com as maravilhosas lembrancinhas.

Meu marido, apático e contrariado sempre em qualquer tipo de festa, curtiu tudo que pode. Só viemos embora porque tínhamos que vir. As crianças vieram da Granja até a nossa casa excitadíssimas, relembrando cada detalhe da festa. Minha filha fez o desfecho: “mamãe, se eu quiser uma festa de quinze anos, vai ser assim, uma festa legal, com gente legal e sem ter que ficar representando a Cinderela”. Ficou provado que o menos é mais, sendo que o mais é amor, o menos é o luxo. Até uma criança de nove anos consegue diferenciar o amor do luxo.

Minha amiga Andréa sabe o quanto a admiro e sabe também o quanto aplaudo o seu trabalho. Mas para a festa da minha sobrinha Natasha, fica aqui uma salva de palmas da nossa família!

sábado, 30 de maio de 2009

O amor em todo lugar e ao alcance de todos


Quantas pessoas ao longo da vida já não tentaram descrever o amor? Quantos poetas não usaram o amor como tema principal de suas obras? Quantos filósofos não questionaram o amor? Quantos atores não interpretaram o amor? Quantos não foram os mestres e doutores que tentaram explicar o humor através de anos de estudos e pesquisas, através de suas teses?

Perguntei ao meu filho de três anos, o que era o amor. “Mamãe, amor é assim bem grande que eu gosto de você”. Tenho até um versinho em meu caderno de versos, da época da adolescência, que define assim o substantivo em questão: “o amor é uma flor roxa que desabrocha no coração do trouxa”.

É trouxa quem ama? Então, quero ser trouxa até morrer, pois amo intensamente. E amar não é um sentimento que se tem por pessoas. Amo a vida, amo aprender cada vez mais, sou capaz até de amar quando as coisas saem do meu controle, pois me tiram da zona de conforto e me colocam problemas desafiadores, me levando ao crescimento.

O amor pode se manifestar de diversas maneiras. Podemos amar nossos filhos, nossos pais, nossos familiares, nossos companheiros, nossos amigos, nossos professores. Acho que em algum momento, amor se mistura com admiração, com idolatria. Mas não há como explicar ou como dizer o que é o amor. É um sentimento puro, verdadeiro, sem interesses, sem segundas intenções e sem explicações. Porque amar é verbo intransitivo.

Identidade estudantil


No início do ano letivo de 2009, a Uniban resolveu mais uma vez inovar e surpreender aos seus alunos, quando informou que a identidade estudantil poderia ser impressa em casa, em qualquer tipo de papel. Claro que os problemas gerados foram inúmeros. Eu, por exemplo, imprimi meia dúzia de identidades estudantis, uma vez que um pedacinho de papel é alvo de perda fácil. Foi enorme o número de pessoas que pediam aos alunos uma cópia daquele papel, para entrar em salas de cinemas, teatros, exposições. Os problemas foram se agravando quando os locais passaram a não aceitar (e com toda a razão) aquele pedaço de papel (amassado em boa parte das vezes). Há algumas semanas, os alunos do campus Osasco fecharam a Avenida dos Autonomistas fazendo várias reivindicações e, dentre elas, a volta de uma identidade estudantil descente e aceita para o pagamento parcial (direito dos estudantes). Muitos dos cursos superiores cobram dos seus alunos o cumprimento de horas de estágio cultural. Vale visitas em museus, teatros, exposições, feira de ciências, enfim, tudo que se relacionar a cultura. Dizem ser uma exigência do MEC, o que minha ignorância no assunto não permite confirmar. Moral da história: na última quarta-feira, dia 27 de maio, recebemos uma mensagem eletrônica e no dia seguinte, fomos comunicados no campus de que, finalmente, a identidade estudantil (uma de verdade), se encontrava à disposição dos alunos. Apesar dos míseros quatro dias úteis para a retirada e das filas enormes que se formaram no setor de atendimento ao aluno, não há como negar que foi uma grande vitória. Infelizmente, para que algumas decisões sensatas sejam tomadas pelos prestadores de serviço, é preciso fechar uma grande avenida em horário de pico, mas se der certo, vamos fechar a Paulista, a Berrini, a 23 de Maio. Quem sabe haja mais vitórias em prol de grandes causas.

Donkey Xote


Vou ao cinema quase que semanalmente com as crianças. Filme de gente grande, só em casa, infelizmente. Mas curto pra caramba ir com os dois fazer nosso “passeio cultural”. E há várias semanas temos assistido ao trailler do filme “Donkey Xote”. Claro que como toda edição que se preze, a desse filme não foi diferente, vendeu-se exatamente como um filme infantil, inclusive quando cita o “Shrek” e mostra seu amigo “Burro”.

Gostamos de assistir aos filmes em suas estréias. Geralmente há muito pouca gente na sala, até pelo horário que costumamos ir, vespertinão mesmo, tipo duas, três da tarde. Ontem fomos ver a sessão das seis e já achei que a sala teria muita gente. Ledo engano. Sessão exclusiva, apenas nós três.

O filme é uma graça, mas passa longe de filme infantil, principalmente para uma criança de três anos (caso do meu filho). É uma adaptação da obra de Miguel de Cervantes. A intertextualidade do filme, porém, vai muito além de “Dom Quixote de La Mancha”. Começando pela trilha sonora, que vai de baladinhas tipo “bailinho da vassoura”, passando por discoteca, música romântica espanhola e por aí vai. Há citações (implícitas ou explícitas) de outras obras cinematográficas, infantis ou adultas: “Shrek”, “Galinho Chiken Little”, “Peter Pan” e “King Fu Panda” (é o que eu lembro-me de ter identificado). No universo adulto, é possível identificar uma grande citação implícita de “Robson Crusoe”, romance inglês de aventura, no qual o protagonista vem até a América conquistar sua tão sonhada Ilha. “Kill Bill” também aparece, retratando de forma menos agressiva os golpes usados por Tarantino.

Recomendo o filme para conhecimento de mundo, pelo lado cômico e pelo próprio filme, como um todo, que particularmente gostei. Só não levem crianças pequenas. É mico na certa.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

VEMCHA (ou Japinha para os menos íntimos)


Na vida, aprendemos a admirar muito a pessoas que pouco conhecemos. Ao mesmo tempo, conhecemos muito alguém que não conhecemos nada. Paradoxal? O que não é na vida?

Hoje é aniversário da minha cunhadinha. Tenho duas cunhadas. Uma é a irmã do meu marido. A outra, a esposa do meu irmão. É a segunda quem aniversaria, e a chamo de cunhadinha, pois é casada com meu irmãozinho. Na verdade, não a chamo de cunhadinha não. Chamo-a de VEMCHA. Mas o significado dessa sigla levou semanas até que ela conseguisse desvendar cada letra. E duvido que alguém que não faça parte do nosso contexto histórico consiga tal proeza.

Por quê digo que pouco a conheço? Meu irmão foi o maior galinha que já conheci. Moleque feio e falastrão, mas vivia cheio de mulheres. Na verdade, de mulherões. Nunca vi igual. Dizem que a inteligência atrai mais as pessoas que a própria beleza. A máxima é verdadeira e meu irmão está aí para comprovar. Inteligente inato, humor inegável, alegria contagiante. Mas ex-galinha. Vivia aparecendo com namorada nova. Cada mês era uma. Até que tive uma conversa séria com ele. Papo cabeça, desses que só irmãos conseguem ter. Deitamos no chão do quarto do meu filho e lá passamos um bom tempo falando sobre nossos maiores problemas: o dele, medo de assumir um relacionamento, leia-se, casamento. O meu, emagrecer. Fomos buscar lá nas nossas infâncias as origens dos nossos problemas e medos. Resolvemos apostar: eu teria que emagrecer e ele casar. Estabelecemos prazo e multa para quem não cumprisse sua parte no trato.

Em novembro de 2007, foi aniversário dos meus filhos. Minha filha faria 8 anos e o pequeno 2. Eles tem seis dias de diferença na data do nascimento, o que até aquele momento, me permitia fazer uma única festa. Mandei o convite para meu irmão, que já sabia pela minha mãe, andava de namorada nova. O enunciado: “festa vegetariana, proibida a entrada de frangas”. Ele ligou para minha mãe e para minha irmã. Pediu que me convencessem a deixar levar a namorada.

Eu já havia dito a ele que não queria mais namorada nenhuma dele na minha casa. Que moral ele, único tio, teria com a sobrinha e com o sobrinho, aparecendo em casa cada semana com uma franga diferente? Nenhuma. Portanto, estava fora de cogitação levar a nova namorada. Minha mãe intercedeu a favor do filhinho, disse que agora era sério. Minha irmã também o apoiou. Liguei para ele e permiti que levasse a franga nova, desde que ela levasse presente. Pelo menos, na semana seguinte, quando nunca mais tivesse notícias da menina, teria algo para recordar.

Eis que ele chega com a menina. Uma japa. E nunca tinha visto meu irmão com nenhuma japa. Toda sorridente, livre, expontânea. Parecia que já era de casa há tempos. Claro que intimidei a menina a festa inteira, mas ela reagiu numa boa. Tirou fotos com a família toda e não teve ninguém que não gostasse da tal japinha. Até a dona da escola do meu filho, uma senhora muito vivida, tem até hoje recordações da “doce namoradinha” do meu irmão.

As festas de final de ano passaram, como sempre, cada um para seu lado. Chega em janeiro, já estávamos em 2008, liga meu irmão dizendo que precisa falar sério comigo. Pensei na hora: “a Japa está grávida”. Mulherengo e safado do jeito que o cara era, sempre estranhei o fato de não ter sobrinho vindo da parte dele. A conversa precisava ser pessoalmente, o que enfatizava minha certeza. Marcamos no sábado. Chegaram os dois. Junto, chega um casal de amigos, de surpresa. Fiquei inquieta. Olhava a barriga da Japa sem parar. Não via a hora do casal ir embora, para que os dois me confessassem. Como percebi que a visita se estenderia, puxei assunto: “vai, fala logo senão morro de curiosidade”. Meu irmão, cara de pilantra como nunca, enrolou e disse: “vamos para a Irlanda estudar, por um ano”.

Minha reação foi de muita alegria. Não pelo fato de não ter outro sobrinho a caminho. Mas pelo fato de ele estar assumindo com alguém a tal da relação séria, madura e estável. Também pelo fato de estarem indo embora do Brasil, desbravar o mundo gigante que existe ao nosso redor e que pouco temos oportunidade de conhecer. O embarque seria em menos de dois meses.

Como se pode perceber, tive poucos contatos físicos com a tal Japinha. Os dois últimos foram durante a organização da ida deles para a Irlanda, aquela coisa meio afobada de “precisamos nos ver muito, pois a próxima pode demorar”. Não fui ao aeroporto na despedida. Não deu. Mas foi melhor assim, pois despedidas em aeroporto são meio fúnebres, dá a sensação de “nunca mais nos veremos”.

Com a ida dos dois para a Ilha, fui criando uma proximidade com a Japinha. Fui conhecendo-a aos poucos, aprendendo a admirá-la cada dia mais. Sabe essas pessoas especiais? É assim minha cunhadinha. Ela já é especial pelo fato de ter casado com meu irmão. Mas isso é detalhe. Ela é centrada, inteligente, ponderada, culta, amiga, tem um coração gigante, é de uma simplicidade ímpar, e tem dentro de si a característica mais importante que há no indivíduo: a humildade.

Sempre tive medo do meu irmão casar-se com uma pessoa chata, que não permitisse que eu tivesse contato próximo com meus sobrinhos (se é que o cara vai fazer filhos um dia). Hoje, tenho certeza que os filhos da Japinha, meus sobrinhos, serão crianças próximas, que poderei ensinar tudo de ruim que uma tia ensina, que poderei apertar, beijar e amar. Que meus filhos amarão e criarão laços afetivos, como deve ser a relação entre primos.

À minha cunhadinha querida, Japinha, VEMCHA, desejo saúde, amor, paz, sabedoria, prosperidade, fertilidade (que venham os japinhas), paciência (afinal, casou-se com o meu irmão), inteligência. Desejo tudo de bom que se pode desejar àqueles que amamos. Parabéns não só pelo aniversário, mas por ter laçado o cara que te chama carinhosamente de Japinha. PARABÉNS VEMCHA. LOVE Ú!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Um conto de fadas

"Era uma vez, uma menina que aos dezoito anos, decidiu casar-se com o namorado que tinha desde os catorze. Os pais, em particular o pai, foram contra; mesmo assim, assinaram a documentação necessária para o casamento da filha. Após onze anos (no total) de relacionamento e sete de casamento, tudo se acabou e ela, uma independente e bem sucedida profissional, estava grávida de dois meses, com malas semi-prontas para embarcar para a América. O anúncio da vinda do bebê fez com que sua vida e seus planos mudassem totalmente. Assumiu a filha, foi “demitida” durante a gravidez, enfrentou preconceitos e discriminações das pessoas, pois ninguém sabia o real motivo do fim daquela união. Em meio a tudo isso, ainda tinha o irmão caçula, completando os seus dezoito e rebeldes anos, para criar e encaminhar na vida. Encarou tudo com coragem e em mais sete meses, saiu de seu ventre uma linda princesinha, cercada por todo o amor materno que uma criança precisa e merece. Quando sua filha tinha pouco mais de dois anos, conheceu um sapo. Mas a menina, que a esta altura já era uma madura mulher, conheceu o sapo sem conhecê-lo na realidade. Até que em 15 de junho daquele ano de 2002, o sapo convidou a mulher para um passeio na lagoa. Ao olhar para o suposto sapo, nossa protagonista descobriu que se tratava do mais belo príncipe. Naquele mesmo dia, passaram a morar juntos, tamanha a chama acesa entre os dois; a princesinha agora tinha um rei, a quem passou a chamar de papai.

Nossa menina que virou mulher, agora se transformara na mais feliz das rainhas.
Claro que nem tudo foi simples, afinal, o sapo que virou rei acabara de sair de uma relação havia somente quinze dias. O sonho do sapo que nunca foi sapo era construir uma família, ter seus herdeiros e ser muito amado por todos; nossa agora rainha, porém, não acreditava que um dia tentaria reconstruir um castelo. Após enfrentar todas as adversidades, um ano havia se passado e a família real foi morar em outro reino, não tão distante ainda. Passaram quase um ano longe de tudo e todos, casaram-se de papel passado e só não viveram felizes para sempre ainda, pois muitas coisas ainda estavam por vir. Mais um ano se passou e a família foi então morar em outro reino, desta vez já tão tão tão distante. E durante todo esse ano, tentaram de todas as formas completar a realeza daquela família, pedindo a Deus que lhes desse um príncipe. Para realizar o desejo, Deus fez com que eles voltassem todos para junto de seus familiares e naquele mesmo ano, já em 2005, o príncipe herdeiro do trono chegou.

E todos viveram felizes para sempre. E colorim colorado."

Essa história é real. É a história da minha vida. Meu Rei, dono incondicional do meu amor, meu respeito e meu coração, chama-se Milton Hummel. Há sete anos, quando o conheci, senti algo que nunca havia sentido antes. Tive pulsações diferentes e disparadas durante meses. Até hoje, passados tantos anos, dá um friozinho na barriga quando o dia vai terminando e sei que terei meu castelo completo, com todos os personagens dentro dele. Deus me deu muito mais do que pedi. Eu só desejei na vida ter uma carreira bem sucedida, nunca nada além. Mas como devo ter sido muito boa menina, Deus me contemplou com uma família linda, com dois filhos perfeitos e um marido muito além de qualquer expectativa ou perspectiva. Alguém além de qualquer sonho.

Quando conheci o Milton, virtualmente, ele tinha trinta e dois anos. Quase um mês após o encontro virtual, encontrei-o pessoalmente e se existe algo chamado “amor a primeira vista”, foi o que sentimos naquele momento; logo soube que ele era o homem da minha vida. Porém (e toda história tem que ter um porém), achava utópico me relacionar com um rapaz tão jovem para meus padrões da época. Hoje, meu marido completa quarenta anos. E o que aprendi nestes anos ao seu lado? Que ele é o homem mais honesto, mais íntegro, mais sensível, mais amigo, mais fiel, mais bonito, mais tudo que eu já conheci na minha vida. É a pessoa que quero passar toda a minha vida, sonhando, construindo, crescendo, aprendendo, amando e sendo amada. É o pai mais perfeito que já conheci.

Nossa história transcende ao conto de fadas, ultrapassa as barreiras da realidade. Não passo um dia sequer sem agradecer a Deus por reencontrar meu grande amor, que não tenho dúvidas, está comigo há muitas e muitas vidas. Não há dia da minha vida que não peça a Deus para proteger meu marido, meus filhos e abençoar sempre o respeito e amor que temos um pelo outro. Não há dia algum em que eu não me sinta a pessoa mais importante do mundo, por tamanha graça concedida. E todos os dias, ao amanhecer, meu amor pelo meu marido consegue ser maior do que no dia anterior, quando fui dormir.

Se eu usasse Oswald de Andrade para falar do meu marido, usaria “O Rei da Vela”, pela luz que ele representa em minha vida; se usasse Shakespeare, seria “King Lear”, pela bravura com a qual ele defende e protege a nossa família. Mas como sou simplesmente Úrsula Hummel, desejo-lhe uma vida plena, eterna, com sabedoria infinita.

Meu amor, felicidades não apenas hoje pelo dia do seu aniversário, pelos quarenta anos do seu nascimento; parabéns por você ser a pessoa que é; que seus próximos quarenta anos de vida sejam ao meu lado e que nosso amor, respeito e admiração continuem infinitos e duradouros. Te amo ontem, hoje, amanhã, sempre.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Discordância (ou seria discórdia?)


Ainda bem que existem opiniões diferentes para cada assunto, afinal, o que seria do mundo se não fosse a discordância entre os seres?

A coisa que mais gosto de fazer na internet é navegar pelos mais variados blogs e, após ler um texto, acompanhar as discussões que ocorrem nos comentários. Nenhum leitor se contenta ao ler determinado texto e comentar sobre ele. Tem que se ater, na verdade, em ler o texto, ler todos os comentários já postados e tecer seu comentário exatamente contra aquele mais polêmico já deixado. Tem vezes que estou com o computador no colo e começo a rolar de rir. As crianças me perguntam o porquê, mas não tenho como explicar.

Semana passada, o colunista Renato Cruz, do Estadão, publicou um artigo falando sobre as novas tecnologias dos aparelhos de televisão. A polêmica gerada envolveu não só a tecnologia, mas também a ecologia, a qualidade dos programas de televisão, as prestações que os indivíduos ainda pagam pelas suas LCD’s e até as rugas da pobre Fátima Bernardes, que se bobear nem televisão assiste, entraram na discussão. Se alguém ficou curioso em se aprofundar no assunto, segue o link da matéria.
(http://blog.estadao.com.br/blog/cruz/?title=tvs_com_telas_superfinas&more=1&c=1&tb=1&pb=1)

Ontem, estava lendo o blog do Marcelo Rubens Paiva. O que mais gosto no blog do Marcelo é a impessoalidade com a qual o renomado jornalista escreve seus textos. Traz histórias da sua vida, que muitas vezes se mesclam a importantes fatos da história do nosso país. Quem conhece um pouco sobre o período da Ditadura no Brasil ou teve a oportunidade de ler “Feliz Ano Velho”, com certeza sabe do que estou falando. Em sua última matéria, falava um pouco sobre suas aventuras quando universitário. Os comentários foram os piores. Até de bicha o sábio Marcelo foi chamado. E digo sábio por não processar um elemento assim. Eu já não teria tanta sabedoria. Fora o caráter discriminatório que o chulo termo usado carrega.

Como nem só de risadas é a vida de um leitor de blogs, hoje pude agregar um pouco de conhecimento em uma leitura. O tema era “Disritmia”. Mas o conteúdo da reportagem levava ao entendimento de que o autor falava sobre arritmia. Procurei no dicionário. Não tinha o significado para a primeira palavra. Procurei em outro. Nada. Um terceiro. Também não. Achei que já não se tratava de um erro de significado, mas que disritmia era uma palavra inexistente. Fui para os sites relacionados à medicina e saúde. Achei. A arritmia, como eu pensava, trata-se de um distúrbio (?), uma aceleração do coração. Já a disritmia tem a ver com cérebro. Espero que tenha entendido certo, afinal, sou leiga nessa área. Pode ser também que o autor tenha usado o termo “disritmia” para fazer algum trocadilho com o seu texto, ou que minha interpretação, minha análise dos seus escritos, não seja condizente com que ele quis realmente expressar.

Agora que tudo que leio me leva às mais profundas digressões, reflexões e viagens, não há como negar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Bizarrices


Segunda-feira de manhã... fui dormir quase três da madruga, estudando Psicologia. Empolguei-me, fechava o livro, tentava dormir, acendia a luz e estudava mais um pouco. Pensei em matar a primeira aula e dormiria até as 8. O senso de responsabilidade falou mais alto. Mentira, meu filho ficou com insônia as 6, levando duas horas do meu precioso sono. Levantamos, tomamos banho, café e fomos para a escola.

Na minha idade, não se vai mais para a faculdade para brincar. Quem vai, vai para estudar, aprender, agregar, crescer. Mesmo com minhas duas horinhas de sono perdidas, fui toda feliz para a aula, afinal, as três garrafas de Coca Zero que comprei antes de entrar no elevador me manteriam acordada.


A mesma vontade que cheguei de aprender, foi a que o professor chegou de não dar aula. Após comentar as manchetes do jornal de hoje, ontem, sábado, sexta (e já estava em outro mundo, pois Coca-Cola não é mágica e nem milagrosa), começou a falar sobre o show dos Jonas Brothers.
Como é que uma pessoa que estudou, trilhou um caminho da excelência acadêmica, defendeu tese de Mestrado, Doutorado, é representante de Cambridge no Brasil, se dá ao desfrute de matar o tempo falando de tamanha bobagem?


Claro que eu e minha turma de “idosas” fizemos nossas regressões, lembrando que já havíamos sido Menudetes (e tenho que confessar que até hoje sei dançar algumas coreografias). Depois de ter passado o final de semana inteiro ouvindo minha filha contar sobre cada detalhe de cada um dos três “brothers”, cantar músicas com o maldito MP3 no ouvido, mostrar fotos, assistir Camp Rock e ficar esperançosa à frente da televisão, achando até o último instante que o show passaria ao vivo, tive um início de semana assim. Ainda bem que, chegando ao carro, tinha alguns bons cd’s, com música “de verdade”, que me fizeram esquecer a fúria e o sono. Afinal de contas, quem canta, seus males espanta, portanto, não se reprima!

Passividade


Vim hoje para casa pensando sobre passividade. Tudo por causa de uma notícia que ouvi pela manhã, na CBN, falando sobre as altas taxas de impostos que nós, brasileiros, pagamos em tudo que consumimos, sejam produtos, sejam serviços. Antes de começar a desenvolver o tema, coloquei no Google Imagens a palavra "passivo", no afã de me inspirar melhor através da imagem. Apareceu tanta foto de pornografia no resultado da busca, que perdi o fio da meada; tudo que estava em minha mente para ser escrito foi por água abaixo, sumiu, como num passe de mágica.

Cada um com seus problemas, cada qual com suas manias. Eu, particularmente, não tenho o hábito ou costume de ver certo tipo de coisa. Sem preconceito, só fiquei espantada como a polissemia pode nos levar do estado de indignação pela passividade de um povo, ao estranhamento pelo povo passivo. Confuso? É assim que eu estou.

Qualquer hora retomo o fôlego e volto a pensar sobre os impostos.

sábado, 23 de maio de 2009

23 de Maio


Muitas pessoas moram em São Paulo por necessidade; outras, por anor a esta terra tresloucada, poluída, tomada 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano por um trânsito caótico. Sou um misto dos dois tipos de gente, moro em São Paulo pela necessidade de meu marido trabalhar por aqui hoje, mas também amo a diversidade que a cidade oferece, seja cultural, seja social, seja econômica. Há, porém, uma coisa particular que amo em São Paulo: a avenida 23 de Maio.

A primeira vez que dirigi naquela avenida, me senti importante. Gente grande mesmo. Um símbolo de que eu já era adulta de verdade. Não foi uma ocasião muito feliz, pois estava indo para o Instituto Dante Pazzanezze, ao velório da minha priminha de quinze anos que havia falecido aquela madrugada, por complicações cardíacas. Mesmo assim, enfrentei a fúria da avenida e lá fui eu, saindo da zona Norte rumo à Sul, sem ter idéia de como fazer para passar para o outro lado. Atravessei pelo canteiro central. Dei uma estouradinha no escapamento do carro, mas cheguei, sã e salva.

A 23, como é conhecida pelos Paulistanos, é uma das áreas mais movimentadas da nossa cidade e o principal corredor que liga as zonas Norte e Sul. Em um passado distante, ali passava um córrego, o Itororó, canalizado para passar a linda Avenida.
Seu nome tem significado histórico para os paulistanos. Foi ali, no início da 23 de Maio e neste mesmo dia em 1932, que quatro estudantes da USP foram vítimas por lutar pela revolução constitucionalista.

Tragédias a parte, a 23 de Maio me remete a glamour. Lembro-me da infância, quando ia para a casa da minha tia, em Moema, que passava por lá e via um barco enorme em meio a Avenida, a antiga danceteria Latitude. Achava aquilo um ícone de riqueza. É por lá que passei tantas e tantas vezes, rumo ao aeroporto de Congonhas, em viagens a trabalho, poucas vezes a passeio, outras tantas para embarcar meu marido. A avenida 23 de Maio é o meu cartão postal da louca cidade que não para nunca e que me oferece tudo que preciso, salvo segurança e um ar puro. O resto é só felicidade.
Úrsula Hummel

Muito dinheiro no bolso

Ao final do ano de 1996, comprei meu primeiro carro zero. Uma parcela de entrada (na verdade, uma mísera parcela de entrada) e o saldo financiado em 24 prestações fixas. Para se ter uma idéia do que representava, em valores, uma prestação fixa, treze anos atrás, pagava a quantia de R$ 600,00 cada uma. Perdi o carro ao final de doze meses. O seguro cobriu o prejuízo. Mas como o valor do automóvel havia aumentado e muito neste ano que se passou e o seguro não corrigia o valor do bem, para não sair da história com o nome no Serasa, ainda tive que pagar R$ 2.000,00 para a financeira. Decidi que só compraria outro carro à vista. Financiamento, nem pensar.

Passei 1998 juntando dinheiro. Recebia meu salário, pagava o aluguel, luz, condomínio, faculdade, consórcio, inglês, ônibus fretado, academia e guardava tudo que sobrava no bolso fundo de um casaco. Depois de um ano saindo diariamente do Horto Florestal, rumo à Berrini, no ônibus fretado, voltando para Santana e, por muitas vezes, indo para a faculdade, na Vila Guilherme, a pé, carregando todos os códigos jurídicos e a marmita vazia na bolsa, em cima de um par de saltos que apertava meus pés, decidi que era hora de ter um carro novamente, mesmo que não fosse zero. Contei o dinheiro do bolso do casaco e abri o jornal. Achei o anúncio de um Uno, 1.5, meu sonho de consumo de outros anos. Tinha só três anos de uso, movido a álcool (o que barateava o valor). Fui até o Morumbi ver o carro na Concessionária. Gostei. Falei para o vendedor que ia levar. Ele me perguntou sobre a forma de pagamento. Respondi que seria em dinheiro vivo. Comecei a tirar de dentro das calças várias notas de cinqüenta Reais. O vendedor ficou perplexo e me levou imediatamente para a Tesouraria. Sim, eu tinha ido de ônibus, do Horto até o Morumbi, carregando R$ 8.500,00 dentro das calças.

Em vinte e quatro horas (acho que após dar tempo de analisar cada uma das notas e conferir sua autenticidade), liberaram o veículo. Após alguns meses e no terceiro mês de gestação da minha filha mais velha, sofri um acidente. Desmaiei ao volante, capotei o carro e dei perda total no meu querido automóvel. Mais uma vez, tive prejuízo com o seguro. Quando comprei o Uno, quis me resguardar: segurei o veículo em um valor maior do que o mercado pagava. A perda total só era dada pela seguradora se o valor a ser pago pelo conserto fosse maior do que 70% do valor segurado. Valor maior segurado, carro mais valorizado. A seguradora mandou consertar meu Uno. Claro que o carro nunca mais foi o mesmo. Assim que minha filha nasceu, quitei um consórcio de automóvel que tinha, vendi o Uno para meu irmão, com 18 anos recém-completados, por algum valor que nem sei qual foi e fui toda feliz comprar o novo carro dos meus sonhos: um Corsa Sedan. E vermelho, minha cor favorita para carros.

Fui com minha amiga Fernanda (dessa vez no carro dela) na concessionária Guaporé. Tinha visto o anúncio no jornal, estávamos no início de 2000 e o carro era ano 1999. Seguindo conselho dos meus amigos homens, decidi comprar um carro novo, mas sem ser zero, para não pagar emplacamento e sofrer a depreciação logo ao tirar o veículo da Concessionária. Lá fomos nós, cheias de pose, como se entendêssemos tudo de carros. Demos algumas batidinhas na lataria, deitamos no chão para ver se havia problemas de vazamento, ligamos o carro, ouvimos o barulho do motor. O maior teatro para a vendedora. Fechei negócio e no dia seguinte sai com meu Chapolim da loja. Era uma sexta-feira e aos sábados, costumávamos reunir a turma toda na Portuguesa, onde todo mundo era sócio. Cheguei eu, minha bebê e meu Chapolim. Foi meu compadre o primeiro a entrar na caranga, após todos elogiarem o visual da máquina. Ao olhar o marcador de quilometragem, quase fui morta por ele e pelos outros homens presentes. O carro tinha quase oitenta mil quilômetros. Chamaram-me de imatura, inconseqüente, como pude fazer um negócio daqueles? Claro que minha frustração foi tão grande que dali três meses, troquei de carro novamente. Comprei outro Sedan, zero quilômetro, que ficou em minha companhia até a nossa partida para o Chile, quando vendi meu Corsa Sedan Azul com menos de quinze mil quilômetros e em perfeito estado. Fomos grandes companheiros de viagens, baladas, festas e histórias mil.

Mas não é exatamente sobre carros que queria falar, apenas precisei contextualizar. Acabei de ler a Veja São Paulo e, como sempre, vou até a última página para ler a crônica da semana. O Ivan Ângelo contou sobre pessoas que acham dinheiro de forma inesperada, aquele dinheirinho que todo mundo um dia esconde e alguém acha. Depois de tanta falta de sorte com carros, eis que estava no segundo Corsa, o zero. Já no quarto ano da faculdade, levanto em um dia de frio e visto aquele casaco que guardava o dinheiro para comprar o Uno. Trabalhei o dia todo, fui para a academia e de lá para a Uniban. Hora do intervalo, queria tomar um lanche, mas a grana estava curta. Fiquei passeando pelo campus com as mãos no bolso. Descobri que um deles estava furado. Rasgado na verdade. Enfiei a mão ao fundo, para descobrir o quão profundo era o rombo. Eis que encontro dez notinhas de cinqüenta lá no fundo, bem no fundo, já quase nas costas do casaco. Comecei a rir e a pular de alegria e felicidade.
Nunca ganhei nenhuma partida de bingo, nenhuma rifa, nunca fui sorteada em nada. Mas aquele dia, foi o dia da minha loteria particular, foi como se uma árvore de verdinhas tivesse sido plantada no bolso do meu casaco. Claro que depois do episódio, nunca mais deixei de vasculhar bolsos das roupas, até porque, nos ternos do meu marido, sempre há algo que se aproveitar.
Úrsula Hummel

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Túnel do tempo


Etimologicamente, a palavra nostalgia tem sua origem através do prefixo grego “nostos”, que significa retorno para casa e o sufixo “algia”, com significado de dor, aflição. O “Michaelis” define a palavra como doença ou tristeza profunda causada pela saudade da pátria. Outro dicionário complementa a definição anterior, com a sentença “saudade do passado ou de algum lugar”. Para mim, nostalgia vai além de todos os significados que encontro. Nostalgia não é algo triste, pois nem sempre a saudade significa tristeza. Nostalgia me remete a lembranças, a situações, a fatos, acontecimentos, situações vividas e sempre com um sentido positivo, me trazendo sensação de felicidade.

Quando tinha nove anos, morava na avenida Rebouças. Número 2012 (ou 2011?). O pequeno prédio de três andares, quatro apartamentos por andar, a casinha do zelador nos fundos e vagas para visitantes à frente (acho que nenhum morador tinha carro naquela época), já foi demolido. Deu lugar a um posto de gasolina. A lojinha de comidas macrobióticas que ficava ao lado, em tempos que mal se falava de vegetarianos, vegans ou qualquer outra corrente de comidas saudáveis, também se foi; já sentia gosto ruim na boca só de imaginar as comidas do local. Meu pai trabalhava na Oscar Freire, em um açougue que nem sei se ainda existe. Um dia, não sei bem dizer o porquê, ele foi transferido para um lugar muito, mas muito longe. Chamava-se Alto do Mandaqui. Não tínhamos a menor idéia de onde ficava o lugar.

Meus avós maternos e paternos moravam no Alto de Pinheiros, em um conjunto do BNH onde meus pais se conheceram. Quando minha avó paterna faleceu, um ano antes de eu nascer, meu avô voltou à sua cidade natal, Passos, cidade no Sul de Minas Gerais. Os maternos mudaram-se para Santa Cecília, onde meu avô morou até falecer e minha avó ainda se encontra. Acho que fomos parar na Rebouças devido à proximidade do trabalho do meu pai. Mas com aquela transferência, migramos para o outro lado do planeta. Era essa a sensação que a distância nos trazia.

Fui conhecer o lugar onde moraríamos só no dia da mudança. Dia dez de julho de 1983. Não sei o motivo de lembrar-me de algumas coisas com tanta riqueza de detalhes, mas era um domingo. Nosso apartamento ficava no quarto andar. Conjunto dos Bancários, um lugar com muitos e muitos mini prédios. A mudança chegou naquele domingo pela manhã e quando entrei naquele que seria meu quarto, tive a maior sensação de liberdade que já senti na vida. Enxerguei um parquinho e mal podia acreditar que moraria em um lugar com parquinho. No dia seguinte, soube que o parquinho pertencia ao condomínio vizinho, o Vitória Régia, onde fui morar depois de casada e onde minha filha nasceu. Fiz muitos amigos no Conjunto dos Bancários e no Vitória Régia. De muitas pessoas, tenho a felicidade e o prazer de ainda ter contato, notícia ou fazerem parte da minha vida, como a madrinha do meu filho.

Essa mudança foi muito difícil para mim. Estudava na Pedroso de Moraes, na escola estadual Fernão Dias Paes. Era a melhor aluna da terceira série, professora Amábile Ruy. Quando terminou o semestre, minha mãe me levou para a despedida com minha querida mestra; levamos a ela um presente e fui surpreendida também com um: o livro “No Reino Perdido do Beleléu”, que tive a felicidade de ter encontrado há uns dois anos e presenteado minha filha. Amava minha escola e o espaço dela. Mas chegar ao Conjunto dos Bancários me fez esquecê-la imediatamente.

Logo na segunda-feira, dia seguinte à mudança, fui à padaria sozinha comprar pão e leite. Senti-me como gente grande, aos nove anos de idade. Fiz amizade com uma moça que passeava com suas pequenas filhas, com idade semelhante a dos meus irmãozinhos e a amizade entre ela e minha mãe perdurou anos e anos. Não que tenha acabado. Foi apenas a questão de mudanças físicas de ambas. A Norfinha foi minha primeira "patroa". Meus irmãos iam para a escola de educação infantil e a filha mais velha dela estudava junto com a minha irmã. Minha mãe levava meus irmãos e a Norfinha me pagava alguma quantia para que eu fosse junto, levando a lancheira da sua filha Carol e dando-lhe a mão.

Durante a primeira semana no novo bairro, descobri que havia uma biblioteca itinerante, que parava todas as quartas-feiras, ao lado da igreja, onde fiz minha primeira comunhão. Minha catequista, a tia Inêz, trabalha hoje no colégio dos meus filhos e no ano que vem será a Coordenadora da minha filha, no Ensino Fundamental II. Descobri a escola mais perto da minha casa, um tal de Gastão. Meu vizinho foi quem deu a dica. Disse que tinha piscina na escola. Pedi para que minha mãe me matriculasse naquela escola e meu desejo foi atendido. Durante cinco anos e meio, o Gastão foi a minha vida. Tenho a felicidade de ainda ter contato e notícias de vários professores daquela época. Meu professor de Educação Física foi meu orientador de estágio, dois anos atrás. O de Matemática, é diretor da EMEI que fica em frente à Universidade a qual estudo. A de Língua Portuguesa ainda mora no mesmo lugar e seu sobrinho neto, pasmem, estudou ano passado na classe do meu filho. A de Desenho Geométrico encontrei há pouco tempo no salão de cabeleireiro.

Fico feliz com o advento do Orkut e a possibilidade de reencontrar tantas pessoas queridas: meu primeiro namoradinho, amigos queridos, amigas que marcaram e fizeram parte de momentos maravilhosos da minha vida e muitas que, infelizmente, ainda não reencontrei fisicamente, mas sonho com o momento, como minha amiga querida daquela época, a Paula (Regina), que hoje é mãe de um menino lindo e que um dia ainda espero ver brincando com o meu. Outra amiga em comum, a Adrianinha, será minha vizinha daqui alguns meses, quando mudarmos para o apartamento novo. Minha amiga Andréa, que encontrarei semana que vem, na festa de 15 anos da sua filha mais velha. Que saudades! Tanta gente casou, separou, casou de novo, teve filhos, viajou, voltou. Aquele lugar tem uma história de vida única, tenho certeza que não só da minha, mas de muita gente.

Hoje, fui complementar o material escolar do meu filho, que como disse anteriormente, está mudando de escola. Não achei em nenhum lugar dois brinquedos pedagógicos que a escola pediu. Procurei em várias lojas virtuais e físicas e tive o “insight” de procurar no velho Bazar que minha mãe comprava meus materiais escolares e o lugar o qual comprei o primeiro material da minha filha. Bingo! Achei os dois jogos que faltavam. Na verdade, achei muito mais do que brinquedos. Achei dentro de mim lembranças importantes que cada pedacinho daquele lugar gravou dentro de mim.

Foi assim que apresentei hoje ao meu filho a escola que a mamãe estudou, o prédio que a mamãe morou, o lugar onde a mamãe viu o papai pela primeira vez, a rua que a mamãe brincava. Mais ainda, mostrei ao meu filho uma parte de mim, que está lá, marcada em cada esquina e principalmente em meu coração. Esse dia nostálgico foi de lembranças felizes, de um tempo em que era possível ser feliz sem coisas materiais, de um tempo em que amigos eram importantes, de um tempo o qual brincar era possível, de um tempo em que sonhar ia muito além do sonho. De um tempo em que sou grata por ter vivida e, principalmente, por sentir saudades.
Úrsula Hummel

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Qualidade de vida


É a palavra chave nos dias de hoje. Todo mundo fala na busca pela tal qualidade de vida, mas não vejo ninguém fazer algo concreto para alcançar seu objetivo.

A noite que passou foi uma regência filarmônica na casa dos Hummel. Enquanto um tossia fortemente, outro espirrava e o terceiro, para não ficar de fora, tossia e espirrava simultaneamente. Eu, para cumprir meu papel de maestra, acompanhei o sono da família, sempre pensando em que fazer para mudar o quadro.

Somos uma família de alérgicos, sem escapar ninguém. Meu marido é o pior de todos, pois a qualquer contato com poeira, fica com o rosto vermelho, começa a inchar e... fecha sua glote. Há poucos anos, descobrimos que para conter o risco de morte, até que consiga ser socorrido em um hospital, precisa tomar uma dose cavalar de corticóide. No trânsito de São Paulo, muitas vezes nem uma ambulância chega a tempo. Há alguns anos, ele foi e voltou da Europa em três dias. Considerando o tempo de vôo nos dois trechos e o período em que ficou em reunião, pode-se resumir que passou três dias sentados. Quando voltou para casa, sentiu dores estranhas no peito e corremos para o hospital. Sempre avisamos da sua alergia a qualquer tipo de medicamento. Como estávamos em outro país, pode ser que por algum problema de entendimento, ministram-lhe uma dose intravenal de anti-inflamatório. Em minutos, sua glote começou a fechar, precisando de atendimento imediato para que algo pior não acontecesse.

Eu sou alérgica desde criança. Meus pais gastaram tubos de dinheiro com tratamentos para que eu conseguisse viver sem tantas crises, mas só me garantiram a sobrevivência. As crises continuam até hoje. A rinite alérgica é sempre a desencadeadora da minha sinusite. E assim, minha cabeça dói, dói e dói. Claro que já tentei tratamentos alternativos, como a homeopatia e a acupuntura. Foi em vão. Até dois anos atrás, eu só respirava usando Otrivina. Consegui, com a ajuda da nossa otorrino, cortar a medicação aos poucos. Agora faço uso de corticóides, via oral e nasal, constantemente.

Meus filhos têm rinite alérgica que chega a irritar. Nossa casa tem vidros de rinossoro espalhados por todo canto, cada um com seu nome, para que todos lubrifiquem constantemente suas narinas. Baldinhos, desses de brincar na areia, vivem cheios de águas pelos cantos. Também usamos umidificadores de ar, o que culmina em paredes sempre suadas e o uso excessivo de desumidificadores dentro dos armários, senão as roupas emboloram. É um ciclo, mas só com começo e meio, o fim não acaba.

Já recebi as mais variadas indicações de tratamento. A próxima que tentaremos será com uma médica homeopata, cara, só atende particular e com agenda lotada. Minha sobrinha, filha de médico pediatra, está tratando com ela e diminuiu as internações médicas e o uso excessivo de antibióticos. Quem sabe seja a nossa luz.

Qualidade de vida é tudo que um ser humano precisa. Se eu pudesse fazer parte de uma Assembléia Constituinte, votaria na qualidade de vida como direito constitucional. Mas quem disse que tudo que está escrito na Constituição Federal, como direito líquido e certo do indivíduo, existe na prática?

Tenho um amigo que mora em Caieiras. Quando começou a fazer faculdade na nossa selva, leia-se São Paulo, passou o primeiro ano inteiro doente. Depois, a coisa foi melhorando. Ele é saudável e tem uma cor diferente dos paulistanos. Aos finais de semana, tem contato com o Sol, com a terra e o ar puro da sua cidade acaba por compensar a poluição ingerida durante a semana. Tenho uma amiga de 24 anos e um amigo seu, da mesma idade, está com câncer nos pulmões. Nunca fumou. Resultado da poluição da nossa amada São Paulo.

Amo a cidade de São Paulo e toda a praticidade que ela nos oferece. Após a Semana da Arte Moderna, Oswald de Andrade já havia escrito a nossa adorada São Paulo com todas as características da vanguarda Futurista que assolava a Europa. Imagino só o que Oswald diria hoje. O que me consola um pouco, bem pouquinho, muito pouco mesmo, é quando meu marido volta de viagens à China e narra o quão pior é do lado de lá.

Qual é o meu projeto para a qualidade de vida da minha família? Vivo um pós-moderno árcade. Quero viver de maneira bucólica, morar no campo, em busca da simplicidade, da natureza, do contato com coisas que o homem e sua ganância destroem cada vez mais. E tenho certeza que faço parte da destruição, mas quero poder contribuir para a melhora do nosso Planeta. Seria a solução para uma qualidade de vida para todos.
Úrsula Hummel

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Cultura de rádio


FOTO: www.silbachstation.com

Tem dias que ouvimos coisas apenas para entender que muitas coisas no mundo, apesar de ridículas, se tornam engraçadas. Voltava para casa escutando o Milton Jung na CBN. Peguei o bonde andando e não entendi se era a opinião dele ou se era carta de algum ouvinte, mas falava-se sobre a cobrança de pontos adicionais por parte das operadoras de distribuição de serviços de televisão via cabo. A questão era a seguinte: imaginem se as distribuidoras de água cobrassem pelo número de torneiras adicionais instaladas na residência? Ou se as distribuidoras de energia elétrica cobrassem valores adicionais pelo uso de mais lâmpadas (e eu complementei meu raciocínio, pensando no uso do benjamim)? Até o caso das extensões telefônicas foi citado na reportagem.

Abasteci o carro, passei no mercado, fui buscar as crianças e ouço outra coisa que me chamou a atenção. Um ouvinte, morador de um condomínio, usuário da piscina diariamente, reclamava contra a síndica que, de maneira arbitrária, resolveu que o seu local de lazer seria fechado nos meses de junho e julho, para contenção de despesas. O desolado nadador decidiu que não pagaria sua cota mensal de condomínio ou faria o pagamento proporcional aos serviços usados. Foi aconselhado por uma pessoa da área jurídica a pagar a taxa cobrada e tentar um acordo para o uso da piscina, caso contrário, iria parar na justiça como mal pagador. É a famosa história de muitos deveres e poucos direitos.

Morar em condomínio é um dos maiores exercícios de paciência que um ser humano pode experimentar. Conviver com o próximo é difícil, uma vez que cada indivíduo é diferente do outro. Quando se juntam várias famílias, com rotinas, hábitos e necessidades diferentes, obrigadas a compartilhar do mesmo espaço comum, sejam ou não de lazer, é preciso de sabedoria e inteligência para não haver desgastar com os problemas gerados.

Já morei em um lugar onde os moradores dividiam a conta de água do prédio pelo número de moradores. Cada apartamento pagava o referente ao número de pessoas que habitavam sua unidade.

No condomínio em que moramos têm piscinas, sauna, playground, quadra, academia, salão de festas, churrasqueira. Em quatro anos como moradora, usamos uma vez a churrasqueira e por duas o salão de festas. Mediante pagamento de uma taxa. Fui uma única vez à piscina. Minha filha, no máximo meia dúzia de vezes. O playground, que só pode ser usado por crianças até dez anos, costuma estar tomado pelos “aborrescentes”. Há pessoas que usam das minhas vagas na garagem para descarregar compras. Assim, quando chego a minha casa, sou obrigada a esperar para poder estacionar. Na minha vaga. Nas áreas comuns, não é permitido andar de bicicletas. Mas pessoas usarem de palavreado de baixo calão podem extravasar toda a sua fúria sob minhas janelas. Nunca pisei na quadra, que fica no segundo subsolo e só passo por lá a caminho da garagem. Nem sei como é a sauna. As mobílias das piscinas são constantemente trocadas e eu contribuo para que tudo seja sempre novo, para que meus vizinhos desfrutem e quebrem quando julgarem necessário. Tive diversos problemas com o som do salão de festas, o qual moro em cima. Durante três anos, primeiramente pedia para que abaixassem o som. A convenção do condomínio é muito clara: o som é permitido em qualquer volume que não atrapalhe o descanso dos outros moradores e proibido após as 22 horas. Um dia, após ter pedido por oito vezes para que baixassem o som e meu filho chorando de susto, sem zelador, sem síndico e sem qualquer providência por parte dos seguranças do prédio, chamei a polícia. Claro que fui achincalhada pela molecada, o que mais uma vez prova que os pais estão cada vez mais desinteressados pela boa educação dos seus filhos e pelo cumprimento das regras, que fazem com que haja o bom convívio coletivo.
Úrsula Hummel

sábado, 16 de maio de 2009

Você gostaria de criar um novo idioma?


Se eu tivesse em minhas mãos o poder de recriar a Língua Portuguesa, esta deixaria de se chamar Língua Portuguesa, assim como aconteceu com o latim, lá no início de onde se tem história, que sofreu mutações gerando várias outras línguas, inclusive a tal Portuguesa (que no nosso caso, deveria chamar-se Brasileira).

O novo idioma se chamaria Pãdêz e consistiria, basicamente, em facilitar o uso por seus falantes, mas, principalmente, por seus escritores. Muito semelhante e ao mesmo tempo muito diferente, este paradoxo consistiria em:

1. Não haveria o uso das letras M e N para anasalar as vogais; para tanto, bastaria colocar o /~/ sobre as vogais. Problema resolvido. Vale a ressalva de que, quando necessário, faz-se o uso do /~/ por mais de uma vez na mesma palavra, como em “Pãdolãdia”.


2. Os acentos agudo e circunflexo seriam usados em toda e qualquer palavra, para dar tonicidade à sílaba. Som fechado, acento circunflexo; som aberto, acento agudo. Até as monossílabas levariam acentos, para distinguir o ponto de articulação do som.

3. Adeus confusão com o uso do /s/ /ss/ /ç/; em palavras como sapo, espaço, bolsa, fizesse, cujo o som do /s/ se dá de maneira foneticamente idêntica, a regra seria única: usa-se apenas um /s/; o /ç/ seria morto e enterrado, de preferência no mundo bem longe da Pãdolãdia; som de /z/, usa-se a mesma: caza, nasal; bye bye confusão! E para acabar definitivamente com o problema do uso do /s/ /z/, todo e qualquer plural ou final de palavra que antes terminava com /s/, passa a ser escrito apenas com /z/. Nada de pensar.

4. Para que saber se o /r/ é forte ou fraco na pronúncia? To fora. Com a letrinha que vai sobrar na regra no. 5, o /h/, surgiria uma nova forma de grafar algumas palavras. Seria só uma questão de costume para os novos usuários do Pãdêz. Assim, teríamos: som forte, uso do /r/, apenas um; som fraco, uso da nova letra, com novo som, novo fonema, nova pronúncia: /h/; assim, o que hoje se escreve /levaria/, passaria a ser /levahia/, mas com o mesmo som da primeira grafia. Aqui complica um pouco, mas como já disse, uma questão de hábito.

5. O /r/ também não seria mais usado ao final das palavras, uma vez que, ao pronunciarmos um verbo no infinitivo, geralmente “comemos” a pronúncia da letra; então, vamos fazer uma refeição completa e comê-la também na escrita.

6. Falando em hábito, outra coisa que acabaria: o uso do H. A letra cairia em desuso, uma vez que é uma letra muda. Para início de palavras (como por exemplo /hora/), a letrinha muda iria ficar também transparente. Para o uso em palavras que hoje se escrevem com /ch/, simplesmente haveria a troca pelo /x/; outros dígrafos, como o /nh/ e /lh/, a grafia e pronúncia seriam feitas com a vogal /i/, ficando então ília (ao invés de ilha), iniãme (ao invés de inhame) e assim por diante.

7. Por quê é que usamos o /l/ para expressar o som do /u/? Cada um no seu quadrado, cada letra com o seu fonema.

8. No Pãdêz, não haveria a distinção entre a língua falada e a língua escrita. Aí vem a pergunta: no nosso imenso Brasil, além do dialeto existente em cada região, em cada pedacinho do país, há também as variantes fonéticas. Uma mesma palavra não se pronuncia do mesmo modo, por exemplo, em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Bahia (falando só dos Estados mais vizinhos).

É isso aí, no Pãdêz, apesar de ainda existir a arbitrariedade entre o significado e o significante de cada signo lingüístico, acho que facilitaria a vida dos pequenos seres em suas alfabetizações, que chegam a ter verdadeiros ataques ao não entender que aquilo que se fala não é aquilo que se escreve. E dizem do lado de cá dos trópicos que isso só ocorre no inglês.

Claro que existe muito mais coisas envolvidas na criação de um novo idioma, do que sonham meus profundos devaneios. Prova disso é o Esperanto, desenvolvido para ser uma língua universal e que está aí, até onde se conhece, vivendo no ostracismo.

Devaneios a parte, temos que agir urgentemente com nossas crianças, crescendo cada vez mais conhecedoras do mundo, e cada vez mais ignorantes da nossa língua.
Úrsula Hummel

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A dor da saudade


Qual a maior dor que alguém pode sentir?

A dor da impotência, perante os acasos da vida, a dor da saudade, que é uma dor infinita e que só finda com um abraço forte, muitas vezes proibido pelo destino, se tornando uma dor sem cura.

Quantos enfermos não convalescem anos e anos por suas dores físicas? Com a ciência ou o poder aquisitivo, muitas dores podem ser curadas. Quando culminam com o fim derradeiro daquele sofrido ser, sua dor se finda também, deixando então a verdadeira dor para aqueles que seguirão seus caminhos.

Hoje faz dois anos que aprendi o que é a dor. Não foram as crises de sinusites que me acompanharam desde a infância, me causando dores de cabeças horríveis; não foram as crises de enxaqueca que me acompanharam e me acompanham, me levando diversas vezes ao mais profundo delírio, achando que fechar os olhos e nunca mais abri-los, acabará de vez com meu martírio; não foram as duas gestações difíceis, o medo do parto e as dores que me acompanharam durante os resguardos; não foi a dor de ter um namoro terminado, ou a traição de um amigo o qual muito amava.

Há dois anos, aprendi o que é a impotência. Não é estar desempregado, com filho para sustentar, sem ter com quem contar e se desesperar perante a situação; não é ter sonhos frustrados, planos inacabados ou desejos não realizados.

Há dois anos, estava me preparando para dormir, me programando para as férias de julho com toda a família reunida, para levar meu bebê para conhecer o vovô. E tive a notícia de que aquelas férias nunca chegariam, pois de maneira repentina e inesperada, meu pai havia partido, sem despedir-se de mim, sem dizer que me amava pela última vez, deixando tantos assuntos inacabados e tantas coisas pela frente para vivermos.

Foi assim que aprendi e descobri, através de um sofrimento infinito, o que é a verdadeira dor. É a saudade que sinto do meu pai todos os últimos setecentos e trinta dias, e que durarão por quantos dias eu ainda viver, pois para a dor da saudade, não há cura nem tratamento para amenizá-la.

Paizinho, saudades sempre de você, da sua voz, dos seus conselhos, da sua sabedoria, da sua humildade e do seu amor. Continue na companhia divina e sempre na paz que você viveu aqui por cinquenta e um anos. Amo você.
Úrsula Hummel

domingo, 10 de maio de 2009

O show particular do High School Music 3


Aproveitando que hoje acordei mais cedo que o normal e compensando tantos dias sem blogar, vou comentar meu último assunto do dia, algo que já falei anteriormente, sobre festas de aniversário.

Ontem, minha sobrinha fez quatro anos. O tema da festa: “High School Music 3”. Chega a ser engraçado uma criança tão pequena se interessar por um tema, digamos assim, velho, para sua idade. Mas é influência da irmã mais velha, só por parte de pai, que tem 15 anos e está em plena idade “High School Music”.

Há poucos meses, minha cunhada, irmã do meu marido, mudou-se de casa e de bairro e está ainda em adaptação com os serviços locais. Mora em frente a um dos melhores buffets infantis que já fui (e falo de cátedra sobre conhecimentos de buffets). Em janeiro, procurou o local para realizar a festa da filha, mas só tinha vaga para o ano que vem. Resolveu usar dos salões de festa do condomínio e fazer a comemoração lá mesmo. Contratou animadores para a festa, alugou pula-pula, um gigante escorregador inflável (ambos para crianças e adultos), levou barraquinhas com cachorro-quente, hambúrguer, pipoca, batata-frita, mini-pizza, pastel, salgados diversos, alugou a mesa com o tema da festa, mandou fazer o bolo decorado com pasta americana, dois andares, todo decorado também com o tema, no melhor lugar que encontrou, a tia mandou fazer becas e capelos em quatro tamanhos diferentes para as dezenas de crianças da festa, assim como os canudos para o suposto diploma (que continham dentro um jogo americano de duas peças). A tia paterna e a avó, que moram em Belém, fizeram deliciosos pratos típicos da região e de lá enviaram todos os docinhos para a festa, em formatos e sabores nada parecidos com o que estamos acostumados. Houve um show de uma hora de duração, com todos os personagens do filme, que após interpretar toda a trilha sonora, distribuiu autógrafos para a criançada e posou para foto com cada um deles. Na saída, além de todos os mimos já distribuídos e a indumentária da “balada” (entenda-se óculos, tiaras, marabús, boás, colares, gravatas, etc.), as crianças ainda foram presenteadas com uma grande bolsa vermelha, bordada com o logo HSM3, nome da aniversariante com a data da festa e para delírio de todos eles, ao abrir o presente e deslizar o zíper da bolsa, havia o filme do HSM3 dentro.

Com a chuva que caiu ontem à noite em São Paulo, entramos no carro ensopados, mas com os pacotes de presentes das crianças intactos (que ainda incluíam um vaso personalizado com flores de bala de goma para cada um, além de um enorme pacote com M&M, Twist, pirulitos, balas, chicletes, chocolates variados, Dadinhos, apitos com sabores de tuti-fruti e nem me lembro mais o que).

Viemos conversando sobre a festa no caminho. O pequeno falou que só demos dois “pesentes pala a pima” e que ela havia dado muitos presentes para eles. É isso que encanta as crianças hoje, os presentes que eles ganham do aniversariante.

A festa foi linda, nos impressionou como as crianças tão pequenas mexiam os lábios acompanhando cada música do show, sem saber o que estavam pronunciando, mas mexendo seus corpinhos para imitar a coreografia do grupo e os olhinhos brilhando, cheios de atenção a cada movimento dos atores. O único problema depois de cada festa-espetáculo em que vamos, é a expectativa enorme que as crianças criam para a próxima festa, e os próximos anfitriões, para não decepcionarem, procurarão melhorar cada vez mais cada detalhe da última festa. E assim, as crianças entram e saem das festas, na maioria das vezes, sem sequer dar um abraço de “Feliz Aniversário” para o aniversariante.

Ao final do espetáculo, minha sobrinha estava feliz, mas exausta e já não querendo olhar para ninguém, sem qualquer ansiedade sequer para abrir a enorme cachoeira de presentes que agora ocupava parte da entrada do salão. Mas com a recordação, bem lá dentro do seu coraçãozinho, de uma festa inesquecível que meus cunhados puderam lhe oferecer. Que ela seja sempre muito feliz, amada e independente de mega-festas, tenha todos os seus anos de vida comemorados com aquelas pessoas que a amam.
Úrsula Hummel

A vida do blog


Há vários dias, tenho sido questionada sobre o porquê de não ter publicado mais texto nenhum. Recebi emails, telefonemas, torpedos e reclamações pessoais. Chegaram a me perguntar se ainda estava lendo “Um Best Seller Para Chamar de Meu”. Não. Já terminei o livro há bastante tempo e a leitura foi sensacional. Qualquer hora destas, desenvolverei uma dissertação sobre a temática da obra e sua relação com o mundo contemporâneo. Após esse livro, vieram “Macunaíma”, “Frankestein”, “Robinson Crusoe”, “Paradise Lost”, “Memórias Sentimentais de João Miramar”, “Paulicéia Desvairada” e mais dezenas de textos para as avaliações que se aproximam na faculdade. Portanto, esse é um dos motivos que me afastaram do blog por vinte longos dias.

Adoro escrever, registrar minhas idéias e pensamentos e passar tantos dias longe do meu blog me deixa com um vazio enorme. São vários assuntos na cabeça que são desenvolvidos até durante o sono. Mas este sono sagrado, que revigora e renova as pilhas para o dia seguinte, precisa ser sagrado.

Queria agradecer profundamente por todos os recados que recebi, mas em especial de algumas professoras e ex-professoras, que me mandam mensagens tão preciosas e me fazem sentir uma sensação de importância enorme com relação aos meus escritos.

Essa semana, um amiguinho meu muito querido (e falo amiguinho, pois ele só tem dezenove aninhos), me afirmou que com a invasão do Twiter, os blogs vão morrer. Meu querido, acho que leva ainda algum tempo para a morte dos blogs, um meio de comunicação, de informação, de contestação social, um instrumento que, em minha opinião, ainda tem vida longa e que os 140 caracteres do Twiter não serão capazes de deixar o escritor expressar sua real opinião sobre muitas coisas. E viva o blog!

Os inúmeros papéis da escola


Escola, para muitos, é um lugar o qual a criança vai para aprender, primeiro a ler e a escrever, depois passa por todo o processo evolutivo de aprendizado, sendo preparada para o famigerado vestibular. Pouca gente leva em conta que além da responsabilidade da educação formal, a escola é uma parceira na educação de um indivíduo, seu segundo núcleo social depois da unidade familiar, o lugar que vai formá-lo como um ser crítico, analítico e político, e não um mero local formador de vestibulandos.


Meu filho está virando um homenzinho. Sairá agora da escolinha de educação infantil, onde entrou quando era apenas um bebê e vai estudar na mesma escola da sua irmã. Para a mãe, é difícil fazer essa passagem, pois filho é sempre, naturalmente, um bebê. Acho que toda mãe gostaria de ser um canguru para carregar seus filhos em uma bolsa externa, sempre ao seu lado. Mas não é assim. Mãe é apenas um instrumento divino para a procriação da espécie, para orientar cada indivíduo em sua maneira de crescer e se tornar um novo ser procriador de novas espécies. Temos a responsabilidade e o dever, nesta árdua tarefa que é a maternidade, de encaminhar da melhor maneira possível cada filho, para que ele se torne um adulto responsável não apenas com sua vida, mas com o mundo em que vive. Junto com meu filho, está indo o seu amigo Pedro, cuja mãe estudou nesta mesma escola do jardim da infância até o final do antigo colegial. Ontem, fomos todos juntos comprar os uniformes dos pequenos e me emocionei com o momento.

Sempre estudei em escolas públicas e nunca tive uniforme. Tínhamos uma camiseta, com o brasão da Prefeitura ou do Estado, e o nome da escola ao meio do brasão. Admirava crianças indo para suas escolas, vestidas em seus bonitos uniformes. Achava que só gente muito rica usava uniforme. Hoje sei que não sou nem pouco e nem muito rica e não estou nem perto de sê-lo. Pagar uma escola privada é tão difícil quanto na minha infância. A diferença é que as escolas públicas há muito tempo deixaram de ser o que foram para mim, um lugar acolhedor e formador no ensino formal. Vemos que a realidade nas escolas públicas atualmente é outra: se os alunos não matarem algum colega ou professor, se não se drogarem dentro das dependências escolares, se forem capazes de respeitar ao seu próximo, a escola já começa a ser tida como um referencial, como uma escola modelo para as outras. Infelizmente.

Voltei para casa toda orgulhosa. Dobrei e desdobrei a pilha de uniformes novos muitas e muitas vezes. Minha filha de nove anos, apesar de ter passado por inúmeras escolas, só foi para uma escola grande há dois anos e meio, quando entrou na sua atual escola, que receberá agora meu pequeno com o mesmo amor e carinho que a acolhe durante todo esse tempo que passou.

A atual, mas que em breve passará a ser antiga escola do meu filho, só tenho a agradecer pelo cuidado e amor com que ele foi tratado em todos os anos que esteve lá: às professoras, à direção e aquele espaço físico onde ele foi tão feliz e que, tenho certeza, só levará boas recordações. A sua escola nova, que continue com a rigidez disciplinar, mostrando para cada um de seus alunos, independente da idade, que mesmo nos dias de hoje, o essencial na formação de um indivíduo, seja a formal ou a informal, é a educação e o respeito ao seu próximo.

Que meus filhos consigam levar com eles o mesmo carinho que tenho até hoje dos meus bons e velhos tempos na escola da prefeitura, lá no Alto do Mandaqui, meu querido e velho Gastão Moutinho e todos os professores que fizeram parte da minha formação.

Dia das Mães


Nunca escondi de ninguém minha repudia com relação às datas comerciais. Duvido que a grande maioria das famílias católicas ensine aos seus filhos o real sentido das datas mais comerciais, como a Páscoa e o Natal, lhes contado a história da simbologia do ovo ou o porquê dos presentes no dia que simboliza o nascimento do menino Jesus.

A última Páscoa foi mais um ataque desenfreado em busca de chocolates, que hoje são muito mais vendidos de acordo com o recheio: o brinquedo. Meu filho está até agora tão indignado que não ganhou todos os ovos que queria (ou todos os brinquedos contidos nos ovos), que hoje mesmo me perguntou se a Páscoa demora.

Natal é a mesma coisa, um ataque massivo às crianças, que não estão mais livres das propagandas nem nos canais pagos. Todo esse excesso de informação acaba por causar frustrações nos pequenos, se suas cabecinhas não forem muito bem trabalhadas.

Hoje temos o dia das mães. Minha filha ganhou de mim, há umas duas semanas, uma nota de R$ 10,00. Todo dinheiro que dou a ela, evapora no dia seguinte. Mas esse estava durando, durando, escondido a sete chaves no fundo da sua caixinha de maquiagens. Quinta-feira, ela chegou da escola dizendo que já tinha comprado meu presente de dia das mães. Não dei importância, achei que era a lembrancinha da escola. Passou uma hora e lá veio ela com uma lapiseira, mostrando-me que tinha borracha, a ponta era do jeito que eu gostava e ela ficou bastante duvidosa quanto a cor, mas se eu não gostasse daquela, ela pediria ao tio da papelaria da escola para trocar. Claro que o gesto foi lindo, foi comovente. Mas foi um resultado do apelo comercial ao dia.

Não comprei presentes para minha mãe ou minha sogra, assim como faço todos os anos. Não preciso de uma data para presenteá-las. Quando vejo algo que sei que agradaria a uma delas e tenho condições, compro. Meu marido ainda costuma dizer para guardar para a tal data especial. Para mim, todos os dias são dias importantes para presentear quem amamos, da forma que podemos.

Dia das mães e dos pais, em particular, são os que mais me entristecem. As escolas dos meus filhos não comemoram essas datas, apenas elaboram lembranças feitas com ajuda das crianças para enviar aos pais. Há escolas que criam grandes eventos, transformando as crianças em pequenos títeres para encenar verdadeiros espetáculos circenses nessas datas. Há aquelas que choram, que tem vergonha, que se sentem inseguros, que não ficam confortáveis com as palmas da platéia ao final do show.

Porém, o maior problema dessas duas datas em especial é outro, que vai além do comercial. O problema é que nem todo mundo tem pai e mãe. Há quem pense que só gente grande não tem pai e mãe, ou só crianças pobres e órfãs tem a infelicidade de não tê-los. A morte não escolhe classe social. Deus escolhe a hora de cada um partir. Para crianças órfãs, seja de pai, seja de mãe, é dolorido demais viver não só no dia do pai ou no dia da mãe, mas também nas longas semanas que antecedem o segundo domingo dos meses de maio e agosto.

Há dois anos, dois dias após o dia das mães, perdi meu pai. O mês de agosto de 2007 foi mais difícil que os dias pós morte, pois todo e qualquer lugar me fazia viver a dor e sofrimento da perda. Há poucos dias, uma amiga querida perdeu sua mãe, também de forma repentina. Ela já está sofrendo antecipadamente as dores profundas que terá que enfrentar o dia de hoje.

Semana passada, meu filho de três anos me perguntou: “mamãezinha quilida, o que você quer ganhar no seu dia das mamães?”. Respondi a ele o que acredito, profundamente, que toda mãe, assim como eu, queira ganhar, não só no dia das mães, mas também nos outros 364 dias do ano: saúde para meus filhos, a união entre eles e o respeito deles por mim, por meu marido, por todos os familiares e, principalmente, pelo mundo que lhes oferece muito mais do que pacotes embrulhados.

Fica meu desejo de feliz todos os dias para todas as mulheres que foram sorteadas divinamente com a maternidade, pois só quem tem a difícil missão de educar e criar um filho para o mundo nos dias de hoje, é capaz de entender que todos os dias são dias das mães!