sábado, 30 de abril de 2016

Sobre os trinta e os quarenta

Esperei aquele dia sete de junho de modo incomum. Foi tudo diferente do que havia vivido nos outros vinte e nove anos anteriores. Naquele ano de 2004, esperava algo incomum, anormal, talvez incrível, talvez horrível. Mas esperava.

Cresci ouvindo minha tia Ana falar sobre a crise dos trinta. Depois, em idade adulta, descobri que havia um famoso escritor e sua obra-prima, sucesso mundial, abordava o assunto: “Mulheres de Trinta”.

Achei por bem aguardar os trinta para conhecer o que o um francês nascido em 1799 tinha a dizer sobre a temerosa idade.

Morava no litoral português naquele ano. A baía de Cascais é um dos lugares mais bonitos de Portugal. Poderia ter escolhido um belo restaurante na marina, com uma vista paradisíaca. Poderia ter comemorado com uma bela viagem. Afinal, morar na Europa nos possibilita ir e vir para vários países em curtas viagens de final de semana, gastando pouco e divertindo-se muito. Entretanto, ignorei a ideia da viagem e qualquer outra. Queria apenas esperar.

Acordei e observei meu corpo. Nenhum grama a mais. Tampouco a menos. Não tinha rugas no rosto e as pernas se moviam normalmente quando me levantei. Fui até o banheiro. Bibizoca dormia, marido Toruboi já estava em Alfragide, distrito no qual trabalhava e eu calmamente enchi a banheira e nela mergulhei. Meu dia transcorreu sem nenhuma novidade, sem quaisquer transformações.

A noite, tive um dos melhores presentes de aniversário da minha vida. Minha tia Marisa, irmã da tia Ana e também do meu pai, fez um jantar maravilhoso para mim. Que saudades eu estava de comer o quibe da minha tia. Ela preparou carinhosamente cada prato e fui recebida por ela, minha prima Tati, o marido e as pequeninas, já da geração da Bibizoca: Anouk, com apenas dois aninhos, e Ayscha, a completar dois meses de vida. Valeu ter chegado até aquele dia. No entanto, uma decepção tomou conta de mim.

O curso da vida seguiu. Um ano depois, ja morava de novo no Brasil. estava grávida do Peteleco, estudava Administração de Empresas na UNIB de Interlagos. Cheguei na faculdade e minhas amigas, Aurea e Ju, haviam levado presentes para mim! Fiquei surpresa e emocionada. Até porque a Ju foi até o campus só para este fim. No carro dela estava o filhote de Labrador que ela acabara de adotar.

Outros muitos aniversários seguiram. Em um deles, inclusive, cheguei para comemorar a data junto de amigos queridos, mas ao adentrar no buffet, escorreguei em uma poça de água, formada devido a um furo no telhado que havia naquela conceituada (e hoje falida) casa de festas. Foi aí que os dias sete de junho não tiveram mais motivo para comemorar. Descobri que celebrar a vida é uma coisa que fazemos a cada respiração e perdi aquela gana por festas que me acompanhou a vida toda.

De uma hora para a outra, passaram-se dez anos. Eu fui dormir no dia seis de junho de 2014 sem sequer lembrar que no dia seguinte, completaria quarenta anos de vida. Nesta vida. Que tanto fiz, que tanto conquistei, que tanto aprendi, que tanto construí. E quando não temos quaisquer expectativas, tudo muda.

Daquele dia em diante, tudo começou a ficar diferente. O rosto continuou sem rugas. Pessoas gordas levam mais tempo para envelhecer. O corpo continuava gordo. Pessoas obesas têm dificuldade para emagrecer. Mas a vida....ah, a vida...

A vida começou a mudar. Ou o meu modo de ver a vida foi mudando. Dia após dia. Nenhum mais foi igual ao anterior e percebi que a idade transformadora da mulher não é aos trinta. Acontece a partir dos quarenta.

Passei a me sentir mais segura para tudo. Apesar de sempre ter sido uma pessoa completamente segura por todos os meus mais insanos atos. Dentro de mim, tudo passou a ser diferente.

Parei de dar tanta importância para pessoas. Eu sou a pessoa mais importante para mim. É de mim que preciso cuidar para que eu possa ser algo para alguém. Comecei a descobrir coisas fantásticas: que não adianta ficar nervosa com as coisas, que não adianta ter pressa, já que tudo acontece quando tiver que acontecer. Aprendi a respirar. Dia após dia, fui me tornando mais calma, buscando coisas que o dinheiro não compra. Passei a usar sandálias e a não ter mais vergonha dos meus pés. Já não me importava mais com a cor preta, que gostei de usar a vida inteira. Dei cor ao meu guarda-roupas. Dei cor a minha vida. Descobri o sentido da frase: “a vida começa aos quarenta”.


Um comentário:

  1. Lindo texto, como sempre. A vida começa todos os dias.
    Beijo, Ursula.

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