sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sobre as lições que passamos ou aprendemos

A virtude do conhecimento está no saber. Entretanto, saber não basta para ser sábio. A sabedoria vai muito além de tudo que o mundo acadêmico titula um indivíduo. Além dos conhecimentos da vida. Saber é algo complexo que envolve características pessoais de cada ser, coisas que estão no âmago da alma ou do coração.

Estava postando um documento em uma plataforma virtual quando o nome de M. apareceu na tela do computador. Curiosa que sou, fui procurar conhecer um pouco mais sobre M.

Descobri que, fora a formação “stricto sensu”, M. possui quatro graduações. E mais um sem número de titulações “latu sensu” e todos os dias, quando entra nas salas de aula das instituições de ensino superior, nas quais leciona, nunca precisou contar nada para ninguém. Porque M. mostra na prática aquilo que sabe e com toda a propriedade, ensina sem deixar quaisquer dúvidas. Tem vezes que penso que M. é um tipo de Google humano. Pergunta feita, resposta dada, com polidez, educação e respeito.

Conheço E. Fui sua aluna por um ano. Sem dúvida nenhuma, de todos os docentes que já passaram pela minha vida, e foram muitos, posso colocar E. entre as melhores. Na época em que fui sua aluna, E. ainda não possuía formação “ stricto sensu”. Nem precisava. Quando E. discorria sobre grandes educadores, sempre imaginava o seu nome fazendo parte daquele hall. E. fez e faz a diferença todos os dias. Trabalha no mesmo grupo de ensino que M., mas enquanto M. faz a diferença lecionando, hoje E. dirige uma unidade do Grupo. Não a toa, está entre uma das dez melhores do Brasil de acordo com os dados do ENEM.

G. é uma moça muito nova. Não completou ainda suas três décadas de vida. Vem de família que atua na área a qual se formou. Graduou-se na maior instituição de ensino do país. Ali também fez pós-graduação. E Mestrado. Junto com outro Mestrado que concluiu na Europa. Hoje vive fora do Brasil, devido ao seu Doutorado. G. Pode exercer qualquer profissão que quiser. Escolheu ser docente. O magistério jamais poderia ser o mesmo sem a figura de G. Domina qualquer assunto, sabe se impor, sabe silenciar uma sala de aula sem pedir para que o silêncio aconteça. Porque a sede de aprender do corpo discente quando G. entra em uma sala de aula é grande. Não aprender por aprender. Aprender o que G. tem a ensinar. G. deixa saudade e lágrima por onde passa.

I. tinha vinte e sete anos quando foi minha professora. Na época, já doutora. De família simples e humilde, foi buscar a “sorte” que tantos almejam na vida sentados. Aos dezessete, saiu de casa em busca daquilo que acreditava. Voltou trazendo seus diplomas e o conhecimento que adquiriu. Ao entrar na sala de aula, colocava todos os tópicos no quadro sem precisar de papel. Estava tudo dentro da sua cabeça. Assim, I. faz despertar todos os anos o desejo e a curiosidade para aprender aquilo que ela ensina. Aquilo que é chato para quem não gosta, mas obrigatório para vida. No entanto, o chato se torna lúdico com a forma que I. ensina.

Poderia passar a tarde toda escrevendo sobre G.s, I.s, E.s, M.s que intermediaram a formação do meu conhecimento. Contudo, me bastam quatro exemplos. Houve melhores, houve muitos exemplos horríveis. Da vida, entretanto, levo as boas experiências.

O conhecimento e domínio de algo não faz ninguém melhor ou pior que outrem. Não importa título, diploma, tampouco o local que o indivíduo estudou. E nem se não estudou. O que faz cada um de nós melhores ou piores é a forma com a qual nos apresentamos diante do próximo: é o respeito, em primeiro lugar a nós mesmos; logo, ao nosso semelhante. Independente de religião, raça, orientação sexual, time de futebol, partido político, forma a qual veio ao mundo ou como foi feita a primeira fase de lactação de cada um. Respeito independe de convicção. Está dentro de cada um saber respeitar.

Qual o porquê de tantas palavras? Porque ontem, “Y” entrou na sala. Poderia ser “X”, mas o “y” nada mais é do que um “x” incompleto, faltando uma perninha. E se falta uma perninha, faltam muitas outras coisas. “Y” desenvolveu na vida uma coisa que nomeei como “síndrome do pequeno poder”. Acomete os mais diversos indivíduos no planeta. Não é um “fenômeno” que acontece no Brasil, mas mundial. Acontece com o representante de sala. Acontece com o síndico do condomínio. Acontece com o indivíduo que adentra uma sala de aula achando que só o saber basta para ser chamado de professor. Dá até uma certa vergonha fazer parte da mesma classe trabalhista que “Y”. No entanto, existem muitos espalhados por aí. “Y” detém o conhecimento. Sabe passá-lo adiante com propriedade. Mas falta-lhe algo: respeito próprio; logo, não sabe respeitar o seu próximo. “Y” precisa contar seus louros em todas as aulas. Precisa “ser”; precisa também “ter”. Quem “tem”, não conta pra ninguém. Quem “é”, não precisa dizer; o ser e o ter são perceptíveis aos olhos de todos. “Y” é o dono da bola quando entra em sala. Muito mais dono da bola do que um grupo três ou quatro crianças em seus seis, sete anos de idade, na aula de Educação Física. A bola é de “Y” e ninguém joga. “Y” acredita que com sua postura arrogante, pedante e piegas, tem o respeito dos alunos. Não percebeu ainda que os alunos querem apenas sugar seus conhecimentos. Quando “Y” vira as costas, carrega com ele a imagem negativa como ser humano que passa e leva com ele uma infinita lista de adjetivos negativos.


A escolha é individual. Escolhemos a humildade ou a arrogância. E como tudo na vida, nossas escolhas dirão quem somos. Com quem você se identifica?

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