quarta-feira, 20 de maio de 2015

Sobre um longo dia

Acordei. Ainda de olhos fechados, levantei e chamei a Bibizoca. Faltava um bocado para as seis. Dormi. Acordei de novo. Chamei o Peteleco. Bibizoca veio barba: "mamãe, precisava ter acordado antes!". Tento argumentar que a chamei. Em vão. Ele se troca, toma café, escova os dentes, vai para a escola. Ela faz aquela batucada típica de escola de samba em véspera de desfile. O batuque final fica por conta da porta. Alívio. Fecho os olhos. Acordo. Preciso assistir a aula de Filosofia. A última. A cabeça tende a doer. De sono. De cansaço. Não posso perder a aula. A matéria por mim já foi aprendida. Admirar a última aula com a Gabriela, contudo, não é algo a ser deixado para trás. Levanto, tomo uma ducha fria, coloco a roupa e vou. Com sono. Muita maquiagem no carro, som alto para acordar e a Coca Zero se junta a mim e ao Sérgio Reis gritando nos auto-falantes do carro. Entro no campus. Estaciono. Dou sorte: o segurança de hoje já me conhece e não manda chamar o chefe dele para autorizar minha entrada.

Entro na sala antes da professora. Dou risada com os amigos. Com sono. Cansada. Ela entra com seu sorriso e anuncia o filósofo do dia. Penso que hoje poderia ser qualquer um, menos ele. Lembro-me, contudo, que em breve teremos pausa para o café. A teoria é grande. Muita informação. Hora do café bem em cima da hora. Biblioteca, cantina, uma fatia de torta de frango, muita azia, sala de aula. Mais um filósofo. Esse já bem estudado por mim. O sono domina. Nem a eloquência da professora, que tanto me encanta, permite meus olhos abertos. Finda a aula. Findo o semestre. Finda a manhã.

Volto para a casa com o Sérgio. Entro correndo. Dou atenção para o Sushi que está carente. Lavo as mãos. Deixo o prato do Peteleco dentro do micro-ondas. Tenho que preparar uma aula. Tenho que verificar possíveis locais para o lançamento do livro que acontecerá em oito de novembro. O tempo corre. E meus olhos se fecham. Corro junto com o tempo para abri-los. Peteleco chega em estado gripal. Melhor preserva-lo. A excursão de amanhã será cansativa. Nada de escola de esportes. Almoço, lição, tevê, youtube..

A tarde adentra e meu sono já não consegue mais ser dominado pela minha mente ou por meus compromissos. Durmo. Profundo. Gostoso. Acordo e relembro da lista de tarefas. Dou lanche da tarde para o Peteleco. Desço até o térreo. Tiro roupas do varal. Coloco outras para bater. Arrumo meu quarto e me preparo para eliminar qualquer coisa da minha lista de tarefas. Decido pela releitura de 1984. Herança do meu pai, que me apresentou Orwell, mesmo em sua ignorância acadêmica e sabedoria de vida. Mesmo eu tendo lido a obra já algumas vezes. Retomo na página 98, na qual parei domingo. Bibizoca chega da escola. Acharam seus documentos roubados na segunda-feira. Prejuízo apenas material. Dou atenção para ela. Peteleco chega e se junta a nós. Sushi também. As crianças brincam, brigam e eu na página 98.

Marido Toruboi liga. Está embarcando para outro estado. Desejo-lhe boa sorte. Volto para Orwell. Página 98. Ligo para a coordenadora de idiomas do colégio do pequeno. Uma hora de conversa. Precisamos resolver algumas coisas. Lembro-me do meu livro de francês que não chegou. Preciso dele para sanar algumas dúvidas. Aula de espanhol para lecionar. Pulo. Tenho que chegar na página 99.

Peteleco toma banho. Bibizoca toma banho. Sushi só aos sábados. Peço para que um desça e estenda as roupas. O outro suba as roupas da lavanderia. Paramos no segundo andar. Acho que estamos todos cansados. Coloco-os para jantar e subo. Orwell. Será que preciso mesmo lê-lo? Sim. Obrigação moral. Pela Gabi que tanto se esforça em suas aulas. Devo isso a ela. A retomada que ela deu das minhas antigas aulas de IED, TGE e Sociologia Jurídica, ministradas por grandes mestres em 1998 ficarão agora para sempre.

Bibizoca precisa de ajuda: vai apresentar um seminário. Memórias de um Sargento de Milícias. Viajo na história com o lado esquerdo do cérebro, retomando minha oitava série na escola pública e a maravilhosa professora Eunice que fez com que o menino Leonardo permanecesse na minha vida, dando nome ao meu filho. Retomo os dois lados cerebrais para minha filha. Oriento-a em como apresentar o trabalho. Os dois escovam os dentes e dão boa noite. Orwell. Página 98. Agora vai. 

As crianças voltam. Querem orar. Oramos e agradecemos pelo dia de hoje, pelo de amanhã. Eles se vão e eu continuo, agradecendo por tudo que fui capaz de fazer na vida até hoje. Separo a roupa para amanhã cedo. Preparo o material da aula. O pijama ainda é o mesmo do sono vespertino. Deito-me. Agora vai. 

Toca o celular. Número desconhecido. Será que aconteceu algo com o Toruboi? Não. Ele já está em outro estado e o número é de São Paulo. Não atendo. O telefone de casa toca. De seis ramais, não acho nem um sequer. Toca o celular de novo. Atendo. É o gerente do banco. Avisa-me que estamos perdendo diariamente valor considerável. Melhor diversificar os investimentos. Explico que não é hora. Desligo o telefone. Já não aguento olhar a página 98. Será que perderei alguma coisa se pular para o próximo capítulo? Não sei. Melhor registrar o dia de hoje: eu, meus filhos, meu marido, minhas lembranças, a última aula da Gabriela Saab, a conversa com a Magda, com o Leonardo - o gerente. O terceiro na minha vida em um dia. Tudo bem para quem mora em um condomínio com dezoito imóveis habitados e nele há cinco Leonardos. Sei que Orwell nunca escreveu um Leonardo. Nem na página 98.

Ainda são 20h30. Meu Facebook continua trancado. Meu Whatsapp lotado de mensagens. E-mails sem esperança de respostas. Uma pilha de trabalho me espera. Outra pilha de coisas para estudar. Uma terceira de burocracias para resolver. Todo mundo sem passaporte. Embarcamos em exatos 45 dias. Agora é só pagar, agendar, fazer os documentos, busca-los e...fazer malas, filas nos aeroportos, passeios, museus, lojas, praia, cassino, frio. Sem neve. Mais um ano sem visitar o meu país. Chile, "no llores por mí". Pretensão. 

Sinto-me como um "garoto-soldado" sendo usada na guerra do dia-a-dia. Apenas 24h para tudo. Como? Cadê os Direitos Humanos? Chega de bobagem. Sou feliz. Tenho casa, trabalho, alegria, problemas, filhos, cachorro, marido. Vivo em harmonia com as pessoas que me rodeiam. Não tenho inimigos. Sou feliz. Oro pelas crianças-soldados recrutadas.

Última linha. Não fiz nada da vida hoje. Só durmo quando sair da página 98. Vou dormir sem pensar em Orwell como pendência. Vou até o fim.

p.s.: Gabriela Saab é mais que uma jurista. Mais que uma professora. É uma das pessoas que vêm para fazer a diferença. Professora inata, aluna eterna. Procurem pelo trabalho dela, comprem seu livro "Criança ou Soldado". Não é uma publicidade. É uma forma de difundir um trabalho tão importante sobre um assunto que, até dois meses atrás, eu desconhecia.

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