terça-feira, 13 de maio de 2014

O dia em que minha família nasceu

Quando comecei a namorar o marido, ele já trabalhava no Varejo havia poucos anos. Acabara de ser promovido a gerente de uma área pequena e dava expediente das sete da manhã até oito, nove da noite. Aos sábados, geralmente encerrava os trabalhos por volta de duas da tarde.

Desde que nos casamos, em 2002, ele foi crescendo, se especializando, se desenvolvendo cada vez mais e....se escravizando.

Trabalhar em Varejo é se sentir excluído da lista da abolição da Princesa Isabel. O trabalho só não pode entrar na lista escravagista por conta da remuneração ao fim de cada mês.

Aquele gerente/marido transformou-me em uma viúva de marido vivo. Fiquei responsável pela casa, pelos filhos, pela educação de ambos e por conta do trabalho dele, abandonei por duas vezes minhas profissões. Tudo de comum acordo e nada imposto.

Durante este período, ele coordenou o Bazar de uma multinacional francesa de modo global no México, Colômbia, Chile, Argentina e Brasil e localmente no Brasil, Chile e Portugal. A convite de um varejista brasileiro, voltamos para o Brasil em dezembro de 2004 e o que era ruim, só piorava a cada dia.

Grávida, via os dias passarem junto com minha solidão, acompanhada da minha filha mais velha, com então cinco anos, que cuidava de mim durante a ciranda de empregadas que era nossa casa.

Nos últimos nove anos e meio, muita coisa aconteceu: tivemos um filho, estudamos, viajamos, fizemos investimentos em nossas vidas profissionais e pessoais, compramos um pequeno apartamento de 67 metros e hoje moramos em uma construção de 500. Nada disto, entretanto, nos trouxe a paz. Muito mais de uma dezena de vezes, ficamos sem marido em casa enquanto ele viajava por quase vinte e quatro horas para passar dias na China, Honk Kong, Indonésia, Tailândia, Macau, Alemanha, França, EUA...eu segurava as pontas com as crianças que ficavam doentes por saudade do pai. E quando ele chegava, era um farrapo humano que dormia e acordava novamente as cinco da manhã do dia seguinte para ir ao trabalho.

Há muito que me cansei deste ritmo. Dos sempre mais de cem dias acumulados de férias. Das férias canceladas em cima da hora. Da vida que não desenrolava com normalidade. De me anular como ser humano para apoiar meu marido, enquanto ele trabalhava para nos proporcionar coisas materiais e sobrevivência.

Quando meu irmão foi fazer intercâmbio, vislumbrei uma nova vida. Combinamos de nos encontrarmos no Canadá e lá seguirmos nossas vidas. Vislumbrei as nossas casas vizinhas, cheias de gramas na frente e nossos filhos correndo livremente. Vislumbrei levar minha mãe, minha irmã, meu sobrinho e minha sogra, quando ela enviuvasse. Os planos da vida do meu irmão mudaram e eu continuei querendo cada dia mais sair de São Paulo. As crises de ansiedade, depressão e pânico, que se intercalavam e sufocavam meu sofrimento, pediam socorro.

A empresa na qual o marido trabalhava foi vendida e durante a transição, muita coisa mudou. Neste ínterim, torci o pé operado, bati o carro, fui assaltada e entrei em estresse pós-traumático. Os remédios que estavam saindo da minha vida, voltaram com força total e tal fato tirou toda e qualquer força minha.

Não tenho quaisquer dúvidas de que somos capazes de conseguir aquilo que queremos na vida e durante todo o nosso casamento, esta máxima guiou nossos passos. Assim, começamos a unir esforços para mudar nossas vidas. E onde existe esforço, existe resultado positivo.

Desde o dia oito deste mês, o diretor de Bazar - Milton Hummel - deu lugar a um novo homem. Que terá um trabalho árduo, com cobranças de resultados e com uma equipe bem maior para gerir. Este trabalho se dará dentro da segunda maior cooperativa de flores do Brasil e é naquela pequena cidade de doze mil habitantes que passaremos a ser uma família, daquelas que tomam café da manhã todos juntos, jantam e conversam e tem cada final de semana livre para passear. Nesta nova cidade, onde moraremos a apenas cinco minutos do trabalho do marido, que quero voltar ao mercado de trabalho, agora já com meus filhos maiores, menos dependentes e morando em um lugar seguro. Agora nasce o Diretor Geral de uma cooperativa, cargo nem mais e nem menos importante do que o anterior. Mas um trabalho que possibilitará a nós, experimentar o que é viver em família.




7 comentários:

  1. Olá querida. A felicidade deveria ser o eixo norteador das famílias em geral. Muitos na celeridade cotidiana se esquecem que se a família estiver bem, feliz, todo o restante fluirá. Fico feliz em saber notícias suas e desejo sucesso na nova vida. Que os filhos se adaptem, que você continue maravilhosa e a sua volta ao mercado de trabalho seja permeada de vitórias diárias. Sucesso ao marido na nova empreitada também. Continuo torcendo por ti. Beijos

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    1. Sandra, obrigada por estar sempre nesta torcida, que irradia coisas boas sobre nós. Beijos no coração!

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  2. Nada como um novo ciclo na nossa vida. Um ciclo para nos dar paz e alegria para nossa família. Vocês fizeram muito bem ao resolverem dar uma virada. Do que vale toda parafernália que juntamos se não der conta de nossa felicidade. O melhor de tudo é "ser" e não "ter".
    Parabéns pela decisão. Vocês voltarão a ser uma família mais unida, mais atuante. Desejo que vocês consigam tudo de bom. E aproveitem muito, breve as crianças serão adultos donos do próprio nariz e o casal ficará mais a sós. E a lei natural da vida. Saúde e sorte.
    joturquezzamundial
    Beijos querida.

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    1. Jo, saudades de vc! A vida é cíclica, abrir e fechar os ciclos faz parte para conquistarmos a felicidade plena. Espero estar no caminho certo. Um beijo gigante cheio de amor!

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  3. Como diria o poeta: vai ser do caralho!!!
    Vê se deixa meu cantinho pronto aí! Eu levo a picanha!!!
    Bjocas

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  4. Amiga, o Milton é um profissional muito dedicado. Qdo li seu texto lembrei do Ed falando pra um casal de amigos que ele poderia ser padre pois já estava se tornando celibatário, tamanha minha ausência. Qdo você falou do farrapo humano, identificação total. Não tenho dúvidas que eu ainda tinha muito mais tempo livre que o Milton, mas o varejo nos obriga a um casamento, a ser fiel e dedicado. E quer saber o pior: quem tá dentro não percebe. A gente tá exausto mas não quer parar.
    Eu desejo que vocês se realizem como família a cada dia mais. Fico triste pela partida de vocês da cidade mas estarei por lá pra visitar vocês qq domingo de sol.
    Aliás, domingo tá aí né.
    Te adoro viu. Bjs

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  5. Amiga, o Milton é um profissional muito dedicado. Qdo li seu texto lembrei do Ed falando pra um casal de amigos que ele poderia ser padre pois já estava se tornando celibatário, tamanha minha ausência. Qdo você falou do farrapo humano, identificação total. Não tenho dúvidas que eu ainda tinha muito mais tempo livre que o Milton, mas o varejo nos obriga a um casamento, a ser fiel e dedicado. E quer saber o pior: quem tá dentro não percebe. A gente tá exausto mas não quer parar.
    Eu desejo que vocês se realizem como família a cada dia mais. Fico triste pela partida de vocês da cidade mas estarei por lá pra visitar vocês qq domingo de sol.
    Aliás, domingo tá aí né.
    Te adoro viu. Bjs

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