sexta-feira, 7 de março de 2014

Sobre as precauções para a morte


Bibizoca passou as últimas férias na casa do meu irmão. 

Gostaria que todos os irmãos tivessem a oportunidade de ter a relação que meu irmão e eu construímos. Não foi nada forçado. Foi acontecendo e quando vimos o tempo passando, percebemos o quanto somos parceiros. 

Sou a mais velha dos três, logo, a mais sábia, porque cheguei primeiro ao mundo e aprendi as coisas antes dos outros dois, para protegê-los, como eu acho que os irmãos mais velhos devem fazer. Acontece que minha irmã é mais temperamental, e nós dois somos gozação pura. Por tal motivo, temos mais afinidade, mas sabemos que somos três e nunca nenhum de nós deixou o outro nas mãos, desde que a ajuda tenha sido pedida, afinal, nascemos sem bola de cristal.

Em casa temos apenas uma conta-corrente em uso, e outra que fomos “obrigados” a abrir quando financiamos a casa, para conseguir uma taxa menor. Esta, só é usada para débito da prestação. 

Filha na Europa, faria ainda viagens de avião por lá e nós aqui, preparando nossa viagem de férias. De repente, veio aquela apreensão: era a primeira vez que nós quatro não viajaríamos juntos. O que seria da minha filha se algo acontecesse conosco?

Imediatamente, escrevi, chorando claro, um email para meu irmão. Passei todas as informações para ele: senhas de banco, de cartões, toda nossa situação financeira, seguros de vida, e, para não deixá-lo nas mãos além do sofrimento pela minha partida, já deixei encaminhado como, onde e com quem vender os carros e a advogada que faria todo o processo: minha amiga Adriana Magre. 

Parei de chorar, problema resolvido, ele sempre teve acesso a todas as minhas senhas, poderia cuidar de blogs, Facebooks e mais quaisquer outras pendências cibernéticas que surgissem.

Voltamos sãos e salvos. E minha filha também.

Sou uma pessoa excessivamente precavida. Sei que se eu partir agora, neste momento, ninguém terá dificuldades em encontrar quaisquer arquivos nos meus dois HDs externos de um tera cada um. Tudo está classificado por ano, programa, assunto, inclusive as fotos, que são arquivadas mês a mês. Os documentos em papéis fazem inveja a qualquer secretária. Tiraria de letra o trabalho de Bibliotecária, porque não tenho modéstia nenhuma em dizer que sou uma exímia organizadora de burocracias.

Quando chega a hora de enviar o Imposto de Renda para o contador, jamais mando algum documento. Mês a mês, quando faço pagamentos, lanço aqueles necessários ao IR em uma planilha, que já tem o CNPJ de cada uma das empresas e quem são os alimentandos no caso de cada pagamento. Espero chegar os informes dos bancos, da empresa e envio tudo escaneado. Em um dia, meu IR está pronto e me divirto dia trinta de abril, quando pessoas se desesperam por deixar tudo para o final.

Minha amiga Fernanda costuma dizer que eu sou tão antecipada com as coisas, que no meu enterro, quando forem dar a caixinha do coveiro, ele responderá: “fique tranquilo, a dona Úrsula já deixou pago.

Assim aconteceu há quase um mês, quando descendo a escada do terceiro para o segundo andar, cai no terceiro degrau. Com o pé doendo muito e com toda a certeza de que ele tinha se partido ao meio, pensei rápido: até o socorro chegar, eu chegaria antes ao pronto-socorro. Entretanto, na Zona Norte temos um único hospital e não era na fila dele que eu morreria. Como meu carro é automático e o pé lesionado foi o esquerdo, desci as escadas de bumbum, entrei no carro de saci, liguei o pisca-alerta e sai do Horto Florestal, no extremo da Zona Norte de Sampa, e lá fui eu até o hospital Sírio Libanês. Fui pelo corredor de ônibus e depois, com a documentação do hospital, recorreria a cada multa.

Cheguei lá e vomitei de dor. Fui levada para uma sala, deitada em uma maca, medicada e com a tevê ligada, já via a vida cor-de-rosa. Tive a sorte de ter um ortopedista da equipe do médico que colocou sete pinos e uma placa nesta mesma perna, quase três anos atrás. Exames feitos, perna imobilizada e fui liberada. Peguei o carro e voltei pra casa.

Acontece que....eu ficaria de duas a três semanas imobilizada e sem poder sair da cama. Logo, precisava pegar os uniformes da filha que haviam chegado na loja, o remédio do filho que estava pronto na farmácia homeopática e ainda comprar a lista de remédios receitadas pelo pronto-socorrista. Primeiro a loja de uniformes: liguei do lado de fora e pedi para que trouxessem até o carro pra mim - já estava tudo pago. Depois a homeopatia, que não estava paga, mas solicitei a máquina de débito sem fio no carro. O problema morava na farmácia: o que fazer? Tratava-se de um dia da semana que marido chegava depois das dez, não poderia ficar tanto tempo sem remédios. O dado no hospital venceria e não queria sentir dor. Foi quando tive a ideia de parar no estacionamento da farmácia e esperar alguém passar na rua. A pessoa até procurou por câmeras escondidas, em vão. Pedi gentilmente que ele me chamasse alguém da farmácia. Veio um rapaz, que gentilmente pegou minha receita, trouxe toda a medicação e a bendita maquininha sem fio para eu fazer o pagamento.

Quando cheguei em casa, com tudo resolvido, minha funcionária ria, minha filha me chamava de louca e eu estava despreocupada. Banco e mercado eu resolveria pela internet.


Porquê resolvi contar isto? Por que minha amiga Silmara, excelente escritora, publicou há pouco um texto "falando" sobre as preocupações que permeiam o universo feminino quando o assunto é a morte. E para mostrar que ela não é louca sozinha!

10 comentários:

  1. E porque loucura compartilhada é bem mais divertida! Feliz que tenha botado a sua pra fora, querida ♥
    Beijos, muitos.
    Sil

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  2. Úrsula, este é um assunto que não me empolga. rs Mas você e a Silmara me deram forças para falar sobre. Quem sabe eu faça um post, tb.
    Vc foi 10, muito corajosa, prática, sensível quanto ao andamento das coisas. Mas, ó, tudo dá certo, com a gente ou sem a gente. Felizmente, né?
    Beijo.

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    1. Amiga, faça um post....vamos ver o seu lado da única certeza que temos na vida....beijos

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  3. Não quero pensar em morte, o dia que eu for, quem ficar resolve tudo! Todos tem suas responsabilidades.Quero viver e muito! rsrsrsrsrsrs
    Ás vezes acho que nos preocupamos muito e o stress vem chegando devagarinho.
    Adoro você ................
    Beijos.

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    1. Jô, e meu lado que precisa dominar tudo, faz como? Melhor eu deixar tudo do meu jeito....rs....tb te adoro minha amiga querida. Beijos

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  4. Meu Deus, eu não sei se dá para rir, mas sei que irei chorar muito.
    Eu procuro resolver minhas coisas sózinha, não dar trabalho aos outros, já me ferrei diversas vezes por não pedir ajuda............
    Mas pensar na morte? Eu quero viver e não pensar nesse momento, que com a idade se aproxima mais.
    A unica coisa que já está certa: essa minha filha maluca está encarregada de providenciar minha cremação.
    Quando tive meus filhos, minha preocupação sempre foi prepará-los para viver a vida sem mim, caso me acontecesse algo.
    Como eles vivem bem, como não aconteceu ainda nada, só me resta tentar viver da melhor maneira possível.
    Beijos minha filha doida, sabe que apesar de toda sua maluquice, eu te amo de montão. Fique com Deus!

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    1. Mamys, vai deixando tudo nos eixos por aí, pq na hora H tudo da muito trabalho!!!! Lov u. Bjos

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  5. Ursula, quero ser como você quando crescer no assunto IR. Eu não deixo para o último dia, mas no último mês vou catando aqui e acolá as coisas para finalizar a declaração.
    Não quero fazer teu inventário nunca! Mas o certo seria mesmo se todos se precavessem.
    Meu pai quando morreu, só tive o trabalho de abrir uma pasta e uma agenda para fazer o invetário. Ele era hiper organizado.
    Se formos organizados, então, já basta.
    Beijos. Que bom que voltaste a postar!!

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    1. Adri, o dia em que vc vier na minha casa, dará uma olhada nos meus documentos para ver se estou aprovada! A tabela para o IR ajuda HORRORES. Se quiser, grita que te ajudo. Beijo grande, adoro vc!

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