sexta-feira, 14 de março de 2014

Sobre a alucinação

Estou sem marido. Não por opção, mas por necessidade. Todas as vezes que ele viaja, demoro pra dormir. Em duas noites, estou na metade do segundo livro. Durmo bem de madrugada. Com as doses cavalares de medicamentos que estou tomando, não durmo, entro em estado de hibernação total.

Se há uma coisa que prezo muito na educação dos meus filhos, é a independência e a liberdade. Dar amor de mãe não significa levar mamadeira na cama até os vinte anos de idade. Minha opinião.

Sempre que estamos no quarto, marido e eu deixamos a porta fechada, por causa do ventilador. Mas as crianças são educadas para bater na porta sempre que quiserem entrar. Cada um tem seu "toque".

Acredito que eu tinha acabado de dormir, mas era só sensação, pois marquei bem o horário em que desliguei o tablet: duas da manhã.

Depois de autorizar a entrada das duas crianças no quarto, vejo uma imagem meio lusco-fusco que me fazia crer que havia muito mais que duas crianças, devido a quantidade de horas de sono que eu ainda tinha crédito.

Ouço Bibizoca falando: mamãe, a perua não passou. São sete e quinze, eu tenho que ir para a escola e estou indo de ônibus. Quer que eu leve meu irmão? Dá tempo.

Tentei pensar, entender o que estava acontecendo e peguei o celular. Liguei na casa do tio da perua, que passa diariamente seis e cinquenta, logo, quase meia hora de atraso, pela primeira vez em três anos, me assustou. Atendeu sua esposa e disse que eles perderam o horário, nenhum celular tocou na casa. Normal, quem nunca? Ela pediu que as crianças esperassem na portaria do condomínio que seriam os primeiros a serem buscados.

Os dois saíram, abençoei-os e despertei. Pensei na imagem que, acredito eu, ficará por muitos anos na minha memória: um menino que até outro dia era bebê, vestido com o calção da escola e a camiseta, ambos limpinhos, engomadinhos, cabelinho arrumadinho cheio de gel. A menina que nasceu outro dia e já está quase me alcançando em meus 1,71m, de rabo de cavalo, cabelos enormes, maquiagem, moletom, roupa da escola técnica a qual tanto me orgulho ao vê-la estudando. Saber que da escola dela, apenas dois alunos conseguiram vaga. Saber que ela passou em primeiro lugar em um curso, e teve ótima colocação neste em que escolheu. 

Descobri que o bicho papão comeu minhas criancinhas, e deu lugar a duas pessoinhas responsáveis, parceiras quando precisam, e que não precisam de mim mais para tantas coisas, mas a primeira que fazem quando chegam da escola é deitar em meu colo para ganhar amor e contar-me sobre seus dias.

Dormi novamente até meio-dia. Acordei com a casa limpa, sai para buscar o almoço, cheguei e fui recepcionada por meu homenzinho na garagem, cheio de amor naquele Édipo total. Almoçamos e ele foi fazer a lição de casa, sozinho, como faz diariamente há três anos, e trouxe as notas parciais das primeiras avaliações, que valem cinco pontos, e ele conseguiu nota máxima em todas.

Mais tarde é a vez de chegar minha menina-mulher, contando sobre os cálculos para se construir uma casa de um cômodo, que vai depender das medidas do terreno e da divisão interna que o dono do projeto deseja. Que é preciso fazer os cálculos na calculadora científica antes de passar as informações para o auto-cad, um programa que nem em meus mais longos sonhos tenho a pretensão de usar.

Eles cresceram. São novas fases, novos aprendizados, novas curtições, outros problemas. E foi tudo verdade, nada de alucinação. O tempo, senhor de tudo, passando e passando e passando....

2 comentários:

  1. E é tão bom, vê-los crescer, fortes e sadios. Deus abençoe.
    Beijo, Úrsula.

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  2. Ai ai ai ............. o tempo passa e nem percebemos, diz o velho ditado.
    Também passei por isso.
    Hoje meu filho tem sua profissão, mudou para um país longinquo e já me deu uma netinha ..............
    Bate a "síndrome do ninho vazio", nunca fui de pegar no pé de filho, ele sempre foi responsável, mas ............. é difícil!
    E algumas lágrimas escorrem ...............
    Beijos.

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