quinta-feira, 15 de maio de 2014

Sobre meu pai - sete anos sem ele

Pai,

Em sete anos, muitas coisas acontecem.

Pela antroposofia, a cada sete anos renovamos um ciclo na vida, que nos influencia de modo complexo e nos constrói e prepara para o próximo setênio.

Na pedagogia Piagentina, segundo sua teoria dos estágios, aos sete anos já passamos por coisas que nos fazem cada vez mais seres autônomos e nos forma para a vida adulta.

Sete anos podem representar muito tempo....podem representar pouco tempo....ou podem ser simplesmente sete anos.

Acontece que nestes sete, nenhum dia deixei de pensar em ti. Sei que com minha dor, atrapalhei sua evolução, mas houve quem surgisse no meu caminho para que eu te libertasse para seguir o seu caminho.

Sei que de algum modo, esta mensagem será plasmada e você receberá meu amor neste seu aniversário de sete anos no plano espiritual.

Sabe que aconteceram tantas coisas. Dois dias antes do seu desencarne, compramos um apartamento ainda na planta. Ele demorou para ser construído. E quando nos entregaram, era um lugar cheio de problemas, defeitos e me desgastei muito. Faltou você ao meu lado para me dizer que aquilo não valia minha saúde. Levei o primeiro tombo e tive minha primeira fratura na vida. Foi na perna, no dia em que fiz 37 anos. Agora tenho sete pinos a mais no corpo. Para compensar os que faltam na cabeça.  O Leleco cresceu, a irmã teve mais uma filha que já está com três anos. O Dé está enorme, é um menino de quem, tenho certeza, você se orgulha demais. Minha Bibi está linda paizinho. Ela fará quinze anos já. Estuda Edificações em uma escola técnica, vaga que conquistou com esmero. É politizada e culta demais para a idade dela, assim como o Leleco. Ele estuda em um colégio alemão e morro de orgulho por ser o primeiro da sala. Vendemos o apartamento problemático e nos mudamos para uma casa bem grande, com muitos quartos, salas, piscina, quintal, todo espaço que criança precisa. Só que o Milton mudou-se de trabalho e vamos morar no interior. Será muito bom para todos nós. Você deve acompanhar que aqui as coisas estão perigosas demais. E o irmão...mora no paraíso. Já saiu do Brasil há seis anos. Se você conhecesse a Japinha, esposa dele, abraçaria ela toda hora e diria que ela é a coisa mais fofa deste mundo. Eles não têm e nem pretendem ter filhos. O mundo está muito ruim para o futuro. E assim a vida segue.

Quero que você saiba que a dor foi embora. Já não falo de você chorando faz tempo, desde aquele nosso desligamento. Mas tem dia que a vontade de te contar as coisas transcendem a realidade da nossa distância. Nestes dias, a dor volta, mas passa rápido e fica a saudade. 

Neste exato momento completa sete anos da sua partida. 

Espero que você esteja bem e que a vida nos permita um reencontro em algum plano deste universo infinito.

Te amo, sempre.

Ursinha

terça-feira, 13 de maio de 2014

O dia em que minha família nasceu

Quando comecei a namorar o marido, ele já trabalhava no Varejo havia poucos anos. Acabara de ser promovido a gerente de uma área pequena e dava expediente das sete da manhã até oito, nove da noite. Aos sábados, geralmente encerrava os trabalhos por volta de duas da tarde.

Desde que nos casamos, em 2002, ele foi crescendo, se especializando, se desenvolvendo cada vez mais e....se escravizando.

Trabalhar em Varejo é se sentir excluído da lista da abolição da Princesa Isabel. O trabalho só não pode entrar na lista escravagista por conta da remuneração ao fim de cada mês.

Aquele gerente/marido transformou-me em uma viúva de marido vivo. Fiquei responsável pela casa, pelos filhos, pela educação de ambos e por conta do trabalho dele, abandonei por duas vezes minhas profissões. Tudo de comum acordo e nada imposto.

Durante este período, ele coordenou o Bazar de uma multinacional francesa de modo global no México, Colômbia, Chile, Argentina e Brasil e localmente no Brasil, Chile e Portugal. A convite de um varejista brasileiro, voltamos para o Brasil em dezembro de 2004 e o que era ruim, só piorava a cada dia.

Grávida, via os dias passarem junto com minha solidão, acompanhada da minha filha mais velha, com então cinco anos, que cuidava de mim durante a ciranda de empregadas que era nossa casa.

Nos últimos nove anos e meio, muita coisa aconteceu: tivemos um filho, estudamos, viajamos, fizemos investimentos em nossas vidas profissionais e pessoais, compramos um pequeno apartamento de 67 metros e hoje moramos em uma construção de 500. Nada disto, entretanto, nos trouxe a paz. Muito mais de uma dezena de vezes, ficamos sem marido em casa enquanto ele viajava por quase vinte e quatro horas para passar dias na China, Honk Kong, Indonésia, Tailândia, Macau, Alemanha, França, EUA...eu segurava as pontas com as crianças que ficavam doentes por saudade do pai. E quando ele chegava, era um farrapo humano que dormia e acordava novamente as cinco da manhã do dia seguinte para ir ao trabalho.

Há muito que me cansei deste ritmo. Dos sempre mais de cem dias acumulados de férias. Das férias canceladas em cima da hora. Da vida que não desenrolava com normalidade. De me anular como ser humano para apoiar meu marido, enquanto ele trabalhava para nos proporcionar coisas materiais e sobrevivência.

Quando meu irmão foi fazer intercâmbio, vislumbrei uma nova vida. Combinamos de nos encontrarmos no Canadá e lá seguirmos nossas vidas. Vislumbrei as nossas casas vizinhas, cheias de gramas na frente e nossos filhos correndo livremente. Vislumbrei levar minha mãe, minha irmã, meu sobrinho e minha sogra, quando ela enviuvasse. Os planos da vida do meu irmão mudaram e eu continuei querendo cada dia mais sair de São Paulo. As crises de ansiedade, depressão e pânico, que se intercalavam e sufocavam meu sofrimento, pediam socorro.

A empresa na qual o marido trabalhava foi vendida e durante a transição, muita coisa mudou. Neste ínterim, torci o pé operado, bati o carro, fui assaltada e entrei em estresse pós-traumático. Os remédios que estavam saindo da minha vida, voltaram com força total e tal fato tirou toda e qualquer força minha.

Não tenho quaisquer dúvidas de que somos capazes de conseguir aquilo que queremos na vida e durante todo o nosso casamento, esta máxima guiou nossos passos. Assim, começamos a unir esforços para mudar nossas vidas. E onde existe esforço, existe resultado positivo.

Desde o dia oito deste mês, o diretor de Bazar - Milton Hummel - deu lugar a um novo homem. Que terá um trabalho árduo, com cobranças de resultados e com uma equipe bem maior para gerir. Este trabalho se dará dentro da segunda maior cooperativa de flores do Brasil e é naquela pequena cidade de doze mil habitantes que passaremos a ser uma família, daquelas que tomam café da manhã todos juntos, jantam e conversam e tem cada final de semana livre para passear. Nesta nova cidade, onde moraremos a apenas cinco minutos do trabalho do marido, que quero voltar ao mercado de trabalho, agora já com meus filhos maiores, menos dependentes e morando em um lugar seguro. Agora nasce o Diretor Geral de uma cooperativa, cargo nem mais e nem menos importante do que o anterior. Mas um trabalho que possibilitará a nós, experimentar o que é viver em família.




segunda-feira, 12 de maio de 2014

Sobre o meu irmão

Sou a filha mais velha de três. Minha irmã é cinco anos mais nova que eu. Meu irmão, sete.

A chegada dos meus irmãos representou grandes perdas na minha vida. Perdi a vida de filha única, perdi a chance de continuar morando com meus avós maternos, por quem eu era infinitamente mimada, perdi um pouco da minha infância cada vez que, aos sete anos, pedia algo para minha mãe e ela dizia que eu já era grande.

Só quando eu já era grande, descobri o quanto era pequena e o quanto tive que crescer por conta da chegada dos meus irmãos.

Éramos como cinco crianças em casa, já que eu nasci quando minha mãe tinha dezesseis, e meu pai, dezoito anos. 

Por muitos anos, odiei aquelas crianças intrusas e invasoras com todas as minhas forças. Ao meu favor, contava com minhas tias e avó, sempre minhas aliadas. Por várias vezes, pensei em fugir de casa. Meu medo, contudo, era maior e eu protelei este dia até os meus dezoito anos, quando me casei.

Apesar de pequeno, meu irmão já era um menino grande e como casei-me com um homem-criança, eles formavam a dupla perfeita. No começo, meu irmão ficava com a gente aos finais de semana, férias, feriados, até que um dia, por circunstâncias do destino, ele veio de cama e cômoda para nossa casa.

Quando ele completou vinte e um anos, devido aos compromissos profissionais e acadêmicos, ele decidiu dar seu grande vôo solo. E foi o dia mais triste da minha vida até aquele momento. Chegar em casa sem ver as coisas dele foi como ver um filho fugindo e abandonando o lar. Mas nossa mãe sempre nos ensinou que criamos filhos para o mundo. Assim, aquele quase irmão, quase filho voou.

Meus irmãos são duas das pessoas que mais amo na vida. Contudo, a relação que desenvolvi com meu irmão é peculiar e só a gente consegue entender. Existe uma simbiose que muitas vezes faz com que a conversa não precise de palavras. Recorremos um ao outro na alegria e na tristeza. Somos os primeiros a saber dos planos um do outro e a torcer para que tudo dê certo, mesmo que no meio deste "certo" exista um oceano enorme que nos separa. 

Claro que em meio a este conto de fadas que é nossa relação, poderia ter havido uma bruxa má ou um bruxo malvado que nos distanciasse um do outro. Mas as coisas conspiram tanto em nosso favor, que tenho na minha cunhadinha, uma irmã, por quem sempre farei tudo que puder, assim como tenho a certeza de que meu marido e meu irmão jamais se desentenderão por nada nesta vida. A isto, dou o nome de família.

Meu irmão é minha família mais próxima. Meu melhor amigo e o cara que mais xingo na vida. Nos falamos quase todos os dias e de repente, nos damos conta de que estamos há duas semanas sem nos falarmos, sem trocar palavrões ou piadas e parece que sentimos esta distância ao mesmo tempo, pois assim que penso nele, ele surge, do nada.

Se meu pai estivesse vivo, se orgulharia dele assim como todos os familiares e amigos se orgulham. Ele puxou toda a cultura do meu pai, em um estágio mais avançado devido a facilidade que temos de acesso a informações. Ele é um "menino" marrento, mas que a maturidade está adoçando. É um falastrão e não importa onde chegue, já chega como melhor amigo de infância. Em tempos de redes sociais, ele poderia se expor como tantas pessoas gostam, mas a maturidade precoce ensinou-lhe que nossa felicidade, quando é verdadeira, não precisa ser gritada para todos ouvirem.

Há pouco tempo, vivemos um episódio engraçado. Estávamos com duas horas de diferença de horário. Ele me mandou uma mensagem perguntando se não era eu que gostava de alguns famosos. Respondi que sim, toda empolgada. Então ele me manda a foto dele jantando em um belíssimo restaurante londrino, com celebridades por todos os lados na mesa. 

Tive uma chefe, a quem muito admirava, que sempre me dizia: não almeje fama. Almeje sucesso. Assim vejo meu irmão: um cara que podia ser o famoso, mas o sucesso interior lhe preenche, lhe completa e lhe basta. Por isto ele é especial.

Amo meu irmão e sempre agradeço por termos vindo como irmãos de sangue, mas sei que nossas vidas se cruzariam, pois o espiritual é maior que o sangue das veias. Por isto, hoje agradeço duas coisas: a saúde do meu irmão, e a humildade e discrição dele por saber que ele jamais postará no Facebook uma foto com minha cunhadinha, em frente ao castelo das princesas, fazendo coraçãozinho, mostrando os dedinhos em forma de "V" e nem com a legenda de "sonho realizado". Porque sonhar é algo muito maior do que mostrar.

"MV, TAMPCS, OFDPDK"! É assim, com apenas algumas letras, que dizemos grandes frases!

Parabéns pelos seus poucos trinta e três anos e pelo grande (e chato) homem (?) que você é!

sexta-feira, 14 de março de 2014

Sobre vacinas - HPV

Sempre fui tida como referência pelos meus amigos, quando o assunto é médico. Não sou exigente com muitas coisas na vida, deixo que tudo transcorra com naturalidade, mas quando se trata de médico, eu não meço esforços, tampouco faço conta de dinheiro.

Tinha completado dezesseis anos não havia muito tempo e antes de ter a primeira relação sexual, decidi passar em um ginecologista. Minha mãe me dava a liberdade para discutir com ela o assunto, mas para um adolescente, é difícil e constrangedor. Assim, entrei em um hospital e pedi para passar na emergência ginecológica. Como morria e uivava de cólicas, esta foi a minha desculpa.

Naquele dia, passei com um médico residente que era muito além de um médico. Era um ser humano cheio de delicadeza, sensibilidade e me deixou muito a vontade. Já tinha marcado consultas em clínicas e não tive coragem de pedir anticoncepcionais para nenhum dos médicos. Dr. X não esperou que eu fizesse a abordagem. Perguntou se eu tinha namorado, se tinha relações sexuais e receitou-me minha primeira pílula.

Casei-me anos depois com este primeiro namorado, dr. X de residente, passou a ter uma carreira com grande ascensão e nossa parceria já dura vinte e quatro anos. Hoje, ele é um dos ginecologistas mais conceituados de São Paulo, tendo sua agenda tão lotada quanto a do famoso dr. José Bento, e só deixou os programas de televisão para se dedicar a pesquisas e as suas pacientes.

Dr. X realizou meus dois partos. Foram poucos meses na vida, desde que comecei a trabalhar, que não tive plano de saúde, e mesmo assim, não media esforços para pagar-lhe a consulta. 

Há cerca de quatro, cinco anos, em consulta de rotina, dr. X confirmou a idade que Isabela estava. Eu e sua esposa ficamos grávidas juntas, mas a Isa é alguns meses mais velha que o filho dele, que nasceu no dia do meu aniversário de vinte e seis anos. Naquele dia, ele me falou sobre a vacina de HPV. Explicou-me sobre a importância dela, sobre os testes em andamento, sobre o risco da doença e que a idade ideal para se aplicar a primeira dose era aquela, entre nove e dez anos. Disse-me, inclusive, que vacinaria o filho mais velho no ano seguinte.

Voltei pra casa pensando sobre o assunto. Odeio vacinas. Sei que elas podem salvar vidas, mas também sei que não. Trata-se de um assunto muito paradoxal. Quando Isa nasceu, tratava ela com uma pediatra do bairro, muito boa, mas por se tratar de um consultório instalado em local de pessoas de baixa renda, as vacinas tomadas eram aquelas dadas nos postos de saúde.

Quando Leonardo nasceu, tive a infelicidade de entrar na onda do meu marido. O marido da irmã dele, médico pediatra e com uma filha seis meses mais velha que a nossa, recomendou que todas as vacinas fossem dadas particulares, pois as do posto de saúde não prestavam. Lá fui eu cair na lábia alheia. Além das vacinas que fazem parte do calendário, Leonardo tomou toda e qualquer vacina particular que o mundo das vacinas oferecem. Todas contra a minha vontade. 

Sei de famílias japonesas cujos filhos jamais tomaram nenhuma vacina. Famílias com filosofias naturalistas não vacinam seus filhos. Mas como experiência é algo que só o tempo ensina, tive que esperar meu aprendizado.

Leonardo completou quatro anos e começou o tratamento homeopata. A médica passou dois anos me perguntando se dei todas as vacinas que ele precisava tomar até os cinco anos e eu, que não gosto de mentiras, respondia na maior cara lavada que sim, a caderneta estava em dia.

Voltando ao dia que soube da vacina contra HPV, decidi que a Isa não a tomaria. Ensinaria minha filha a usar preservativos e assim, se preveniria contra tudo. Até que discutindo o assunto com uma amiga de família muito bem nascida, cheia de cultura e profissional da área de saúde, ela me deu seu parecer: eu deveria, sim, dar a vacina, uma vez que HPV se transmite até em toalhas de hotel. Como boa geminiana, decidi dar a vacina, mas protelei a decisão.

Há dois anos, dra. L. perguntou se a Isa já tinha tomado as duas primeiras doses da vacina e dei minha negativa. Ela me disse que precisaríamos aplica-la, mas o assunto morreu ali.

Agora o assunto veio a tona de novo, por conta da campanha do governo para vacinar adolescentes entre onze e treze anos. Moro há um quilômetro do posto de saúde no qual minha filha é cadastrada e mesmo que ela tenha completado recentemente catorze anos, sei que conseguiria facilmente vacina-la no posto.

Antes, contudo, resolvi pensar, refletir, pesquisar, lembrar de conversas que tive com diversos profissionais de saúde e saber como o assunto é tratado em países nos quais a medicina é desenvolvida. 

Minha decisão final é a de não dar a vacina. Instruirei minha filha com relação a preservativos, reforçarei as instruções sobre o uso de banheiros públicos, já a instruo faz tempo a jamais usar toalha de uma amiga, e mesmo em casa, que ela enxugue as partes íntimas com papel higiênico, assim cria o hábito e nunca esquece. 

Se estou tomando a decisão certa? Vou dizer o que sempre digo: jamais saberemos se a decisão que tomamos foi a certa, pois jamais saberemos como teria sido o contrário.

Entretanto, não sou contra a vacina, tampouco quero influenciar nenhuma amiga que me questione sobre o assunto. Tenho preguiça de argumentar e acho que envolvem valores diversos de família. Se optamos por tratar nossos filhos com medicina natural e não lhes drogar, salvo em caso de extrema necessidade do uso de corticóides para graves crises alérgicas, eles permanecerão tomando gotinhas diversas de hora em hora e fazendo medicina preventiva, o que, neste caso, não envolve tomar vacina.

Sobre a alucinação

Estou sem marido. Não por opção, mas por necessidade. Todas as vezes que ele viaja, demoro pra dormir. Em duas noites, estou na metade do segundo livro. Durmo bem de madrugada. Com as doses cavalares de medicamentos que estou tomando, não durmo, entro em estado de hibernação total.

Se há uma coisa que prezo muito na educação dos meus filhos, é a independência e a liberdade. Dar amor de mãe não significa levar mamadeira na cama até os vinte anos de idade. Minha opinião.

Sempre que estamos no quarto, marido e eu deixamos a porta fechada, por causa do ventilador. Mas as crianças são educadas para bater na porta sempre que quiserem entrar. Cada um tem seu "toque".

Acredito que eu tinha acabado de dormir, mas era só sensação, pois marquei bem o horário em que desliguei o tablet: duas da manhã.

Depois de autorizar a entrada das duas crianças no quarto, vejo uma imagem meio lusco-fusco que me fazia crer que havia muito mais que duas crianças, devido a quantidade de horas de sono que eu ainda tinha crédito.

Ouço Bibizoca falando: mamãe, a perua não passou. São sete e quinze, eu tenho que ir para a escola e estou indo de ônibus. Quer que eu leve meu irmão? Dá tempo.

Tentei pensar, entender o que estava acontecendo e peguei o celular. Liguei na casa do tio da perua, que passa diariamente seis e cinquenta, logo, quase meia hora de atraso, pela primeira vez em três anos, me assustou. Atendeu sua esposa e disse que eles perderam o horário, nenhum celular tocou na casa. Normal, quem nunca? Ela pediu que as crianças esperassem na portaria do condomínio que seriam os primeiros a serem buscados.

Os dois saíram, abençoei-os e despertei. Pensei na imagem que, acredito eu, ficará por muitos anos na minha memória: um menino que até outro dia era bebê, vestido com o calção da escola e a camiseta, ambos limpinhos, engomadinhos, cabelinho arrumadinho cheio de gel. A menina que nasceu outro dia e já está quase me alcançando em meus 1,71m, de rabo de cavalo, cabelos enormes, maquiagem, moletom, roupa da escola técnica a qual tanto me orgulho ao vê-la estudando. Saber que da escola dela, apenas dois alunos conseguiram vaga. Saber que ela passou em primeiro lugar em um curso, e teve ótima colocação neste em que escolheu. 

Descobri que o bicho papão comeu minhas criancinhas, e deu lugar a duas pessoinhas responsáveis, parceiras quando precisam, e que não precisam de mim mais para tantas coisas, mas a primeira que fazem quando chegam da escola é deitar em meu colo para ganhar amor e contar-me sobre seus dias.

Dormi novamente até meio-dia. Acordei com a casa limpa, sai para buscar o almoço, cheguei e fui recepcionada por meu homenzinho na garagem, cheio de amor naquele Édipo total. Almoçamos e ele foi fazer a lição de casa, sozinho, como faz diariamente há três anos, e trouxe as notas parciais das primeiras avaliações, que valem cinco pontos, e ele conseguiu nota máxima em todas.

Mais tarde é a vez de chegar minha menina-mulher, contando sobre os cálculos para se construir uma casa de um cômodo, que vai depender das medidas do terreno e da divisão interna que o dono do projeto deseja. Que é preciso fazer os cálculos na calculadora científica antes de passar as informações para o auto-cad, um programa que nem em meus mais longos sonhos tenho a pretensão de usar.

Eles cresceram. São novas fases, novos aprendizados, novas curtições, outros problemas. E foi tudo verdade, nada de alucinação. O tempo, senhor de tudo, passando e passando e passando....

sábado, 8 de março de 2014

Sobre maternidade e paternidade; aliás, sobre o porquê de se ter filhos

Estávamos deitados, como fazemos todos os dias a noite. Televisão desligada, marido Toruboi lendo algum dos seus dez livros em leitura constante e eu cuidando da empresa que tenho no ramo do entretenimento: minha fazendinha virtual.

Confesso que apesar de ser a maior amante do silêncio, quando estou ao lado do marido, o ar silente constante dele me incomoda. Perco a concentração para tirar a dele. Foi quando fiz a pergunta: “amor, por que você quis ter filhos?”. A resposta me surpreendeu. Sem delongas, ele disse que quis ter filhos para deixar os valores dele para alguém. Tapa na minha cara quando recebi a mesma pergunta de volta. Não quis enrolar para pensar, pois o tempo passaria infinitamente e a resposta não viria. “Tive filhos porque todo mundo os têm!”.

Minutos depois ele dormiu. Minha mente não. Pensei em quantas pessoas como eu são capazes de colocar filhos no mundo assim, sem pensar no porquê, sem saber o que vai fazer. Sempre tive a certeza de que teria dois filhos, entretanto, a maior certeza que tenho hoje é que tive filhos por vaidade, porque mulheres têm filhos. Assim, simples como comprar pão na padaria.

Há alguns anos, minha amiga C., uma jovem executiva e com um belo currículo acadêmico, começou a entrar em estresse, que foi gerando depressão e a extensão do problema chegou ao ponto de o marido fazê-la entender que ela estava já gastando mais com médicos e medicamentos, do que ganhava em salário. Então minha amiga resolveu viver. O marido trabalhava para trazer o sustento pra casa, mas lá no começo da relação, quando ela já estudava e dali poucos anos trabalhava muito, o marido, mais imaturo, ainda jogava bola, afinal, eles tinham doze, treze anos quando começaram aquela relação que hoje leva o nome de família.

Totalmente curada, feliz da vida, o marido estruturado, veio a surpresa: na barriga da C., estava sendo gerada a vida da nossa amada L. Minha amiga queria que a filha nascesse de parto “normal”, aquele sem intervenção cirúrgica e sem invencionices dos tempos de hoje. Almoçamos em casa todos juntos e dali uma semana, nossa pequena deveria dar o ar da graça, mas de repente, ela resolveu nascer. Não me lembro que tipo de parto foi, mas nasceu linda, saudável e feliz.

Há um mês, fui visitar a L., que faria um aninho já, junto com o Peteleco. Passamos a tarde lá. Cheguei e me apaixonei pelo tipo de mãe que minha amiga estava sendo: uma sala totalmente bagunçada com brinquedos de vários materiais e texturas, e L. inteligente e feliz. Dias antes, as duas estiveram na médica da pequena, que ao vê-la, logo disse que era uma criança cuidada pela mãe.

No dia seguinte, fui em consulta na G.O. da C., e minha médica de família, uma consagrada médica com mais de dez especializações, e que está grávida do N., chegando ao mundo em abril próximo, via cesareana! Fico impressionada com os partos dela. Várias amigas tiveram filhos com ela, mas a última saiu da maternidade no dia seguinte praticamente. Como? Ela não entrou em maiores detalhes, mas usa um tipo de incisão que o corte é minúsculo e de recuperação mais rápida que o parto “normal”. Começamos a falar sobre criar filhos, e ela disse que minha amiga C. está se saindo uma mãe magnífica.

L. foi planejada, desejada, esperada e é muito amada. N. também terá todo o amor do mundo. No caso da dra. L., ela não vai parar de trabalhar. Ficará em casa por trinta dias e a agenda já está cheia para sua volta.


Ter filho é uma escolha. A forma de criá-lo, também. Cada família sabe das suas prioridades e seus valores. E o importante mesmo, a meu ver, é antes de mais nada se perguntar: “POR QUE EU ESTOU TENDO FILHOS?”

sexta-feira, 7 de março de 2014

Sobre as precauções para a morte


Bibizoca passou as últimas férias na casa do meu irmão. 

Gostaria que todos os irmãos tivessem a oportunidade de ter a relação que meu irmão e eu construímos. Não foi nada forçado. Foi acontecendo e quando vimos o tempo passando, percebemos o quanto somos parceiros. 

Sou a mais velha dos três, logo, a mais sábia, porque cheguei primeiro ao mundo e aprendi as coisas antes dos outros dois, para protegê-los, como eu acho que os irmãos mais velhos devem fazer. Acontece que minha irmã é mais temperamental, e nós dois somos gozação pura. Por tal motivo, temos mais afinidade, mas sabemos que somos três e nunca nenhum de nós deixou o outro nas mãos, desde que a ajuda tenha sido pedida, afinal, nascemos sem bola de cristal.

Em casa temos apenas uma conta-corrente em uso, e outra que fomos “obrigados” a abrir quando financiamos a casa, para conseguir uma taxa menor. Esta, só é usada para débito da prestação. 

Filha na Europa, faria ainda viagens de avião por lá e nós aqui, preparando nossa viagem de férias. De repente, veio aquela apreensão: era a primeira vez que nós quatro não viajaríamos juntos. O que seria da minha filha se algo acontecesse conosco?

Imediatamente, escrevi, chorando claro, um email para meu irmão. Passei todas as informações para ele: senhas de banco, de cartões, toda nossa situação financeira, seguros de vida, e, para não deixá-lo nas mãos além do sofrimento pela minha partida, já deixei encaminhado como, onde e com quem vender os carros e a advogada que faria todo o processo: minha amiga Adriana Magre. 

Parei de chorar, problema resolvido, ele sempre teve acesso a todas as minhas senhas, poderia cuidar de blogs, Facebooks e mais quaisquer outras pendências cibernéticas que surgissem.

Voltamos sãos e salvos. E minha filha também.

Sou uma pessoa excessivamente precavida. Sei que se eu partir agora, neste momento, ninguém terá dificuldades em encontrar quaisquer arquivos nos meus dois HDs externos de um tera cada um. Tudo está classificado por ano, programa, assunto, inclusive as fotos, que são arquivadas mês a mês. Os documentos em papéis fazem inveja a qualquer secretária. Tiraria de letra o trabalho de Bibliotecária, porque não tenho modéstia nenhuma em dizer que sou uma exímia organizadora de burocracias.

Quando chega a hora de enviar o Imposto de Renda para o contador, jamais mando algum documento. Mês a mês, quando faço pagamentos, lanço aqueles necessários ao IR em uma planilha, que já tem o CNPJ de cada uma das empresas e quem são os alimentandos no caso de cada pagamento. Espero chegar os informes dos bancos, da empresa e envio tudo escaneado. Em um dia, meu IR está pronto e me divirto dia trinta de abril, quando pessoas se desesperam por deixar tudo para o final.

Minha amiga Fernanda costuma dizer que eu sou tão antecipada com as coisas, que no meu enterro, quando forem dar a caixinha do coveiro, ele responderá: “fique tranquilo, a dona Úrsula já deixou pago.

Assim aconteceu há quase um mês, quando descendo a escada do terceiro para o segundo andar, cai no terceiro degrau. Com o pé doendo muito e com toda a certeza de que ele tinha se partido ao meio, pensei rápido: até o socorro chegar, eu chegaria antes ao pronto-socorro. Entretanto, na Zona Norte temos um único hospital e não era na fila dele que eu morreria. Como meu carro é automático e o pé lesionado foi o esquerdo, desci as escadas de bumbum, entrei no carro de saci, liguei o pisca-alerta e sai do Horto Florestal, no extremo da Zona Norte de Sampa, e lá fui eu até o hospital Sírio Libanês. Fui pelo corredor de ônibus e depois, com a documentação do hospital, recorreria a cada multa.

Cheguei lá e vomitei de dor. Fui levada para uma sala, deitada em uma maca, medicada e com a tevê ligada, já via a vida cor-de-rosa. Tive a sorte de ter um ortopedista da equipe do médico que colocou sete pinos e uma placa nesta mesma perna, quase três anos atrás. Exames feitos, perna imobilizada e fui liberada. Peguei o carro e voltei pra casa.

Acontece que....eu ficaria de duas a três semanas imobilizada e sem poder sair da cama. Logo, precisava pegar os uniformes da filha que haviam chegado na loja, o remédio do filho que estava pronto na farmácia homeopática e ainda comprar a lista de remédios receitadas pelo pronto-socorrista. Primeiro a loja de uniformes: liguei do lado de fora e pedi para que trouxessem até o carro pra mim - já estava tudo pago. Depois a homeopatia, que não estava paga, mas solicitei a máquina de débito sem fio no carro. O problema morava na farmácia: o que fazer? Tratava-se de um dia da semana que marido chegava depois das dez, não poderia ficar tanto tempo sem remédios. O dado no hospital venceria e não queria sentir dor. Foi quando tive a ideia de parar no estacionamento da farmácia e esperar alguém passar na rua. A pessoa até procurou por câmeras escondidas, em vão. Pedi gentilmente que ele me chamasse alguém da farmácia. Veio um rapaz, que gentilmente pegou minha receita, trouxe toda a medicação e a bendita maquininha sem fio para eu fazer o pagamento.

Quando cheguei em casa, com tudo resolvido, minha funcionária ria, minha filha me chamava de louca e eu estava despreocupada. Banco e mercado eu resolveria pela internet.


Porquê resolvi contar isto? Por que minha amiga Silmara, excelente escritora, publicou há pouco um texto "falando" sobre as preocupações que permeiam o universo feminino quando o assunto é a morte. E para mostrar que ela não é louca sozinha!