sábado, 24 de agosto de 2013

Sobre aquilo que une as pessoas - de fato

Durante muitos anos, alimentei muitas culpas na vida. Elas não se foram totalmente. Pois o ser humano tem o eterno hábito de se vitimizar e escolher alguém para atribuir a culpa da sua infelicidade.

Antes de mais nada, é preciso, contudo, definir o que é felicidade. E a definição que consta no dicionário é suficiente? Não para mim. Felicidade é um sentimento, é um estado de espírito, é uma alegria que vem do coração e nenhum Houaiss, Aurélio, Michaelis ou afins, serão capazes de definir um sentimento.

Alguns anos atrás, assisti a uma palestra. Já ouvi o mesmo tema através da ótica religiosa e através da ciência - no caso, a Psicologia: ninguém é obrigado a amar ninguém só pelo fato de estar unido por laço sanguíneo.

Ouvir isto por mais de uma vez foi que eu fosse tirando algumas culpas de dentro de mim. Saber que ninguém era obrigado a me amar, tampouco eu era obrigada a amar alguém, fez de mim alguém mais leve.

Ainda há pouco, recebi uma mensagem muito especial, vinda de uma pessoinha de um tamanhinho bem pequenino, mas com uma cabeça de gente bem "maior de grande" do que ela. O conteúdo da mensagem? A desobrigação de amar alguém.

Em nossas vidas, existem e passam diversas pessoas ao longo do tempo. Umas já nascem com a gente e outras nascem com o tempo. Somos livres para amar ou não quaisquer destas pessoas, independente do sangue que corre nas veias.

Há quase doze anos, quando me casei com Toruboi, fui avisada por ele: "minha família é estranha". Achei que era impossível uma família inteira ser estranha e só ele ser o correto. Assim, decidi que aquelas pessoas seriam todas unidas, como uma família normal. Após anos e anos de busca e entendimento (e muito sofrimento), entendi que a família dele é estranha. Ele tinha razão desde o início, e se eu não tivesse me iludido lá atrás, não teria sofrido, tampouco feito meus filhos sofrerem. A família dele não é obrigada a ser como a minha: entre trancos e barrancos, todos se ajudam e estão unidos pelo sangue e pela vida. 

Muitas famílias vivem de aparências e com o tempo, fui entendendo que eu não conseguia deixar de ser eu mesma para viver das aparências que eles queriam. Não sei ser falsa, dissimulada, falar mal pelas costas. Pior que tudo isto: não sei ser mais ou menos. Sou totalmente intensa e por isto sofri tanto. Por ter mergulhado com intensidade para tentar fazer com que minha família - eu, Toruboi e criancinhas Hummel - fizéssemos parte daquela família. Não deu certo.

Foram dez anos de tentativa e hoje, após desistir (e falo de boca muito cheia que não me lembro de ter desistido de nada na vida), tenho um maior entendimento de tudo. Ninguém pode amar ninguém por obrigação.

Vejo pessoas escrevendo sobre pequenas felicidades. Para mim, que sou intensa - e não me canso de repetir isto - não existe pequena felicidade. Toda forma de felicidade é grande. No último domingo, fomos buscar a avó do marido no asilo.

No início do ano passado, ele me disse que a avó já estava muito velhinha e ele se preocupava com ela. Esta avó, juntamente com o avô que partiu meses antes de nos casarmos, é o laço sanguíneo do marido na Terra, junto com o filho Peteleco. Ela é a referência dele: de infância feliz, de momentos bons. Se eu o amo, sou capaz de amar a todos que ele ama. Mas sou mais capaz ainda de amar alguém que o ama como esta avó o ama. Alguém que sempre me tratou como da família, que aceitou minha filha como sua bisneta sem distinção com meu filho, alguém que me faz feliz. Na ocasião, ofereci desfazer-me do meu escritório no apartamento e levarmos a avó para viver conosco. Marido achou desnecessário. Pois quando nos mudamos para uma casa de três pavimentos, a avó já não podia mais viver só. E os netos que poderiam cuidar dela não o fizeram, colocando-a no asilo. Sofro com esta situação, mas de mãos atadas não há muito o que eu possa fazer. Então buscamos ela para almoçar. Ela se locomove com dificuldade, mas a felicidade de ela estar conosco e nós com ela era imensa. Ela lamentou o tempo todo a ausência da bisneta, que ficou em casa fazendo trabalho com as amigas. Pediu-me que eu fizesse bolinhos de bacalhau e lanchinho de carne louca - um especial que faço com filé mignon suíno. Cobrou-me como uma avó, das dezenas de fotos que estou lhe devendo, e isto me fez feliz.

Assim é o amor. É isto que une as pessoas: AFINIDADE. 

Dizer que sou feliz sabendo que meus filhos são indiferentes para a família do marido? Mentira. Mas já não cobro e nem culpo a ninguém. Eles não são obrigados a amar meus filhos, e quem perde são eles.

Um dia, minha mãe me disse uma coisa que muito me marcou: "a gente sempre deve ser grato com aqueles que amam nossos filhos".

Se não fosse a opção da minha filha em não manter laços com a família paterna biológica dela, tenho a certeza de que não só ela, mas meus dois filhos teriam avós maravilhosos. Há muitos anos tento mostrar-lhe o quanto ela tem avós maravilhosos, e o fato de ter sido renegada pelo pai biológico, não significa que a família dele não a ame. Nunca vou saber o que aconteceu. Sinto muito por ver a vida dela passando e ela desperdiçando tanto amor. Porém, nada nesta vida é por acaso, e se vivemos amores e desamores na vida, sou consciente de que foram escolhas nossas, mesmo que não nos lembremos delas!

E pra embalar o final de semana, "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã....". Quem é que garante o amanhã?

6 comentários:

  1. Nem tenho palavras... Só digo que te entendo.
    Beijo...

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  2. Que lindo e comovente, Ursula.
    Que pena a avozinha morar em um asilo! Minha mãe fará 88 anos no dia 30 e eu jamais a deixaria num asilo, mesmo entendendo que há famílias que o fazem, por N motivos e não vou julgá-las, pois cada uma tem suas razões e muitas vezes é melhor que as pessoas vivam mesmo longe de familiares, até para a própria segurança delas.
    Não tente encontrar razões para a sua filha ser distante dos avós paternos. Só ela e seu coraçãozinho podem entender.
    O importante é a gente mostrar nosso amor a eles, com bons papos e presença física. O tempo é o senhor da razão.
    Até o amor que se dá tem que ser comedido. Até amor demais sufoca. Mas na medida certa, ele atua o tempo todo e os resultados virão.
    Meu carinho para você.

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  3. Na vida não consigo aceitar o morno, o menos, o fraco! Amar é ser passivo, se entregar, se rasgar, se doer, ser imensamente feliz! A família do seu marido não te aceita? Azar o deles que estão perdendo a oportunidade de conviver com uma pessoa linda, incrível e apaixonaste! Seja feliz amiga! E, saiba, vc é mto amada!

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  4. Com certeza ninguém é obrigado a nos amar... Adorei o post...Sempre penso sobre isso e normalmente concluo que na maioria das vezes família são aqueles que escolhemos independente de laços de sangue... Bjo... Me dá um pouco do leite moça??? Lava meus porongos???

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  5. Suas amigas lindas! É isto mesmo! Amor é pra se dompartilhar com aqueles que os têm em seus corações! Onrigada pelo carinho, sempre!!!!! Beijos

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  6. Belo texto!

    Tirar esse amor por obrigação das costas é algo que deixa a nossa vida bem mais leve.

    Já me culpei muito por simplesmente não gostar de alguns membros da família. Pois cresci com a ideia de que família é família e ponto.

    Sempre fiquei com raiva de "parentes" que traziam convites de casamento de seus filhos aqui. No intuito de ganhar um presente é óbvio, pois se gostassem realmente de nós viriam sempre. Eu não perco meu tempo visitando quem eu não vou com a cara. Hoje sei que da mesma forma que eu não amo tanto, nem todo mundo me ama e sou feliz assim.

    Evoluir é aprender a viver bem aqui, se livrar do que não faz bem. Valorizar as coisas boas, os pequenos e grandes detalhes.

    Obrigada por ouvir meu desabafo e me presentear com uma resposta maravilhosa. Aprendo muito com você!!

    Beijos.

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