terça-feira, 30 de julho de 2013

Sobre Diploma, Jornalistas, Domésticas e afins

"Que neste dia de hoje, todo individuo tenha a possibilidade de refletir duas coisas: sua vida e a vida dos que o cercam. Possa entender que para um mundo melhor, temos que nos respeitar, respeitando também o próximo. Aceitar que mesmo com nossas diferenças, o fim é igual para todos. A lição não bem de religião nenhuma. Vem do Universo: faça o bem, e terá o bem. Lembrando sempre que somos elos de correntes. Se você for um bom elo, estará na corrente do bem!"

Iniciei meu dia com a mensagem acima, escrita no Facebook. Refletindo sobre a vaidade e a soberba das pessoas.

Tenho uma amiga que tem três diplomas de pós-doutorado. E ela é uma mortal. O conhecimento está dentro dela, ela o dissemina, mas nos anos que a conheço, nunca vi esta pessoa se desfazer de ninguém. Ela vive reclamando que está sem dinheiro, leva uma vida simples e digna, sem luxos e jamais permite que a soberba tome conta de seu ser.

Tem gente que não tem estudo. Tenho um amigo assim. Ele não terminou o Ensino Médio. E ficou rico. Milionário antes dos 30 anos. Inteligente? Talvez. Mas muito esperto e sagaz. Como ele conseguiu isto? Trabalhando, e muito, ouvindo desaforos, sofrendo humilhações, mas mantendo a humildade e foco em seus objetivos.

Tenho um irmão que é jornalista. Não destes que vão quatro anos à faculdade, para ganhar um diploma no final do período. Antes de conseguir o diploma, que para nada lhe serve - afinal, qualquer pessoa com o dom para a profissão pode ser jornalista - ele já tinha seu registro profissional no Ministério do Trabalho. E ter ou não diploma, não o faz melhor ou pior que o amigo lá de cima, sem estudo, ou a amiga mais acima, com muito estudo.

Tenho muitas amigas, algumas com excelente formação acadêmica. Outras, sem nenhuma. Para mim, elas são iguais. Quando estamos juntas, rindo, gargalhando, trocando experiências de vida, ninguém apresenta diploma.

Todas estas pessoas saem de suas casas para trabalhar. E quando voltam, precisam ter suas roupas lavadas e passadas, a comida feita, o filho muito bem cuidado. E quem realizou todas estas tarefas? Alguém, com ou sem estudo, que dedica sua vida para cuidar da dos outros, e dos filhos que se colocam no mundo cujos cuidados são terceirizados para esta classe conhecida como "domésticas".

Hoje, foi divulgado o novo piso salarial dos jornalistas. Ou profissionais de comunicação. Assim como foi divulgado também o novo projeto de lei para o piso de R$1.200,00 para domésticas que dormem no serviço.

Li quatro comentários preconceituosos na minha página do Facebook. Vindo de quatro pessoas diferentes, que não se conhecem entre si (um milagre, já que neste mundo, todos se conhecem), e todas indignadas com o piso da sua área: Comunicação. Interessante foi saber que todas as quatro pessoas (três mulheres e um homem) compararam suas importantes (?) funções com a de uma doméstica. Claro que se colocando em uma classe superior.

Gostaria de saber se seria possível para estas e tantas outras pessoas trabalharem em sua tão importante função social (?) se não fosse a classe das domésticas para cuidar de suas casas e seus filhos.

Uma doméstica que dorme no trabalho, passará, talvez, a ter direito a um salário mínimo de R$ 1.200,00. Aquela que é a última a dormir e a primeira a acordar na casa. Aquela que lava, passa, cozinha, cuida dos filhos e dos afazeres da casa, afazeres estes que muitos jornalistas não têm a menor capacidade. Quantas horas por semana esta pessoa trabalha? Porque o menor piso para o profissional de comunicação gira em torno deste mesmo valor, para cinco horas diárias. Muitos destes profissionais têm assistência médica, odontológica, vale-refeição, e quando não os têm, é porque optam por trabalhar em regime de Pessoa Jurídica, para diminuir a carga tributária.

O que quero dizer é que diploma não faz ninguém melhor ou pior que ninguém. A humildade, sim, faz com que as pessoas sejam divididas. Porque diploma pode ser comprado na Praça da Sé. Porque existem pessoas que inventam ter uma profissão, e acreditam que possuem tal titulação. Porque nem a minha amiga com muitos diplomas ou o meu amigo sem nenhum, são diferentes para mim.

Será que os caros inteligentes jornalistas já pararam para pensar um pouco sobre microeconomia? Lei de oferta e procura? Temos um jornalista para cada esquina de Sampa. Figura de linguagem, claro, mas é fato que o mercado tem excessivamente muitos profissionais. E a dificuldade que se há para encontrar uma doméstica? Alguém já pensou nesta proporção?


E para você? O que é um diploma?

p.s.: ontem recebi algumas mensagens no texto que publiquei, e que foram de grande conteúdo. Para respondê-las, farei um texto especial de agradecimento! Por ora, meu muito obrigada!


9 comentários:

  1. Excelente texto.

    Mãe Panda, tive o desprazer de conhecer algumas pessoas assim.

    Inclusive um professor da faculdade. O cara se achava a última coca-cola do deserto. A matéria dele era a mais importante, a pesquisa dele era a melhor e de vez em quando ele soltava umas piadinhas preconceituosas em relação aos outros professores e as classes menos favorecidas.

    Sem contar que a cultura "uspiana" te leva a crer que você é um ser superior porque está ali.

    Ser doméstica é tão digno quanto qualquer outra profissão. São seres humanos trabalhando para pagar suas contas como qualquer outro.

    Eu tenho fé que um dia esse tipo de preconceito vai acabar.

    Eu conheço um cara que não sabe ler e construiu uma empresa super rentável para as filhas. Hoje em dia ele tem muita grana, que foi conquistada com muito suor e algumas humilhações. Ele é a prova viva de que diploma não é tudo na vida.

    Beijos e abraços!

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  2. Respondendo a perguntinha...

    Acho que a ensino superior está banalizado de uma tal forma que para mim um diploma significa ter direito a uma cela especial se um dia eu for presa, rs.

    Um diploma impresso em um papel não tem serventia nenhuma se a pessoa não for guerreira, criativa e esforçada. Ele abre portas, mas apenas a sua competência (que não se aprende em um curso superior) vai te manter em determinado cargo.

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  3. Acho que as pessoas dizem essas coisas automaticamente, sem pensar. Elas nem pensam o que falam e nem pensam antes de falar. Só pode ser.....

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  4. Belíssima reflexão Ursula.
    Fico chateada quando há comparação de salários nas diferentes profissões. Cada uma é diferente e, portanto, incomparável.
    Muitas pessoas tem a chance de escolher sua profissão. Mas tantas outras não tem escolha, mas mesmo assim estão desempenhando seu papel.
    Sensibilidade é algo que não se aprende na faculdade..
    Respondendo a sua pergunta, ter um diploma pra mim é desempenhar a função que nos foi delegada da melhor maneira que pudermos executar.

    Beijo grande

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  5. Ursula conheço os dois lados da moeda. Antes de ter oportunidade de cursar uma faculdade fui empregada doméstica por dezoito anos. Não tenho vergonha do meu passado, pois hoje sou uma pessoa melhor graças a tudo o que vivi. O diploma, como disse a Crys abriu portas, afinal era o requisito para o concurso público, mas se eu não me esforçar, continuar estudando e respeitando os meus semelhantes de nada valerá. Fico feliz em saber como você pensa e expõe as ideias. Bj

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  6. Eu SEMPRE valorizei quem trabalhou pra mim... já que simplesmente NÃO SUPORTO a rotina do trabalho doméstico, que nunca acaba. Já teve tempo em que trabalhei "fora" ganhando um salário mínimo e entregando inteirinho na mão da doméstica!

    Mas hoje - sim, HOJE! - me despedi da minha, a quem sempre me referi como "Santa". Mas, quer saber? Descobrimos que ela nos roubava, deslavadamente. E não era somente no tempo, já que chegava às 9h e saía às 14h, 5 h por dia, ganhando como se trabalhasse 8h. (E disso eu nunca reclamei!)

    Ela roubava dinheiro na carteira de Marido e na minha bolsa, comida cozida e crua (uma posta de salmão inteirinha "desapareceu" da geladeira... e um contra-filé que ela "colocou pra descongelar" na janela da cozinha foi surrupiado por um gato ou urubu, ou seiláoquê, só pra dar alguns exemplos).
    Fiquei arrasada por ter que demiti-la, até adoeci. Mas não tive coragem de confrontá-la. Disse que era por contenção de despesas - o que não deixa de ser verdade. O salário dela estava saindo muito maior que o que havíamos acertado...

    Enfim, hoje não estou num bom dia para valorizar as domésticas, perdoe-me!

    Beijooo

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  7. Sempre discuti muito sobre essa relação:"inteligencia" e "cultura".
    Conheço muita gente com diploma, que não sabe falar nem escrever direito.
    Também conheço muitas ´pessoas humildes, sem estudo, mas com uma inteligência nata, uma visão de vida sem distorções, bem real.
    Infelizmente, as empresas hj contratam não um profissional, mas sim um diplomado, de preferência com ótima aparência, pouca idade e sem experiência alguma.
    As pessoas com mais idade são desprezadas, mass tds esquecem que um diploma antigamente era muito mais difícil.
    Precisava estudar para passar de ano, precisava pagar e muito, não havia cursos on line, mas com certeza os profissionais eram muito competentes.
    Só que hj eles estão velhos, e o mercado de trabalho não os quer.
    Essa estória me atinge diretamente nos dois pontos principais, e digo de cabeça alta: Eu tenho orgulho de tudo que já fiz, e mais ainda do que estou fazendo agora. O importante é lutar sempre.

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  8. Ser jornalista é como ser ator, ou você consegue emprego na Globo ou vai sofrer o resto da vida. Infelizmente. Curso superior é muito importante e necessário, ele qualifica o profissional. Em relação a caráter o diploma não faz a menor diferença.

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  9. Clap clap clap !!! (aplausos, srrs)

    Menina, isso me tira do sério...
    Outro dia fui num desses eventos que parceiros promovem... fiquei tão de "saco cheio' com uma convidada que quase falei que eu não estava contratando, rsrsr

    Sério, a mulher começou a falar dos diplomas, dos cursos, do raio que o parta ( e eu não perguntei nada... porque acho falta de educação ficar perguntando o que a pessoa faz... sou dessas, rsrs)

    Um dia li no face uma pessoa que eu até gostava dizer que era um absurdo empregada querer ganhar mais que médico/ outra profissão diplomada. Fiquei decepcionada, porque a pessoa demonstrou um preconceito tão grande...

    É claro que diploma é importante, mas se vc vai exercer a profissão... senão é mais um papel e como vc bem disse, pode ser comprado na Sé...

    nuossa, escrevi um post, rsrs

    bjus 1000 querida e um finde lindão prá ti !!

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