quarta-feira, 12 de junho de 2013

Sobre 'carteiradas'

Que atire a primeira pedra quem já teve carteira e nunca usou pra dar carteirada. Eu, se tivesse uma fábrica delas, usaria-as todas.

E não se trata de querer tirar vantagem não. Muitas vezes se trata de resolver mais rápido, de tirar o assunto da frente.


Explico-me: tenho muitos amigos jornalistas, além do irmão. Não sei dizer quantas vezes vi coisas erradas e ameacei chamar a imprensa, dando nome e sobrenome aos cidadãos que nos representam no quarto poder. Detesto vitrine sem preço. É lei. Temos direito. Não temos que entrar, perguntar o preço e as chatas das vendedoras terem o "poder" de cobrar da gente de acordo com o que vestimos ou aparentamos. Não ameaço com o Procon. Pergunto direto ao dono se uma visita da imprensa seria bem vinda. No dia seguinte, não há um produto sem preço.


Este é apenas um dos tantos exemplos.


Quer ver outra coisa que me irrita? Ser maltratada em supermercado. Meu marido trabalha oitenta horas por semana, sem ganhar hora extra, pois a única coisa que leva de extra é o que Maria ganhou atrás da horta. Ai a gente chega no caixa e é maltratado. Se a pessoa está lá trabalhando, não quero saber se ela ganha pouco ou muito. Quero saber que ela acordou com a outra parte que faria bem feito aquele serviço por aquele salário. Então faça. Porque até que um produto chegue ao caixa de um supermercado, só quem está nos bastidores sabe o árduo caminho percorrido. Aí vem a pessoa do caixa e acaba com tudo? Espanta um cliente que é conseguido a duras penas? Dou carteirada. Aviso que meu marido é diretor da rede. Que aquela atitude será imediatamente reportada ao chefe direto. Ligo pro meu marido e exijo meu direito de consumidora. Sem peso na consciência, pois o meu trabalho, eu faço bem feito e o valor pecuniário que ganho por ele é nada.


Mas por que este papo? Por conta da polêmica causada na última sexta, sete, envolvendo a pessoa do Promotor Público Zagallo. O indivíduo estava já há duas horas parado em meio às manifestações que têm parado São Paulo, e com hora para buscar o filho na escola. No ímpeto da emoção, teve a infeliz ideia de desabafar com sua única companhia no momento: o Facebook. Em minutos, uma viral. Em poucas palavras, Rogério Zagallo incita a Tropa de Choque, fala mal o PT e diz que aquela é ‘sua’ jurisdição, o que acontecer ali, será feita vistas grossas.


O calor da emoção fez com que o Promotor desse sua carteirada. Acontece que estamos falando de um grande jurista. Zagallo ocupa uma das cadeiras da renomada instituição de ensino Mackenzie, instituição esta que tem um dos maiores índices de aprovação na OAB-SP hoje, índice este maior que a tradicional PUC, e graças ao excelente corpo docente que conseguiu compor (falo aqui com propriedade, pois além de ter amigos que integram este corpo, tive o privilégio de ter aulas com alguns destes docentes).
Naquele momento, o indivíduo Rogério quem falava, mas por conta do calor humano que todos têm, usou sua ‘carteira’, causando polêmica, abertura de inquérito em seus processos e um provável afastamento do Mackenzie.

Sou a favor das carteiradas em um país como o nosso, onde nada funciona. Sou contra manifestações que culminem em depredação de patrimônio público. Sinto que alguém entra na minha casa e quebra coisas compradas com o meu dinheiro. E não é verdade? Sou contra manifestações que atrapalhem o ir e vir do cidadão que está no seu trajeto de trabalho, levando e trazendo problemas, preocupações, emoções.

Em minha opinião, manifestações devem ocorrer em cima dos culpados. Lá na porta do Palácio do Governo, lá na porta da Prefeitura, da casa do Alckimin, do Haddad. Jamais na Avenida Paulista, lugar este que é reduto de maternidades.

Alguém já parou pra pensar quantas mulheres desesperadas por estarem em trabalho de parto entram em processo de pré-eclâmpsia por medo de não chegar a tempo, quando tudo está parado e não se tem pra onde fugir? Alguém já parou pra pensar que, talvez, o caso do Promotor, que dizia estar indo buscar o filho, pode até não ser verdade, mas quantas e quantas mães largam seus trabalhos tresloucadas para chegarem nas escolas dos filhos antes dos seus fechamentos, e se veem paradas no meio do caminho?

O mundo anda muito cheio de julgamento e muito escasso de pensamento. Eu já deixei de julgar faz tempo. Atirar pedras é fácil, difícil é ser vidraça.

Espero que esta e outras histórias tenham um final feliz, que o mundo pense mais e fale menos, que as redes sociais tenham um cunho mais social, seja no sentido de fazer amigos, trocar ideias, e não de exposições auto-punitivas, seja no sentido ‘socialista’, de fazer o bem ao próximo, de grupos que se unem para ajudar a quem necessita! Quem sabe, assim, não sejam aposentadas muitas ‘carteiras’?


Nenhum comentário:

Postar um comentário