sábado, 9 de abril de 2011

Realengo: somos todos culpados

Meu nome é Úrsula, tenho 36 anos, sou mãe de duas crianças e também professora. Além de ser humano que habita este planeta insano. Portanto, nada do que eu venha a dizer tem a ver com insensibilidade. Pelo contrário, tem a ver com indignação.

INFORMAÇÃO 1: Antes de mais nada gostaria de deixar claro que tenho depressão crônica diagnosticada oito anos atrás (quase nove, na verdade), já tive crises de pânico alguns anos atrás e tenho graves casos de doenças psiquiátricas na parte feminina da minha família materna.

INFORMAÇÃO 2: Também gostaria de dizer que sofri bulling na infância. Não foi fácil chamar-me Úrsula. Fui alvo de chacota e gozação por muitos anos. Também sofri bulling porque tinha a testa grande. Minha mãe me ensinou que era sinal de inteligência, e como modéstia a parte sempre fui inteligente, comprei a história dela e vivi feliz com as chacotas. Na época, elas nem se chamavam bulling e jamais eu teria aparecido na Rede Globo em horário nobre por ser alvo de gozações devido à minha testa grande.

INFORMAÇÃO 3: Odeio o PT. Desde criança. Odeio o Lula. Também desde criança. E odeio a Dilma. Mas esta só desde o ano passado, e ainda assim, porque ela pertence ao partido do Lula, quem eu acho um charlatão, aproveitador e manipulador de pessoas. Talvez se ela pertencesse a qualquer outro partido, pouco me importaria.

Imaginem só se eu resolvo trocar um computador ou uma máquina fotográfica por uma arma. Alguém acha que seria difícil? Não quis pesquisar na internet. Tenho preguiça. Mas acho que a dificuldade seria zero. E não tem nada que ver com arma legalizada ou não. Não tem nada que ver com o plebiscito nacional que liberou o uso da arma de fogo. Com ou sem liberdade, elas são usadas da mesma maneira.

Então eu consigo a arma ilegalmente. Aprendo a atirar. Entro na escola dos meus filhos. Ou em uma escola para lecionar. Ou ainda em outra escola que eu resolva pedir para o diretor, para o coordenador, ou para qualquer outra pessoa que tenha acesso à escola, que eu também tenha o acesso. Na minha normal aparência, tenho certeza de que eu teria dificuldade zero para adentrar qualquer instituição de ensino, pública ou particular. Assim, munida com a arma ilegal, atiro e mato algumas pessoas, crianças ou adultos.

DE QUEM É A CULPA?

A culpa é do bulling sofrido na minha infância? Do meu histórico de "loucura" familiar? Do Lula e da Dilma? Ou ainda da impunidade que nosso judiciário permite, por ter leis tão mansas, num país cujo indivíduo tem o direito a matar uma vez na vida e sair livre depois de alguns anos vivendo às custas do Estado? Ou será ainda a culpa de Deus, que não protegeu a escola? Ou das religiões que pregam fanatismo?

Não adianta buscar culpados. Não há um culpado específico. Há, sim, uma imensidão de culpados. Começando por cada um de nós.

Somos culpados quando permitimos que nossos filhos cometam pequenos deslizes. Sabotem um amigo, desrespeitem um professor, não obedeçam a nós, seus pais. Somos culpados quando terceirizamos a educação dos nossos filhos, responsabilizando as escolas por tudo de ruim que acontece. Quando permitimos que um filho faça coisas que venham a ferir princípios éticos e morais. E pior, somos culpados quando erramos e permitimos que nossos filhos convivam com estes erros.

Vivo em um mundo medíocre e hipócrita. No meu mundo, pessoas jogam cocô pelas janelas das suas sacadas, mas ninguém de fora pode saber que isto acontece. É como jogar o erro debaixo do tapete. Tampar o Sol com a peneira. A sociedade em que vivo é medíocre a ponto de um indivíduo se achar no direito de boicotar a comunicação coletiva, por não estar de acordo com a política que seu líder adotou. Este é o cidadão que cria os futuros matadores nas escolas.

Indivíduos mandam seus filhos para as escolas, muitas vezes julgando que aquela escola é a melhor. A melhor escola para meus filhos é a minha casa. Qualquer outra é apenas complemento.

Na escola da minha casa procuramos ser politicamente corretos. Não consumimos pirataria. Não fazemos contrabando. Não toleramos falta de respeito. Quando não estamos de acordo, tentamos argumentar, mas pregamos o respeito ao próximo. Educamos nossos filhos para um mundo no qual eles serão muitas vezes vítimas de preconceito e discriminação, exatamente por estarem fora dos padrões: a corrupção, a malandragem, o jeitinho brasileiro, que não acontece só em terras tupiniquins, mas em qualquer parte do mundo.

Peço profundamente em minhas preces para que haja muita luz para tantas e tantas famílias que todos os dias são vítimas do sistema que nós próprios criamos. E que não precisem ocorrer catástrofes como a da escola do Realengo para que repensemos a maneira com a qual estamos criando nossas crianças.

Paz no mundo. Utopia? 

6 comentários:

  1. Sua historia eh bem parecida com a minha, na essencia, bastando trocar alguns detalhes. E alem dessa semelhanca, compartilho tb de sua indignacao (tirando Lula e Dilma, q eu nao odeio). Em meio a tanta coisa que esta sendo falada (e esrita na velha e na nova midia) seu texto, plenamente lucido, vem dizer as verdades que poucos querem ouvir. Que bom que tem alguem que, mesmo assim, fala. Bjooo

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  2. Essa história de bulling pra mim é novidade. Juro que a primeira vez que escutei fosse essa semana e eu nem sabia o que significava. Eu também tenho testa grande e durante toda a infância fui chamada de Glenda Testa, Rede Globo ou PlimPlim (o PROFESSOR de educação física sempre que passava por mim me chamava de Telão e me dava um tapinha na testa)... minha mãe tb dizia o mesm, inteligência. Hoje em dia ganharia uma indenização do cacete.

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  3. Adorei seu texto, muito pertinente suas colocações, como professora também compartilho de suas ideias "educação vem de casa" somos nós pais e mães que devemos estar atentos aos comportamentos de nossos filhos.
    Agora penso que seria muito valiosa a prensença de um psicólogo ou conselheiro nas escolas pois muitas vezes nos deparamos com crianças com graves problemas emocionais e quando nos reportamos aos pais eles não aceitam e não procuram ajuda.

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  4. Oii, Pandinha, mesmo bem ocupada e nem mesmo tendo tempo de atualizar meu blog mais eu sempre passo por aki qdo eu consigo pq gosto mtu de ler seu blog. Eu acredito que diversos blogs essa semana falaram sobre o mesmo assunto e nenhum deles tiveram senso qdo soh resolveram pagar violencia com violencia, desejando que o matador fosse para o inferno e tals. Somente o seu blog conseguiu descrever a realidade que nos vivemos, pq nao eh soh no brasil q esse tipo de coisa acontece ainda mais violencia. Eu tb acho que eh mtu facil culpar o mundo todo, mas existem milhoes de wellingtons espalhados por ai todos os dias, nos como educadoras sabemos bem onde esta a raiz do problema. Eu fiquei muito envergonhada quando eu li uma noticia do diretor chamando o wellington de aluno invisivel. Infelizmente milhares de inocentes pagam todos os dias nao somente os que morreram nessa escola. Isso tambem e resultado do descaso do ser humano, de nao cumprir seu papel como educador, tambem da sociedade que exclui pessoas por minimos motivos. No fim das contas eu acredito que essas criancas que estao no ceu, porque eu prefiro acreditar assim, nao morreram por nada, deixaram uma licao a todos. Alguns ja estao refletindo e enxergando alem do que aconteceu, outros ainda precisao aprender o que vale a pena nesse mundo e um exemplo e o seu texto, como voce e a sua familia sao unidos e dividem valores. Outra questao importante eh como o Brasil lida com pessoas com special needs, principalmente em escola publica/municipal. Meu irmao estudou em uma durante 1 semana e eu estagiei por um bom tempo, olha eu sei que nao ha justificativa para o que aconteceu, mas dependendo da escola que um aluno cai, eh pedir para estudar no inferno. Eu vi de tudo e o meu irmao teve que ser transferido rapidamente porque era ameacado, chutado todos os dias. Como a Adriana citou acima, uma escola precisa sim de psicologo e toda assistencia a um aluno, as escolas da Irlanda costumavam ser muito boa antes da recessao aqui e aqui a politica e forte para lidar com bullying. Eu realmente espero que pelo menos uma licao saia dessa tragedia toda, senao vai ser meramente como outros 500 casos que a rede globo levantou, promoveu e que apos um tempo a memoria curta do brasileiro acaba esquecendo..
    Te desejo uma semana abencoada. Como esta o mestrado? O meu ja esta me fazendo ficar careca hahaha bjuuuuuuu

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  5. Amiga, eu fiquei um lixo um toda essa história, literalmente! Tenho chorado toda vez que ligo a net ou a TV, e até mesmo quando abro o jornal de casa e me deparo com a foto de alguma das crianças mortas ou feridas nessa tragédia. Trabalhei por um tempo num Hospital Psiquiátrico e posso falar um pouco sobre o assunto...difícil prever situações como a que aconteceu em Realengo mas também não me parece difícil evitá-las! Primeiro porque doença mental pode e deve ser diagnosticada precocemente. Não sei a história do indivíduo que praticou essa barbárie, mas sei que ele já deveria dar indícios de sua perturbação quando criança, já que sua mãe biológica já sofria de doença mental. Daí me pergunto: onde estavam os pais adotivos e os irmãos dessa criatura que não o cuidaram de perto? Não se pode deixar alguém que sofre desse problema sozinho, sem acompanhamento. A internação manicomial do país já está praticamente extinta, mas isso ocorreu com a promessa de um acompanhamento corpo a corpo de pessoas psicóticas e ou esquizofrênicas. Onde estão os vizinhos dessa criatura que nunca entraram em contato com familiares para dizer que ele não se comportava bem? Outro fator que ninguém comenta: quem induziu essa pessoa a matar? Sim, porque indivíduos esquizôfrenicos ou até esquizóides não cometem atrocidades assim. Geralmente eles se matam ou se perdem na personalidade doentia. Ou seja, alguém o ensinou a atirar, colocou coisas na cabeça dele, insuflou a violência do mesmo. Não estou falando de quem lhe vendeu as armas, porque esse é outro problema grave. Isso sem entrar na questão da polícia porque, convenhamos, aquelas crianças tiveram é sorte porque se fosse aqui em São Paulo, os policiais iriam esperar reforço para entrar na escola e até negociariam com o monstro até ele exterminar a todos, vide o caso Lindemberg que foi uma palhaçada! O que podemos fazer? Não sei amiga! Faço todos os dias a minha parte como mãe, educadora, Psicóloga e cidadã, mas sinceramente, numa tragédia dessas, só penso em beijar e abraçar mais vezes os filhos que tanto amo!

    Bjs

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  6. Ursula,
    O que vc colocou aqui nesse post é a verdade. Estamos numa sociedade altamente mediocre e sem respeito nenhum a ninguém. Perdemos aquele respeito que tinhamos aos mais velhos, aos professores. Vemos hj crianças sem limite e começam pela casa.
    Adorei seu post. Parabéns.
    Beijos
    Adriana Balreira

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