quinta-feira, 24 de março de 2011

Vale tudo?

O grande momento de distração que tenho diariamente é quando paro por alguns minutos frente a televisão para assistir a novela Vale Tudo. 

Escrita há vinte e três anos atrás, vejo-a como atemporal.

Gosto de analisar cada um dos personagens e fico pensando como é que três autores são capazes de criar tipos assim. Alguns frágeis e ingênuos. Outros falsos e dissimulados.

Novela nada mais é que um retrato da realidade interpretado por outras pessoas. Para mim, autor de novela é uma pessoa completamente atenta às outras, e capaz de transcrever cada indivíduo para seus personagens.

Hoje estou divagando com a personagem mais famosa da telenovela brasileira, Odete Roitman: fria, calculista, dissimulada, falsa, sórdida. Capaz de passar por cima de tudo e de todos pelos seus interesses.

Quantas Odetes não cruzam nossas vidas? 

O ser humano é egoísta por natureza, diria que por instinto de sobrevivência. Pouco se pode confiar em um semelhante e cada um precisa ter em si o seu melhor amigo.

Calma, não estou descrente, muito pelo contrário, estou mais crédula que nunca, menos cética que antes. Estou acreditando, mas acreditando que precisamos sempre dar ao próximo o nosso melhor, desde que o próximo esteja pronto e apto a receber este melhor.

Imagina uma situação: você e seu melhor amigo estão em alto-mar, sobreviventes de um naufrágio. Há apenas uma bóia um pouco distante dos dois. Só quem chegar primeiro sobrevive para sempre, mesmo que saibamos que para sempre não existe. Você se afoga e deixa seu amigo sobreviver? Não, vai nadar de braçada em busca da bóia, em busca da vida.

Muitas pessoas traem por falta de caráter, por soberba, por vaidade. Outras traem apenas por sobrevivência. Nos dois casos, porém, o traído sairá ferido, magoado e crendo cada vez menos nos seus semelhantes.

Nestas horas é bom saber que a linha entre a ficção e a realidade é muito tênue, e que ao fim e ao cabo, tudo que fazemos de bom por aqui soma pontinhos para ganhar passaporte VIP para o céu. 

Eu quero o meu. Por mais que eu sofra com tantas Odetes que passaram ou que passarão por minha vida, ainda creio, ainda tenho esperança, e aposto sempre no melhor de cada pessoa. Para mim, não vale tudo só por ter ou por ser. Vale tudo por deitar a cabeça no travesseiro todas as noites e ter a certeza de que, por mais um dia, plantei minha semente do bem. E que assim seja...

2 comentários:

  1. Pois é, uma coisa é nadar em direção à boia, outra é afogar o amigo, pra não ter concorrência para a bóia...

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  2. Boa! E a Bel complementou de forma ótima. Não lembro da novela... mas concordo que personagens nada mais são do que reflexos das pessoas de verdade...
    bjo

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