terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Invertendo a ordem

Sempre ouvi dizer que a pior dor que se pode sentir não é a dor de parto, não é a dor do infarto, não é a dor de dente, muito menos a dor de pedra nos rins.

A dor mais forte que se sente na vida é a dor da morte de alguém que amamos. Esta dor só tem fim no dia em que nós mesmos morremos. Portanto, é uma dor sem data para acabar.

Dizem, e jamais quero viver para provar desta dor, que por pior que seja a dor de perder alguém, ela se torna infinitamente maior quando se perde um filho. É a chamada inversão da ordem natural da vida, quando o filho vai embora antes do pai.

Meu avô paterno ficou viúvo pouco antes dos quarenta anos. Enterrou a mulher precocemente, e restaram-lhe os cinco filhos.

Quase três décadas depois, ele sofreu a dor de enterrar ali, no mesmo lugar onde descansavam os restos da minha avó, minha tia mais velha, que também partiu de maneira precoce, aos quarenta e quatro anos. No ano seguinte, enterrou a neta caçula, com então quinze anos. E dez anos depois, enterrou meu pai, com cinquenta e um anos.

Não tenho história de vida com meu avô paterno. Ele sempre morou em Minas Gerais e nós aqui em Sampa. Assim, não criamos vínculo, laços ou histórias. Ele é simplesmente o pai do meu pai. Não me resta dúvidas, porém, de que independente deste homem ter tido virtudes ou defeitos na vida, ele é um vitorioso por conseguir sobreviver a tantas perdas, até porque três meses antes de enterrar sua filha, enterrou sua mãe.

....

Hoje fui levar o Peteleco na escola. Primeiro dia de aula, enfrentei quarenta e cinco minutos para percorrer os dois quilômetros que separam nossa casa da escola dele. Cheguei, estacionei e fui levá-lo até a sala de aula. Encontrei com a Bibizoca já me esperando. Veio correndo me contar que a "tia Sandra", da escola anterior, estava agora trabalhando nesta escola.

Antes mesmo de ela terminar, avisto a "tia Sandra".

A Sandra tem minha idade. E com duas filhas da idade dos meus filhos. Ela era auxiliar da educação infantil, e cursava Pedagogia. Formou-se ano passado. Como as criancinhas Hummel saíram da escola no meio do ano de 2010, foi no dia 30, na despedida, a última vez que a vi.

Em outubro, fomos ao aniversário de uma amiguinha da ex-escola, da turma do Peteleco, cuja mãe chama-se Sandra também. Dias antes desta festa, uma amiga me enviou um email, dizendo que a filha mais velha da Sandra tinha falecido. As filhas de ambas as Sandras tinham a idade da minha Isabela. Entrei em choque na hora, pois a filha da "segunda" Sandra desta história é uma criança próxima a mim, amiga da minha filha.

Foi na festa de outubro que soube detalhes do óbito da criança. Uma sexta-feira, após voltar da escola, teve dores de cabeça. Fortes. Foi levada ao pronto socorro do hospital Samaritano. Tinha tido um AVC. Faleceu em 48 horas.

....

Esta história é triste, e hoje, após reencontrar a "tia Sandra", cumprimentei, abracei e a primeira coisa que ela me disse: "você sabia que minha filha morreu?".

Quando ouvimos uma mãe dizer isso, não há ação ou reação imediata. Apenas dor. Uma dor profunda. Uma grande impotência por não saber o que dizer. Uma sensação de gratidão por saber que minha filha está ali, ao meu lado. Um sentimento egoísta e mesquinho, mas impossível de ser sentido.

....

Que Deus conforte tantas "Sandras" que existem por aí, amparando-as como Suas filhas da melhor maneira possível. E que proteja sempre meus filhos e seus caminhos, para que jamais eu tenha que viver esta dor.

10 comentários:

  1. Úrsula
    ,
    Escutei várias vezes hoje uma música do Chico, que eu acho que deve ser a letra mais triste de toda a MPB. Afinal, que metáfora melhor para a tristeza do que a perda de um filho?

    "Oh, pedaço de mim
    Oh, metade arrancada de mim
    Leva o vulto teu
    Que a saudade é o revés de um parto
    A saudade é arrumar o quarto
    Do filho que já morreu"

    Apesar de não conhecer essa dor, sempre fico com os olhos cheios de lágrimas com esse trecho.

    Um beijo e que você tenha sempre a felicidade de ter consigo os seus.

    N.

    ResponderExcluir
  2. Ainda não tenho filhos, mas recentemente uma conhecida tb perdeu seu filho, de 10 anos, em 48 horas. Serve pelo menos pra gente pensar que temos que aproveitar um dia de cada vez, porque o amanhã, ninguém sabe...

    ResponderExcluir
  3. Meninas...a situação é realmente muito triste...que saibamos viver melhor e melhor... Bjs

    ResponderExcluir
  4. Ursula, chorei lendo seu post.
    Lembrei do meu pai e pensei na minha avo, que perdeu meu tio em 2003 e meu pai em 2008.
    Meu avo, desde a adolescencia do meu pai, dizia que ia morrer logo.
    Se afastou qdo eu e meu irmao eramos criancas, porque dizia que morreria logo e nao queria que sofressemos.
    Desde a morte do meu pai ele se trancou no quarto e nao fala com ninguem. Esta com comeco de Alzheimer.
    Qdo estive la, minha avo levoua Nina para ele ver. Ele abriu o maior sorriso.
    Na semana seguinte tinha me mandado um bilhete, que me amava muito.
    Minha avo, com seus 87 anos, perdeu seus 2 fihos e agora cuida do meu avo.
    Doi demais...e uma dor que, realmente, so vai parar quando morrermos tambem.
    Bjo

    ResponderExcluir
  5. Ah minha amiga...eu já chorei hoje. Porque por mais que eu queira ser dura comigo mesma, sou mole, sou emoção, sofro, choro. Todas as perdas da vida são difíceis, mas preferia morrer a perder meu marido ou um dos meus filhos. Que eu nunca tenha que viver estas dores! Nenhuma de nós Isa! Vamos orar hoje pelas pessoas amadas que já se foram! Beijo grande

    ResponderExcluir
  6. Que tristeza. Nunca tinha ouvido falar de alguma criança tendo AVC. A vida é frágil demais em qualquer idade. Que nossas crianças aí estejam sempre saudáveis e felizes. Aliás, que todas estejam...

    ResponderExcluir
  7. MV, historias assim sao tristes d+, e piores qd tao próximas de nos!

    ResponderExcluir
  8. Você deixa eu ficar quietinha sem comentar nada??? Qdo a gente mora longe dos filhos, é complicado pensar que eles podem morrer e a gente mal conseguir chegar pro enterro...

    ResponderExcluir
  9. Pois é... eu cheguei aqui nesse post. E claro, chorei! E não foi pouco!

    É verdade que essa é a maior dor. Não dá pra dimensionar. A dor, a saudade, tudo é demais.
    Mas é necessário seguir.

    Beijo amiga!

    ResponderExcluir
  10. Sheronh, qd isto aconteceu, vc jamais imaginaria um dia ser uma "Sandra". Mas se te serve de consolo amiga, os anos passaram e hoje ela segue a vida de maneira leve, com a saudade eterna da filha de 11 anos, que deixou muita história e muito aprendizado. Deus não faz nada em vão e sei que você crê nisto. Que Ele te abençõe minha querida! Beijos

    ResponderExcluir