sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A primeira vez

Nossas vidas são permeadas por tantas primeiras vezes, que fica difícil elencar a todas. Muitas delas ficam para sempre nos nossos registros, outras não tão importantes acabam se perdendo no tempo.

A primeira vez dos filhos é mais importante que cada primeira vez de uma mãe. O primeiro sorriso, o primeiro dente, o primeiro passo, o primeiro aniversário. É um serzinho bem pequenino que saiu de dentro de nós e que estamos preparando para este mundo cruel no qual vivemos.

Minha filha sempre foi muito dada. Ia no colo de todo mundo, estendia os bracinhos para qualquer pessoa que se postasse à sua frente e isso me fez criá-la com muito medo de perdê-la. Não de perdê-la para a vida. De perdê-la para o homem mal, para o bicho papão, para o homem do saco.

Sofri muito da primeira vez que precisei me afastar dela. E por ela vieram tantos e tantos outros sofrimentos. A primeira vez que dormimos longe uma da outra, morri. Renasci cada vez que ela retornou aos meus braços, e morri tantas outras vezes, esperando o reencontro com minha pequena.

Segundo filho acaba sendo mais largado. Talvez não seja esta a palavra, mas com o segundo é muito diferente do primeiro. Quando meu filhotinho foi dormir pela primeira vez fora de casa, fiquei feliz. Não chorei, não sofri e dormi a noite inteira. Pode ser que eu já tivesse vivido minha cota de sofrimento. Pode ser que eu já tivesse aprendido que filhos vão e voltam, como uma onda em meio ao oceano.

Ele já dormiu na casa das duas avós, da tia materna, do amiguinho Yuri, do amiguinho Gabi e, mais recentemente, dormiu na casa de uma menina. A Rafa.

Quando nos mudamos para o Solar dos Hummel, a primeira família a habitar o condomínio, aguardávamos ansiosos pelos primeiros vizinhos. E eles chegaram oito dias depois. Os Turkowski. Com o tempo, percebemos que as pessoas que estavam vindo morar aqui tinham sempre conhecidos, parentes, amigos, mas os Hummel e os Turkowski não tinham. Então decidimos ser uma família.

As afinidades são interessantes. Os maridos, Milton e Miguel. As mulheres, uma psicóloga, outra psicanalista em formação. Os valores são aqueles que respeitam a moral e os bons costumes. Os Hummel tem um casal de filhos, com seis anos de diferença entre as crianças. Os Turkowski encomendaram uma criança para nascer com seis anos de diferença da sua primeira filha. Rafaela e Isabela. São nossas meninas. Leonardo e Davi, os nossos meninos. Assim passamos os últimos catorze meses, com troca, com amizade, com aprendizado.

A Dani é minha irmã mais próxima. Apesar de eu ser a mais velha, é ela que me ensina, me dá conselhos, me ajuda, está ao meu lado em todos os momentos. Foi ela quem me deu a valiosa chance de tratar meus filhos pela homeopatia e encerrar o ciclo de antibióticos e corticóides que cercava suas vidas. Gratidão eterna.

No último mês, perdi minha secretária do lar. Ganhei outra da minha vizinha. E a Dani pediu a minha nova secretária do lar para ela, dando a dela em troca para mim. A troca deu certo e as pessoas custam a acreditar. 

Trocamos também farinha de trigo, revistas, livros, pratos quentinhos com comida recém preparada. 

A troca mais importante ocorreu nos últimos dias. Semana passada, emprestei a ela o meu Petelequinho. E hoje, a Rafinha está dormindo na casa de um amigo pela primeira vez.

Foi uma noite muito importante. Para prepará-la, abortei coisas do meu dia. Desliguei-me do computador. Ignorei emails e tweets. Preparei uma festa com direito a pipoca, cachorro-quente, batatinha, nuggets, pão de queijo, suco, refrigerante e brigadeiro. Com direito a filminho.

Enquanto a Dani foi embora triste e sofrendo, com o pequeno Davi na barriga prestes a nascer, a Rafa nem percebeu a mamãe partindo. Assistimos A Bela e a Fera. Minha Bibizoca não quis nenhuma amiga. Dormiu no meio do filme. Antes disso, fez a caminha para a Rafa ao lado da cama do Peteleco. Ofereceu seu travesseiro da Hello Kitty. Escolheu seu lençol de cachorrinho. Deixou tudo arrumado, uma mocinha linda, e eu me surpreendi quando fui preparar tudo.

Os pequenos oraram. Agradecemos juntos ao Papai do Céu por termos uns aos outros. Uma família sem sangue que se forma. Mais uma, dentre tantas que a vida vai formando.

Acabei de olhar os três dormindo. Como sou uma pessoa abençoada, por ter três anjinhos perfeitos dormindo de maneira tão sublime. Obrigada, Papai do Céu, pela vida, pelos amigos e pela alegria destas crianças neste meu sagrado lar.

5 comentários:

  1. Panda, queria ser sua vizinha...queria ter uma familia assim.
    Tenho muuuito o que aprender ainda hein...
    Super beijo

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  2. Caraio, puta saudade dessa criançada aí. Manda elas pra passar uns dias na casa do tio!!!
    bjo

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  3. Tantas primeiras vezes... pena que nem sempre lembramos de todas né..hehehe

    Só aquela primeira vez que apesar de ser horrorosa é inesquecível..

    Ah... eu tbm queria ser sua vizinha...

    beijos, amo vc

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  4. Amiga eu estou verdadeiramente apaixonada pelos textos de seu irmão...

    Caraca, é fascinante a forma como ele prende a gente na leitura...hehehe

    parabéns pela família.

    Beijos, amo vc

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  5. Que legal! O Miguel Turkowski tem uma prima longe que adorou saber que ele está rodeado de bons amigos!!!

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