domingo, 23 de janeiro de 2011

O Mundo de Úrsula

De tempos em tempos, donas de casa de todo o planeta deveriam ser submetidas a provas práticas e teóricas, que mediriam seus níveis de aptidões nas diversas matérias das suas funções: lavar, passar, cozinhar, cuidar dos filhos, dos médicos, dos deveres escolares, das atividades extras, dos botões das camisas que caem, da mudança de cardápio diária, das contas a pagar, da administração do lar, do treinamento da empregada, dos suprimentos para manutenção da família, de outras compras extras, como roupas para filhos e maridos, cartucho para a impressora, escova de dente nova, adornos e adereços para a casa. O ponto extra nas provas ficaria por conta da aplicação prática de como receber convidados em casa, seja para um lanche da tarde durante a semana para os filhos, seja em um grande almoço de domingo para os amigos do marido.

Dona de casa é o trabalho mais ingrato da humanidade. Primeiro porque não é remunerado. Segundo porque é discriminado. Quem já viu alguém se apresentar nas fichas cadastrais como "dona de casa" e ainda colocar remuneração? Claro que a pessoa que receberá a ficha, lerá a "profissão" com certo desdém.

Existe um dia para a dona de casa. Descobri agora, no Google. É dia 31 de outubro. Dia das bruxas. Que comparação.

Após os testes escritos e práticos, as donas de casa ganhariam suas estrelas, diplomas, troféus, medalhas e certificados. Quanto mais pontos atingidos, maiores os prêmios. Porque dona de casa não espera remuneração. Espera apenas reconhecimento.

Trabalhei fora durante catorze anos. Um dia, parei. Para ser dona de casa. Não foi algo forçado, e foi por opção minha. Só que uma opção que me corrói.

Fico realmente com pena das pessoas que pensam que uma dona de casa nada faz na sua vida. Que dona de casa tem vida boa. Que dona de casa pode fazer o que bem quer a hora que bem entende.

Estou com as crianças em férias há quarenta dias. Minha filha mais velha está na casa da minha mãe já há alguns dias. Mas sobra o menor. Preciso me virar em dez, em cem, em mil, para arrumar atividade para ele. E já estou cansada, esgotada, contando os dias para que as aulas voltem, assim a escola se encarrega de tudo isso, mediante um pagamento de uma mensalidade simbólica. Sério. A mensalidade da escola vira simbólica se computarmos tudo o que gastamos nas férias com uma criança em casa. Sem contar que estou há trinta dias EXATOS sem fazer pés, mãos, depilação. Quem é que cuida da criança?

Fato é que a expectativa de vida hoje é muito maior que nos tempos dos nossos avós. Fato também, é que comecei minha vida muito cedo, trabalhando, casando, tendo filhos. Ainda tenho trinta e seis anos, e segundo pesquisas, salvo caso fortuito ou força maior, não cheguei sequer na metade. E nesta metade já fiz muita coisa.

Sei que tem gente que me acha louca, que me julga por eu viver buscando o que fazer, e por achar que levo vida de madame. Vida de madame leva a mulher que acorda cedo, sobe no salto, trabalha o dia inteiro, produz, leva o salário no final do mês e ainda é valorizada pelo marido. Vida de madame leva a mulher que tem uma boa babá para cuidar dos seus filhos, e mesmo que a babá não seja boa, para ela, não vai fazer diferença, pois ela é madame.

Não trocaria hoje a minha vida pela a de uma madame. Mas quero novos rumos para minha vida. Quero estudar mais, quero construir um novo caminho para viver a outra metade e um pouco mais. Quero ter mais ambição.

É triste quando acaba a nossa ambição material, pois ficamos sem objetivos para lutar. Então quero sonhar, sonhar e sonhar. Sonhar com este mundo enorme e cheio de coisas pra fazer. Sonhar que posso ir para a Lua, e que para tanto, basta estudar, trabalhar, juntar o dinheiro e comprar a passagem. Pois de Pasárgada, acho que cansei...

10 comentários:

  1. Oi Ursula,
    sei bem o que vc diz. No meu caso sou dona de casa, trabalho fora em media 10 hs por dia e ainda sou mae solteira. Tem dia q tudo que queria era q a Terra parasse (como diz Raulzito). Férias? Ai que meda dessa palavra. Aqui são exatamente 8 semanas nas férias de verão.. Aí eu canto pra subir. Mas enfim, "Isto também passa".
    Abraços

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  2. Amigaaaaaaaa!!

    Sério, eu estou realizada com as suas palavras!!! Obrigada mil vezes por traduzir um sentimento que também é meu!!
    Vc disse tudo o que eu sempre quis gritar para o mundo ouvir!! Obrigada mesmo!!!!!!
    E eu também não trocaria a minha vida de dona de casa por nada nesse mundo!
    Eu só acrescentaria que se nossos maridos vão bem no trabalho também é com a nossa ajuda, pois mantemos um lar decente, limpo, organizado, harmonioso entre outras coisas. Nós fazemos parte desse sucesso sim! E eu vejo que tudo isso é importante pra eles, que tem muito valor!
    Eu já sofri muito com a discriminação por ser dona de casa. Mas hoje bato no peito de orgulho!
    E viva nós!
    Beijos no seu coração!

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  3. Pandinha,
    Eu sempre dizia que não seria dona de casa, que sempre ia trabalhar.
    Quando meu pai faleceu eu arrumei um emprego para não surtar, mas ai veio o casamento e parei.
    Depois do casamento minha mãe resolveu mudar de casa, moravamos com ela. Com ela se foi toda a mordomia, das 2 empregadas, cozinheira, roupa lavada.
    Aliás, até a máquina de lavar roupa ela levou, é claro.
    Fui pro tanque até a minha máquina chegar.
    Eu tinha uma vida boa, dondoquinha, não arrumava nem a cama.
    Mas a vida me fez crescer e hoje temos a Nina.
    Não me importo de cuidar dela, da casa e marido. Aliás, faço porque gosto de cuidar deles, do que é meu.
    Hoje a empregada vem 2x na semana e cuida da roupa, o que já é uma mão na roda.

    Tem dias que trabalho muito mais que o marido...rs

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  4. Meninas, infelizmente a cabeça tacanha e retrógrada de algumas pessoas faz com que a profissão louvadissima de dona de casa seja rechaçada!

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  5. Pois eu trabalho todos os dias na rua e tb sou dono de casa. Minha mulher eh bagunceira, mas acho que nao tenho nem metade da sua dor de cabeca pois nao tenho filhos..... ;)

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  6. Vantagem tripla MV. Alem de vc nao ter filhos, nao é casado com homem!

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  7. Essa é a dura realidade. Eu não sou boa dona de casa... e porque não fui treinada para isso, não gosto, não quero... e trabalho fora pra pagar a moça-que-trabalha-aqui-em-casa-3-vezes-por-semana.
    Além disso, sou DDA, o que significa bagunceira de nascença. Aí lascou.

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  8. Ursula como sempre mais um belíssimo texto seu, como já disse no blog do Ernani, deve ser algo genético, pois vocês tem um maneira tão especial de escrever, um dom, que só treino e estudo seriam insuficientes para desenvolver, mas indo a sua postagem, adorei o texto todo, mas as partes que mais me agradaram foram as de que você disse que muitos te julgam por louca, por sempre estar procurando o que fazer, sou do mesmo tipo, pois como diz o dito popular, mente vazia oficina do ..., e de se perder a ambição, pra mim pessoas que deixam se sonhar, de querer mais, melhorar, se aperfeiçoar não estão vivendo e sim vegetando, mas esse querer nos frustra um pouco, ou muito dependendo do tamanho do sonho, da vontade, pois nem tudo conseguimos, mas a vontade de lutar e buscar sempre fala mais alto, e nos ensina pois quem nunca caiu, nunca aprenderá a se levantar.
    E outra coisa eu também sou dono de casa, pois eu e minha esposa trabalhamos fora e dividimos o serviço de cada, e por mais que se faça é o tipo de coisa que nunca se vê acabado, sempre ha o que fazer, muito por minha culpa que sou um bagunceiro de primeira, limpo mas também sujo, coisas de doido mesmo, um grande abraço.

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  9. Amiga... seu texto, novamente muito bem escrito e descrito me encanta, mas também me deixa no "limbo" na sua descrição de madame. Não acho que seja madame, apesar de acordar cedo, subir no salto, trabalhar o dia inteiro, produzir, aguentar as alternancias de humor do chefe e levar o salário no final do mês, além do que, nem sempre se é devidamente valorizada pelo marido. Nem todos os meus desejos são realizados, nem todas as minhas vontades podem ser satisfeitas, nem sempre querer é poder. Talvez esteja aprendendo a viver no meio termo, e me conformando com o ônus das duas categorias. Bj

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  10. Belzinha, a vida é dura, mais que rapadura, e não é doce que nem o doce...a vida de dona de casa espanta no começo...e no fim tb, pq nunca vei o salário... Mas somos flexíveis e nos adaptamos à vida!

    Fernando, obrigada pelos elogios. E vamos a luta, sempre, pois só através dela que obtemos as vitórias.

    Mi, o meio de campo é o pior lugar...pq dar conta de 2 turnos é coisa pra Super Mulher. Remuneração dupla. JÁ!

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