terça-feira, 5 de outubro de 2010

Momento reflexão

O texto abaixo é de um jornalista chamado Ernani Lemos. Eu o chamo simplesmente de irmão, já que nascemos pela mesma barriga. O título: "A tecla essencial". Serve para refletir um pouco mais sobre este país chamado Brasil!

"O assunto de hoje é leite. Aqui na Irlanda o leite é entregue nas portas das lojas durante a madrugada e fica lá, intacto, até alguém abrir o estabelecimento e recolher o produto. O mesmo acontece com o jornal, a manteiga e o pão caseiro. Ou seja, todas os dias o café da manhã fica na rua, completo e tentador, com os cadernos de esporte e economia inclusos, mas não há quem roube. E não é que não existam pessoas pobres ou desonestas - elas existem em qualquer lugar - é que o povo, incluindo os ladrões, parecem ter respeito por alguns valores básicos (ou pavor de punições severas). Tanto aqui na ilha quanto na maior parte dos países que visitei, ninguém tem medo de sair de casa vestindo roupas de marcas famosas ou usando modernos aparelhos eletrônicos. Os produtos são acessíveis para a maior parte da população e, consequentemente, pouco atraentes para os bandidos. Ninguém está interessado em roubar um par de tênis ou um celular, seja ele produzido em Nova York ou em Beijing. Uma pena não ser assim no lugar em que nasci. Depois de quase três anos morando do lado de cá do Atlântico, criei um mito de violência sobre o Brasil. Em outras palavras, comecei a ter medo de casa. O curioso é que, dos 26 anos em que morei em São Paulo, só fui roubado duas vezes. A segunda foi em 2006, enquanto o U2 tocava no Morumbi e eu trabalhava na tv perto do estádio. Algum vagabundo entrou no meu carro e levou o som. Já a primeira vez foi uns 15 anos antes. Eu brincava com os amigos numa balança de árvore e um grupo de garotos mais velhos e mais fortes apareceu para estragar a festa. Eles nos expulsaram do brinquedo, roubaram nossos bonés e ainda nos deram uma surra de havaianas (na época em que as sandálias eram brancas com a sola azul e usadas apenas por gente bem pobre). Acontece que eu mesmo era pobre na época (ainda mais do que hoje), o que torna o fato um tanto bizarro. Os maloqueiros, como chamávamos os meninos da favela, não precisavam daqueles bonés e nem da balança só para eles. Mas estamos falando de pessoas que não tiveram sequer uma casa com paredes de concreto ou um uniforme novo para ir à escola, então como é que poderíamos exigir que eles tivessem alguma noção sobre direito e justiça? Afinal, mesmo quem tem um lar razoável na infância é inclinado à violência, seja ela qual for. Essa semana vi no notíciário que, pela primeira vez na história da Irlanda, um homem foi morto numa briga de trânsito. O sujeito saiu do carro para argumentar com outro motorista, trocou umas porradas e voltou para casa. No dia seguinte sentiu tontura, foi para o hospital e lá morreu. É claro que para quem vem do Brasil - onde o jornal, quando espremido, sangra - impressiona saber que existe um país onde nunca antes alguém morreu devido a uma briga desse tipo. Mais impressionante ainda é saber que não houve sequer um tiro. Mas o fato relevante aqui é que as pessoas fazem coisas estúpidas em qualquer continente, em maior ou menor grau, com mais ou menos frequência e a única diferença está nos motivos que levam a tais atos. Nessa ilha bonita onde eu moro, as ruas já foram tingidas de vermelho sangue durante muitas disputas e mortes em levantes e guerras. Mas foram conflitos de fundo ideológico - algumas vezes, é verdade, mascarados pelo perigoso véu da religião -, mas essencialmente foram lutas por liberdade, pela independência do país e do povo. Por isso hoje as pessoas se respeitam e, embora haja motoristas estressados, ladrões de banco e políticos corruptos, poucos se prestam à pequenez de roubar uma garrafa de leite da porta do comerciante que acorda cedo para trabalhar. Já no nosso Brasil, que nunca precisou ir à luta para ter liberdade, não há quem se sinta livre o suficiente para deixar o leite na rua por 5 minutos que seja. E isso nem é o pior. O que me entristece não é saber que, se houver a chance, alguém vai roubar o pão e o jornal na porta da lojinha ou o ipod da mão do pedestre. Triste mesmo é ter a certeza de que vão furtar o leite de tantas crianças que passam fome e que vão roubar todas as oportunidades de outras que ainda nem nasceram. E quem vai roubar não é o moleque favelado e nem o viciado em crack. Quem vai roubar - e vai roubar mesmo - é o sujeito boa pinta que acabou de ganhar voto da própria vítima. Não é exatamente o palhaço, a mulher fruta ou o cantor brega - embora eles também possam vir a fazê-lo -. mas o sujeito careca, a mulher carrancuda, o velho acadêmico ou o sindicalista barbudo. As pessoas, julguem-se esclarecidas ou não, parecem não entender algo óbvio sobre política. Não se trata da continuação de um governo corrupto ou da volta de outro tão corrupto quanto esse. Está tudo errado desde a raíz e provavelmente qualquer um que entrar será corrompido e corromperá mais. Há de existir uma forma de consertar tudo isso. Infelizmente, sou tão burro quanto aqueles acusados de analfabetismo (como se isso fosse crime num país que não ensina) e não tenho a solução. Mas tenho o problema - e enxergá-lo é o que posso oferecer agora. Fiquei triste ao ver amigos comemorando a ida da eleição para o segundo turno, como se isso fosse uma vitória. Não é. Também não seria se tivesse acabado tudo no dia 3 de outubro e tampouco será vitória no final, seja qual for o resultado no dia 31 -  por acaso (?) Dia das Bruxas. A vitória de um candidato ou de outro é o triunfo individual de um grupo pequeno. Algumas pessoas, alguns empresários e alguns segmentos serão favorecidos e, para sustentar esse favorecimento, os outros cidadãos serão enganados, explorados e ignorados por mais 4 anos. E depois mais 4 e mais 4... E não importa de que lado você está - dos favorecidos ou dos otários - no fim ninguém ganha. Porque enquanto não for bom pra todo mundo, não será bom de verdade pra ninguém. O dinheiro que entrar para o rico terá de pagar vidro blindado, segurança particular e cercas elétricas - que não protegem o mundo da gente, mas a gente do mundo. Quem tem dinheiro acaba vivendo numa prisão privada onde não será violentado nem obrigado a comer uma comida horrível, mas viverá sob o medo de que a pessoa do lado de fora da cerca, a que mal tem uma gororoba nojenta para comer, vai cometer um terrível ato de violência contra sua família assim que tiver a oportunidade. E então a culpa será de quem? Do Governo? Da Oposição? Tanto faz. Quando a violência acontece, não importa em quem você votou ou o que o seu candidato fez pelo país. Seja você democrata, republicano, de direita ou de esquerda, quando o homem mau chegar, faminto de leite e sedento por vingança, não vai ter CANCELA, CONFIRMA ou BRANCO. O único botão disponível nesse momento, será aquele que você apertou muito tempo atrás, quando deixou de se preocupar com o futuro de todo mundo e só pensou em vc mesmo: a tecla FODA-SE!"

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