sexta-feira, 14 de maio de 2010

As minhas lembranças

Há dias venho pensando o que vou escrever no dia em que completará mais um ano da morte do meu pai. Eis que vem meu irmão hoje e antecipa 24 horas do acontecimento. Tudo bem, homem é assim mesmo. Tudo bem, eu tenho uma memória de elefante, principalmente no que tange às datas, e não posso crucificar meu irmão. Ficaria órfã duas vezes. A inspiração veio na carona do que ele escreveu. Para mim, sem sombra de dúvidas, também foi o dia mais triste da minha vida. Assim como meu irmão, também quis sumir da humanidade, desejei ir para um lugar onde ninguém falasse de Deus. Que Deus é este que leva o pai de alguém? Também como meu irmão, tive apoio de muita gente e como foi bom aquele carinho, que trocaria pela chance de ao menos um adeus ao meu pai.
No sábado, meu irmão fez aniversário e estava trabalhando na grande missa do Papa. O domingo, dia 13 de maio de 2007, foi um dia muito especial. Passamos uma semana fazendo contas, planejando, calculando e decidindo se daríamos um grande passo ou não e optamos pelo risco: marido e eu assinamos o contrato da contra do nosso Solar. Falava com meu pai aos domingos, normalmente pela manhã. Aquele domingo combinei de ligar só ao fim do dia. Ele estava procurando uma chácara com piscina, íamos passar as férias de julho em Passos, família toda reunida, e nesta viagem ele conheceria o meu bebê. Papai pediu-me que ligasse até 18 horas, pois depois daquele horário ele estaria na missa com a noiva. O contrato demorou para ser assinado, pois estávamos comprando uma unidade no condomínio e optamos por outra, o que acarretou na espera para refazer a papelada. Chegamos em casa quase oito da noite. Deixei para ligar na segunda-feira. Tinha que avisar meu pai que, devido a dívida assumida, não daria mais para passarmos tanto tempo juntos, mas talvez faríamos ou receberíamos uma "visita de médico". Acordei atrasada para a faculdade na segunda-feira, dia 14. Deixei para ligar na terça. E na terça, optei por ligar no final de semana. Claro que até hoje a culpa me assola, pois o fim de semana não existiu. Naquela terça-feira, 15 de maio de 2007, meu irmão chegou antes das oito da noite com a notícia que ninguém espera receber.
Imaginava outro fim para meu pai. Órfão de mãe aos 14 anos, filho de um pai omisso, foi criado pela vida. Aos 18, eu cheguei e a vida fez com que ele trabalhasse muito. O único tempo que sobrava para ele, foi gasto com leitura, leitura e leitura. Mesmo sem estudos, a vida fez dele um homem muito culto, que tinha assunto para qualquer roda de pessoas.
Meu pai deixou boas recordações na minha vida. É interessante ver, porém, que antes de ele partir, eu lembrava das coisas as quais me entristeceram, que foram muito poucas, mas sumiram junto com ele. Cresci com muito amor paterno; sei que apesar do sonho do meu pai de ter um filho homem, e de todo o amor e carinho que ele sempre cercou minha irmã, eu fui a filha preferida. Como minha mãe sempre foi muito dura comigo, tinha meu pai em minha defesa, que sempre fez por mim tudo que estivesse ao seu alcance. Comprou todos os sorvetes na padaria, deixou com que eu comprasse sonho todos os dias antes de ir para a escola (escondido da minha mãe), me dava dinheiro para ir até Santana comprar discos do Nelson Rodrigues e do Pena Branca e Xavantinho e me dava todo o troco, que normalmente era mais que o preço da mercadoria. Foi meu pai quem me ensinou que era importante sermos cultos. Disse-me que era muito bom ler Almanaque Abril, já que não podíamos ter uma boa enciclopédia. Por muitos anos, comprava o almanaque e deixava lá, a minha vista, para o caso de eu ter o interesse despertado. Foi meu pai que me disse uma das coisas mais importantes que já ouvi de alguém, quando participei a ele, aos 18 anos completados naquela semana, que me casaria dentro de três meses: "filhota, você está cometendo o maior erro da sua vida, mas a vida é feita de erros. Sei que este casamento não vai dar certo, pois este mocorongo não é homem para você casar. Mas quando tudo acabar, eu continuarei sendo seu pai e estarei ao seu lado para o que você precisar, pois só o que me importa é vê-la feliz, mesmo sabendo que haverá dor lá na frente". Preciso comentar o desfecho?
Há três semanas estou assistindo a novela das seis, "Escrito nas Estrelas", da Rede Globo. A novela trata de espiritualidade e há cenas fortes quando o ente que já partiu retorna em pensamento ou em sonhos para as pessoas. Quando meu pai foi embora, pedia dia e noite para que ele aparecesse para mim para dizer se existe mesmo vida depois daqui e para me dizer se estava tudo bem. Fui muito insistente, devido ao meu inconformismo com a partida de alguém, tão repentinamente, aos 51 anos de idade.
Meus pais trabalhavam e fui criada por meus avós maternos até os sete anos de idade. Minha mãe me buscava às sextas-feiras, ao final do dia, ou aos sábados, pela manhã. Passávamos o final de semana juntos e uma das imagens mais fortes que tenho da infância foi quando meus pais moraram na avenida 9 de Julho, bem ao lado do antigo supermercado Eldorado, hoje Carrefour Pamplona. Eu tinha um triciclo, chamado de Bambolão, que andávamos por horas no Parque Trianon. Um dia, após o passeio, entramos no Eldorado e meu pai me comprou a "Laranjinha Amiga", uma árvore de plástico que servia para colocar suco dentro e pegar o suco pela torneirinha. Lembro tão bem da minha imagem saindo do supermercado pela avenida, tentando equilibrar o presente no meu triciclo.
Eis que alguns meses após a despedida nesta vida, meu pai veio me visitar no sonho. O sonho mais real que já vivi. O telefone tocava e eu atendia. Imagina só aquelas cenas de filme ou de novela, cuja tela se divide em dois. De um lado estava eu, gritando desesperada. Do outro, meu pai. O lado dele era exatamente na avenida 9 de Julho, em frente à casa da infância, que já não existe mais. Eu chorava e pedia: "paizinho, me fala onde você está, por favor, me dá o endereço que vou até aí". Ele tentava me acalmar: "filha, pode ficar tranquila, o papai está bem e você ainda não pode vir aonde eu estou. Ainda não".
Foi nosso último telefonema.

12 comentários:

  1. Quanta emoçao nos dois textos! Mas como o seu pai mesmo disse, ele esta bem e não esta na sua hora de visita-lo.

    Espero que os anos confortem a saudade....

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  2. Realmente, muito emotivo.
    Mi, que os anos confortem a saudade?
    De onde tirou isso?
    Uau! Espetacular!
    Acho que é a única coisa a se falar.
    Helinho

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  3. Nossa amiga, chorei aqui.
    Q post lindo, q coisa linda!
    Vou ler o post do seu irmão claro....mas pude notar q enquanto vc escrevia, vc se emocionava junto.
    O q posso falar?
    Q seu pai esta num lugar melhor e tal? isso é cliche, mas é real, e vc teve a certeza pelo seu sonho.
    Eu sei ou faço ideia do valor q seu pai tinha na sua vida. E faço ideia tb da dor de perder um ser assim....
    Mas ele olha por vcs, o tempo todo.

    Bjos

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  4. VEMCHA,

    Vcs falam com tanto carinho do seu pai que acho que a melhor coisa que ele deixou pra vcs foram as lembranças de todos os bons momentos que vcs passaram.

    Não foi à toa que ele apareceu pra vc pra dizer que está bem. Tenho certeza que está!

    Beijão, Ju

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  5. Mi, o tempo é o melhor remédio e por mais que possa parecer clichê, é fato!

    Helinho, que legal, meu jornalista da Band favorito no meu humilde bloguinho! E no dia do seu aniver! Obrigada pelo carinho.

    Than, chorei qd li seu comentário, pq claro que me emocionei qd escrevi. E por conta do putinho do meu irmão, chorei o dia inteiro, já que minha programação era um post alegre e engraçado!

    VEMCHA, se vc tivesse conhecido meu pai, ele ia te abraçar, gritar aos 4 cantos que tinha uma norinha japonesinha que é a coisa mais linda que ele já viu no mundo, ia te encher de carinho e chorar com vc ao ver o primeiro japonês Lemos chegando da sua barriga. Mas ele nos assiste de algum lugar!

    Beijos nos corações de todo mundo!

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  6. Pra mim vc conseguiu sim fazer um post engraçado. Só a parte do "este MOCORONGO não é homem para vc casar" já valeu meu dia.... Love u

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  7. MV, imagina o papai no Céu falando: "olha o pomba"...

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  8. Torimha, a vida é a somatória dos momentos intensos que vivemos e sempre q vc fala do seu pai são as boas lembranças q vêm. Isto mostra o qto vcs são conectados.
    Do seu pai, vc sabe q desde q o conheci gostei do jeitão dele, sábio em sua simplicidade. Realmente sinto falta de não poder ter tido mais contato com ele...
    Te amo Torinha

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  9. Toruboi, meu pai tinha uma vantagem, não usava as camisetas da minha mãe...kkkkk... qd a gente for pro Céu, nos encontraremos todos. Te amo TOruboi

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  10. Querida Úrsula,

    Meu emocionei com o seu texto!
    Seu pai, lá do céu, tem muito orgulho de vc e do tal de Lemos. Vcs são pessoas maravilhosas!
    Imagino que não seja fácil perder o pai, uma pessoa tão querida como o seu pai, mas ele está olhando por vcs. E com certeza fica feliz por vcs relembrarem das coisas boas que passaram juntos.

    beijos

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  11. Ká, sabe que nestes últimos dias refleti muito sobre várias coisas e dentre elas, descobri que meu irmão é imagem e semelhança do meu pai, neste quesito carisma. Meu pai era uma pessoa muito amada e tenho certeza que de algum lugar ele dá várias risadas com a trupe que deixou por aqui! Um beijo grandão

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  12. Oi prima,

    É a segunda vez que entro no seu blog. Desculpe a minha falta de jeito para a tecnologia da comunicação. Sou assim, obsoleta. Não conheço as regras, nem tão pouco as inúmeras possibilidades de visualizar os conteúdos ou de "postar" as ideias e sobretudo as emoções.
    Embora esteja neste momento com lágrimas nos olhos, que atrapalham-me a visão sinto-me feliz por sentir estar mais perto de ti. De mim e de nós.
    Obrigada pela partilha.

    Também tenho muitas boas lembranças
    do tio Nani, muitas mesmo.

    Acho que entre muitas, a recordação que mais prenche-me o coração, é que o seu pai sempre foi muito carinhoso e nunca teve medo ou receio de expressar o seu imenso amor.
    Para mim, esta é a lição de vida que ele sempre transmitiu-me. Simplesmente a dizer: Eu te amo.

    Ti amo Prima

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