sexta-feira, 23 de abril de 2010

Vergonha, sim!

Por vários dias, acordo e vou dormir com vergonha de ser brasileira. Não falo isto com orgulho, tampouco com desdém. É apenas uma constatação. Há muito que estou cansada do povo passivo com o qual divido minha nacionalidade. E não é passivista, é passivo mesmo, aquele que recebe as ações que o deixa insatisfeito, mas nada faz para mudar. Para quê? Tentar mudar o que está errado é uma luta que muitas vezes se luta sozinho e para se vencer uma batalha é preciso que haja exército, do contrário, é uma "competição" absurdamente desigual.
Em SP, cidade onde nasci e morei a maior parte da minha vida, pergunta-se quase todas as vezes em que se faz uma compra: "nota fiscal paulista?". No Chile, país sério e que desenvolveu-se absurdamente a frente do Brasil, nota fiscal é obrigatória até para se comprar uma bala. Isso mesmo, UMA ÚNICA BALA. Os produtos são muito mais baratos que aqui, já que os impostos são bilaterais. O jogo de sonegação por aqui é absurdo, assim como tantas outras coisas.
Diariamente, levo meus filhos à escola, seis e meia da manhã. Quando volto para casa, faço uma oração agradecendo a Deus por ter sobrevivido mais um dia. O que acontece no trânsito também é absurdo. Ninguém respeita nada e nem ninguém. Não há fiscalização para se cumprir leis de trânsito. Qualquer "mané" pode ter habilitação e colocar a vida dos outros em perigo. Ontem, um motorista de ônibus entrou dentro de um carro, matando mãe e filha. Foi levado à delegacia e pagou fiança de 1200 dinheiros brasileiros. Voltou para casa tranquilo. É isto que valeu a vida das duas mulheres: seiscentos dinheiros brasileiros a de cada uma. Muitas chegam a valer menos. Ainda ontem, vi na televisão sobre o rapaz que foi preso ao ser parado em uma blitz de moto e morto pela nossa polícia após a soltura. Essa história é velha: a polícia que deveria nos proteger, corrompe, mata, rouba. Infelizmente é a minoria.
Como posso dizer que tenho orgulho de ser brasileira, em um país cujo curso de formação de professores leva três anos, não alfabetiza as pessoas que entraram na instituição de ensino sem saber escrever, tem média cinco para aprovação, mas 4,75 já está valendo? Em um país cujo governo não tem a intenção de educar, pois o indivíduo alienado interfere menos na roubalheira? Em um país cujas escolas particulares se alastram em cada esquina e cobram somas absurdas, com professoras que falam: "menas, pra mim fazer, meio-dia e meio, duzentas gramas de mortandela"? Professoras que, muitas vezes, foram aquelas que usaram todo o seu limite de faltas na faculdade, forjaram trabalhos escolares, colaram nas provas e "compraram" seus diplomas. Sim, pois não vejo nenhuma diferença neste tipo de aluno ou naquele que vai descaradamente na Praça da Sé e paga por um diploma falso. Acho que este é ainda mais honesto que aquele. Ou não.
A coisa não precisa ser tão macro, posso falar simplesmente do condomínio em que moro. No próximo dia 7, completa cinco meses que estamos aqui. Quando chegamos, encontramos uma administração que veio junto no pacote. Uma empresa que cobra o dobro das outras da região, para fazer 1/4 do trabalho. Se é que faz. Somos 248 apartamentos e a grande maioria se mostra MUITO insatisfeita. E o que as pessoas fazem para mudar? Escutam tudo de bico calado, em meio a uma assembléia, quando é hora de botar a boca no trombone e pedir mudanças. Para que se expôr? É isso, as pessoas têm medo do julgamento, da exposição, do que os outros vão achar. Têm medo de dizer aquilo que todos gostariam de dizer. Melhor gritar bem baixinho com o vizinho do lado, e torcer para que ele não espalhe para os outros a sua insatisfação, pois tais atitudes podem não ser bem vistas.
Ontem conversei por horas com um americano, dono da franquia onde meus filhos estudam inglês. Questionei o porquê de ele estar há 29 anos no Brasil e ele me explicou: o amor. Se apaixonou por uma brasileira que não abriu mão de estar aqui e aqui ele foi ficando. Contei a ele que vou morar no Canadá, mas que vislumbramos agora uma passagem pela Holanda. Ele começou a me falar sobre o Canadá, o que só fez com que meus olhos brilhassem ainda mais.
Tenho recebido muitas mensagens de pessoas queridas, dizendo-se tristes pela nossa partida. Vale esclarecer: somos cidadãos do mundo, eu sempre fui, sempre acreditei que o mundo é grande demais para nos limitarmos a passar a vida inteira plantados em um só lugar. Nasci humana, e não árvore, portanto, não preciso de raízes. Casei-me, felizmente, com um geminiano que assim como eu, pertence ao mundo. Assim estamos criando nossos filhos. Temos que tentar, arriscar, conhecer. Não adianta nada sentar a bunda na cadeira e reclamar que tudo está errado. Não posso mudar uma nação de quase duzentos milhões de habitantes. Mas posso mudar minha família, de apenas quatro, para outra nação que satisfaça meus ideais de justiça, de educação, de cidadã.

2 comentários:

  1. Eu gosto do Brasil e do mundo, mas tenho vergonha de 95% das pessoas que moram nesse planeta. A diferença entre os pilantras nos diversos países é que alguns aprenderam a roubar e a matar de maneira mais "civilizada e discreta", embora não em menor quantidade. Mas, venha pro hemisfério norte. A vida aqui tá ruim não...

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  2. É isso aí MV, vamos ficar todos juntos e fazer os 5% virarem 6, que tal?

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