sábado, 27 de março de 2010

Caso Isabella - meu desabafo final

Freud já teorizou há tantos anos que os culpados são os pais. A máxima é forte, porém verdadeira. Uma família recebe um filho em seu seio e esquece-se da sua maior missão divina: educá-lo para o mundo. Receber um filho é uma missão e não um presente. Quando não se cumpre todos os requisitos que esta missão possui, distorce-se o caminho, prejudicando e levando danos para tantas outras famílias.
Foi isso que aconteceu com as três famílias envolvidas diretamente na vida (e na morte) da pequena Isabella. De um lado a família de Ana Oliveira, estruturada, equilibrada, sólida, com valores éticos e morais, rodeada de princípios. A adolescente Ana engravida do então namorado Alexandre Nardoni, rapaz paparicado, mimado, oriundo de uma família com posses materiais e que não poupa para dar a ele tudo que ele deseja e muito além do que ele necessita. Materialmente. Faltou muita coisa. Faltou mostrar a ele como se cresce, como se transforma em homem; e que para construir uma família é preciso ser muito homem. É preciso saber sustentar uma família, e não dar o sustento alimentício - que nem disto ele era capaz; é preciso alicerçar sua família e ele não sabia o que era isto. Surge a terceira família, a de Anna Jatobá, desestruturada, desequilibrada, com passagens pela polícia por extelionato, com um histórico de pai e filha como frequentadores de delegacias para lavrar boletins de ocorrência caprichosos, um denunciando o outro.
A família perdeu o valor há muito tempo. Alexandre, o garanhão, acaba traindo a mãe de sua filha com a menininha mimada. O elemento traição foi novidade para minha pessoa. Seu romance com Jatobá começou em novembro de um ano, mas o fim da relação com Oliveira terminou apenas em março do ano seguinte, quando a pequena Isa tinha onze meses. O motivo do fim? Traição. O menino mimado se juntou à menina mimada, de família insana e desequilibrada. Foi a atração de dois pólos negativos. O ciúme doentio da nova namorada levou-a a uma gravidez e os dois passaram a brincar de casinha. Com o nascimento de mais dois inocentes, Pietro e Cauã, o casal viveu a relação de idas e vindas, de volta para casa de seus pais a cada briga, a cada discussão. Pais estes que eram chamados pelos próprios vizinhos para apartar as escandalosas brigas. Como ficam as crianças em uma relação assim? Bem, as crianças podem ser lançadas pela janela quando um dos dois estiver de saco cheio.
Assim foi-se embora a pequena e doce Isa. A mídia divulga que justiça foi feita. No Brasil? Jamais. Os cruéis e frios assassinos foram condenados. Cumprirão 1/3 de suas penas em sistema prisional, sustentados por nós. Voltarão muito em breve para, quiçá, dar cabo às duas crianças que restaram. Sabe-se lá. Quando Jabotá sair da prisão, seus filhos terão menos de 15 anos. Ela, menos de 40. Ele ainda será o moleque mimado, que voltará para a casa de seus pais, ou para um novo apartamento que ganhará dos mesmos. Terá carro, casa, comida, roupa lavada, passada e colinho da mamãe. Caso se canse da companheira de crime, encontrará outras menininhas. E a Carol? Esta, a segunda vítima do assassinato sórdido, viverá todos os anos da sua vida relembrando seu anjinho que se foi, sofrendo a cada aniversário de nascimento e de morte da sua filha, sempre imaginando como estaria sua menina se ainda fosse viva. Ela pode perdoar um dia, mas a dor é eterna.
Já vimos este filme antes. Aconteceu assim quando Guilherme de Pádua e sua então esposa Paula Thomáz assassinaram cruelmente, com dezoito tesouradas, a atriz Daniela Perez. O casal se separou, o filho foi criado pelos avós, ambos passaram alguns anos vivendo aprisionados às custas do Estado - ou às nossas - conseguiram o indulto e voltaram a ser réus primários. Ficha limpa para ambos. Vivem suas vidas tranquilamente em algum lugar por aí, enquanto a mãe da Daniela se engajou em todas as campanhas nas quais pais perdem cruelmente seus filhos. Esteve com os pais de Ives apenas alguns anos depois. Lutou com a Cleide, mãe da Gabriela, antes da Cleide ser levada para junto da filha, esteve presente na luta pelo pequeno João Hélio, tornou-se grande amiga da família Oliveira. Isto é fuga. É dor que não se consola.
Pelas leis da doutrina espírita, todas as vítimas - as que foram e as que ficaram - possuem ligações anteriores e estão aqui para resolver o que ficou sem solução em outras vidas. Busco evoluir para entender esta relação de causa e efeito, mas não consigo. Não aceito pagar por algo que não sei que fiz. Prefiro que me diga o que devo e me esforço para acertar as contas. Em mim, resta sempre a pergunta: por quê?
Durante esta última semana, estive atenta, minuto a minuto. Conectei-me aos portais Terra, Globo, Estadão e UOL. Passei 24hs de cada dia ligada ao Twitter, acompanhando as meninas do Caso Isabella, ao prof. dr. Luiz Flávio Gomez e a Glória Perez. De tudo que li, aprendi que o individualismo das pessoas é cruel e fere. A vereadora paulistana Soninha Francine declarou no Twiter que a comoção pública e o desejo de acompanhar pessoalmente o caso é falta de terapia. Graças a Deus que ela tem seus três filhos juntos de si. Pessoas se envolvem por humanismo, por inconformismo, por clamar pela justiça, por imaginar que amanhã podem ser elas sentadas no banco de acusação, precisando da solidariedade do povo.
Eu, particularmente, me envolvo pelo fato de ter a minha Isa. Que poderia também ter sido um dia lançada aos tubarões, que também foi vítima de um pai biológico imaturo e irresponsável, com uma namorada ciumenta e passional, com uma família que acobertava qualquer ato de imaturidade ou infantilidade que o filho moleque cometia. Deus me deu a chance de recomeçar e ter a minha Isa sempre junto de mim. Ciúme e passionalidade matam. Estes elementos levaram para sempre a pequena Isa do seio da sua família que tanto a amava, e que para sempre a amará.
Ninguém conhece a alma de ninguém. Tampouco nos auto-conhecemos. É muito difícil julgar pessoas. Temos que buscar o perdão e seguir nossos caminhos, trilhando-os da melhor maneira possível, alicerçando nossas famílias e criando nossos filhos para serem cidadãos de bem no amanhã que se aproxima.
Encerro este desabafo dizendo que me orgulho de saber que nosso país conta com um jurista como o dr. Cembranelli. Faria todos os anos de Direito novamente se tivesse certeza que o teria como professor, não importa de que disciplina. Só quem acompanhou o caso Isabella e todo o julgamento é capaz de entender a grandeza e o humanismo deste homem. Fica aqui os meus parabéns ao doutor e à todos os envolvidos nesta condenação. Que agora cada um siga seu caminho, buscando sua paz interior.

4 comentários:

  1. Lindas e sábias palavras!
    Tenho SIM uma opiniao q contradiz MUITA gente sobre o caso, mas isso nem vem ao caso, pq eu guardo pra mim pra não ser taxada como loka! rs
    Adorei tudo q vc escreveu. Inteligencia NATA!
    Por isso sou sua fã. É tão fácil ser....

    Bjooos

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  2. Pandinha não te conheço, mas suas palavras foram das mais profundas lidas até agora pela minha pessoa. A Than acima tem toda razão, também vou virar sua fã. Que Deus a ilumine e a sua Isa também.

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  3. Than... que carinhosas suas palavras amiga! Obrigada! Vc sabe o qt AMO ser sua fã... deixa eu ir ver o q vc escreveu...

    Anônima (já que vai virar minha fã), obrigada pela visita e pelas palavras!

    Beijos

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  4. O texto é tão bem escrito que eh digno de veicular em um grande canal. Parabéns pela articulação das palavras.

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