terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Infância, doce infância


Qual o gosto da infância? Infância é uma das coisas mais sinestésicas que existe na vida de um ser humano. Duvido que exista alguém que não sente cheiro de infância, não enxergue a infância em vários momentos da vida adulta, que não escute uma música que remeta diretamente aos bons momentos da doce infância, que não sinta a boca salivar ao se lembrar de uma comida amada quando criança.

Sempre fui um pouco cidadã do mundo. Nasci no Alto de Pinheiros. Na verdade, nasci no Hospital do Servidor Público Estadual, mas depois do hospital, fui levada para o Alto de Pinheiros. Como meus pais trabalhavam, sobrava para meus avôs maternos a feliz tarefa de cuidar de mim durante a semana. Assim, morava no Largo de Santa Cecília nestes dias e depois na Vila Madalena com meus pais aos finais de semana. Quando fiz sete anos, já tinha meus dois irmãos e minha mãe parou de trabalhar remuneradamente, para virar mãe integralmente. Assim, me mudei para a avenida Rebouças.

É péssimo morar na Rebouças. Ao menos na infância. O prédio em que morávamos já não existe tem alguns anos. Era um prédio simples, desses que não tem parquinho, piscina, jardim, porteiro. E, claro, sem espaço para o lazer infantil. Quando fiz nove anos, nos mudamos para o Alto do Mandaqui. Foi o meu divisor de águas. Conheci doces de bairro: maria mole, teta de nega, paçoca; lá na Rebouças não tinha um mercadinho que vendia essas coisas, tampouco tinha ouvido sequer falar em tubaína. Ah... que delícia que foi minha primeira tubaína e todas as outras que vieram. Meu pai passava no mercadinho e comprava picolé de bairro. Aqueles que na primeira chupada o suco acaba e sobra só o gelo. Nós amávamos. E falando no gelo, foi no Conjunto dos Bancários que também fui apresentada a outro manjar dos deuses infantis: GELINHO. Lá podíamos brincar na rua, andar descalços, jogar taco atrás do prédio, enfim, podíamos viver a infância.

O lugar hoje é muito diferente. Os prédios já não são livres, engaiolaram todos. As crianças não ouvem mais falar dos gelinhos. O tio que vendia quebra-queixo em sua velha Variant já não deve pertencer a este mundo. Nem o seu João, o baleiro da escola.

Queria muito que meus filhos tivessem tão boas lembranças de infância, lembranças da simplicidade que não existe mais. Em algum lugar ainda deve existir a velha e boa tubaína, mas onde? Então eu invento: coloco xarope de guaraná no guaraná e ele fica bem docinho. Chamo a mistura de tubaína. Levo as crianças para comer churros lá na Vila Mariana (quer maior sabor de infância do que churros com doce de leite?). Até aquele suquinho na embalagem plástica, que tem carrinho, espada, telefone (celular nos dias de hoje, pois até o suco se modernizou) eu já encontrei para eles. E claro, nunca deixar de brincar de amarelinha, de barra manteiga, de duro ou mole, de bafo. Afinal, a infância é a base de toda uma vida e por isso, precisa ser a melhor de todas as fases.

Um comentário:

  1. tubaína na garrafa de cerveja era demais. no futebol da molecada, quem perdia tinha que pagar tubaína para o outro time. saudade...

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