sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Papo de sala de aula


Eu e o Murillo temos uma teoria: em toda relação, há um interesse, não importa qual seja. Ninguém se relaciona com ninguém, simplesmente por prazer. Há sempre o tal interesse por trás.

Nossa amiga Andréa fica horrorizada. Ela ainda não é gente grande e vive no mundo do conto de fadas, portanto, acredita nas amizades puras, verdadeiras, sinceras, transparentes, honestas e fieis.

Não dizemos o contrário. Existe, sim, amizade com tudo isso. Eu tenho amigos. Poucos, não dá para encher uma mão. Ainda bem. Se passar disso, já acho que não é amigo. Pode-se dizer que todo mundo tem muitos colegas, mas amigo é aquele que ri o seu riso, que chora a sua dor, que sofre sua tristeza, que vibra com suas conquistas. Amigo é aquela pessoa que não tem inveja, que te aceita com seus milhões de defeitos e com suas mínimas qualidades. Não importa se tenha bigode de foca ou nariz de tamanduá.

Sei o porquê de nossa amiga Andréa ter se chocado. É triste ver que o mundo não é como sonhamos.

Nos diversos ambientes os quais vivemos, trabalho, escola, condomínio, escola dos filhos, a sociedade de uma maneira geral, sempre há alguém que se aproxima de outro por puro interesse. Já vivi isso na pele infinitas vezes. Fui o sujeito passivo, mas sei que, mesmo que negue e tenha sido inconsciente, também já fui por outras tantas vezes, o sujeito ativo do jogo de interesses. Não importa.

Para mim, porém, a única regra do nosso jogo chamado “Vida” deveria ser a transparência.

Eu e o Murillo somos amigos por interesse. Eu tenho interesse nas histórias que ele conta; acho que ele também deve ter pelas minhas. No primeiro ano, fiquei amiga dele quando ele saiu de um grupo de trabalho que estava se desmanchando na sala. Ele se aproximou de mim por interesse, já que eu havia acolhido a outros membros do mesmo grupo. Eu o acolhi por amor, sabe que nem um cachorrinho que pegamos na rua, levamos para casa, damos banho e passamos a amar? Foi assim. Sem contar que, naquela ocasião, ele tinha dezessete aninhos, idade para ser meu filho.

O tempo foi passando, fomos nos conhecendo e descobri que ele trabalhava em escola pública, melhor ainda, em contato direto com a Diretoria. Foi assim que, no segundo ano, decidi que seria amiga dele até o final do curso: ele assinaria todos os estágios para mim.

Com o tempo ainda caminhando, o Murillo descobriu sua dificuldade em entender as aulas técnicas de Língua Inglesa. E mesmo tendo várias pessoas “feras” em nossa sala, como professores de inglês, fui eu quem lhe estendeu as mãos e, mais uma vez, o acolhi para tentar lhe ensinar. Mas não fiz isso de graça. Apesar de já ter garantido a assinatura dos estágios, o Murillo é fera em Literatura Portuguesa, que não é o meu forte. Continuamos amigos.

Estamos no último ano da faculdade. Na verdade, daqui cinco semanas, daremos início às provas finais. E eu e o Murillo continuamos amigos. Neste ano, tenho interesse em que ele me ensine a matéria de Estrutura Básica do Ensino. Como ele já trabalha tem muitos anos em escola pública, entende toda a burocracia e acho muito mais fácil aprender com ele, do que com a professora, que se mata preparando suas aulas e faz o seu melhor pelos alunos. A troca de conhecimento entre mim e o Murillo, é o que Vigotsky chamou de Zona de Desenvolvimento Proximal.

O interesse dele por mim neste ano é muito grande; ano que vem, ele realizará o grande sonho da sua vida, que é morar fora do país. O passarinho de dezessete aninhos já virou um homenzinho de vinte. E como suas asas cresceram, voará para bem longe. E o que eu tenho que ver com o tal vôo? É que meu irmão e minha cunhadinha vivem há um ano e meio na terra que o Murillo, que eu carinhosamente digo que é “Murinaína, um vagabundo sem nenhum caráter”, viverá daqui quatro meses. Então, é importante que ele mantenha a amizade comigo, até que vire amigo do meu irmão.

No ano que vem, não precisarei mais que ninguém assine estágios para mim. O Murillo estará em um reino muito distante, e também não precisará mais de mim para fazer grupo de trabalho, para ensinar-lhe inglês, tampouco para intermediar o maior vôo da sua vida. Mas quero continuar sendo amiga dele. Pois se meu irmão e minha cunhadinha se mudarem para outro país, quem vai me mandar notícias daquela Ilha? Por parte dele, acho que também continuará sendo meu amigo, afinal, quando ele morrer de vontade de comer alguma coisa que só existe no Brasil, quem poderá fazer o contrabando?

Minha amizade com o Murillo é apenas uma amizade de interesses. O amor que temos um pelo outro, é algo que se pode desprezar e ignorar. Afinal, a vida é um jogo de interesses.

4 comentários:

  1. AHUAHUHAH

    TENHO MUITO INTERESSE NA SUA AMIZADE PRINCIPALMENTE!!!
    OBRIGADO POR ME ACOLHER COMO UM "CACHORRO VIRA LATAS" NA SUA VIDA...AHUAHAH

    ^^.

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  2. muito bom! concordo com a teoria da dupla. ainda existem alguns interesses que valem a pena no mundo. só não gostei de ser usado como moeda de troca. a não ser que o murillo traga uma garrafa de 51. aí sim a coisa começa a ficar interessante...

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  3. VEMCHA, nunca tinha pensado nisso. Também concordo que a vida é jogo de interesses.

    Eu tenho interesse em suas histórias, em suas experiências como mãe e em sua ajuda como tia heheh

    Ah, se estiver interessada em algo aqui da ilha, pode ficar feliz que já já chega alguma coisa pra vc!!

    Beijitos!!

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  4. Muris, sempre terei interesse em ouvir seus latidos!

    MV, pode pedir o que quiser, pq o Muris vai levar só as cuecas... até a filmadora nova (aquela MARAVILHOSA que te contei), ele vendeu... PARA MIM!

    VEMCHA, minha relação com vc vai além do interesse... tenho que adular vc pelo resto da vida, para q vc não largue nunca esse vira--latas que vc pegou na rua.

    LOVE TODOS

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