terça-feira, 29 de setembro de 2009

Qual é o rumo da educação no Brasil?

Estávamos na sala dos professores, hora do intervalo e o papo era sobre filhos, escolas e educação. Uma professora me perguntou, “qual o método de ensino na escola dos seus filhos?”. Respondi na lata: “é um método muito moderno, utilizado por todas as escolas que conheço: pague a mensalidade em dia. Se seu filho tiver capacidade, será alguém na vida. Se não tiver capacidade, nada poderemos fazer para mudar a realidade dele”. Todos os professores presentes riram.

A teoria de Piaget é maravilhosa: o aprendizado se dá de dentro para fora. Para cada faixa etária, que pode variar de criança para criança, há uma etapa cognitiva para ser desenvolvida. Vigotsky veio depois e inverteu a ordem dos fatores. O aprendizado se dá de fora para dentro. A criança aprende com o meio e através deste meio é que desenvolverá aquilo que tem dentro de si. Depois, passaram-se alguns anos e veio o Paulo Freire. O indivíduo aprende e o processo de aprendizado é acessível à todos, desde que usada a linguagem adequada ao meio em que aquele sujeito está inserido.

E na prática, o que temos? Vou exemplificar só pelo Ensino Fundamental I, que compreende crianças de 5 até 10 anos, do 1º até o 5º ano. Salas de aulas com o mínimo de 25 alunos (em boas escolas particulares). Um único professor para ensinar todas as disciplinas: Matemática, Língua Portuguesa, Ciências, História e Geografia. Nas escolas particulares, há as aulas extra-curriculares, como Música, Educação Física, Educação Artística, Expressão Corporal, Informática, Língua Inglesa, Língua Espanhola. A base, porém, está nas cinco primeiras disciplinas citadas. Este único professor tem turno duplo: ou trabalha pela manhã e pela tarde na mesma escola, ou, na pior das hipóteses, em duas escolas. Se ele der a sorte de ser uma perto da outra, ótimo, senão, serão mais alguns bons minutos diários perdidos no trânsito.

Além da jornada dupla e do trânsito, ainda tem muito trabalho a ser levado para casa. Não dá para coordenar 25 alunos, ensiná-los ao mesmo tempo cinco disciplinas diferentes, olhar todos os cadernos, os livros, as agendas, atender solicitações dos pais, agir de acordo com as normas da escola (que vão, normalmente, de acordo com a receita que aquele aluno gera).

No meu tempo (e isso me envelhece), até o final do extinto primário, tínhamos um único professor e aprendíamos apenas Português e Matemática. E o básico do básico, apenas para começar a entrar na complexidade dos assuntos no Ginásio. Hoje, o número de informações que são jogadas na cabeça de uma criança com menos de dez anos é absurdo. Tenho uma turma de quase trinta alunos, no 2º ano do Fundamental I. A idade varia: 7 ou 8 anos (para os atrasados). Eles mal foram alfabetizados. Os fonemas ainda são trocados e toda a dificuldade fonética da nossa língua ainda está longe de ser sanada em suas cabeças. Piaget explica isso, afinal, estão entre as fases pré-operatório e operatório concreta. E o que explica o excesso de informação que essas crianças não são capazes de assimilar?

Os pais acham lindo fazer propaganda sobre as escolas dos seus filhos; quanto mais atividades extras tiverem, melhor será a escola. Mas será que já pararam para pensar que a infância está sendo roubada a cada dia?

E quantas vezes não tenho ouvido as perguntas: “qual a função da escola?”; “qual a função ou o papel do professor?”; “qual a função ou o dever do aluno?”; “qual o papel da família?”.

São perguntas sem respostas. Há muita coisa errada e o buraco é muito mais embaixo. Os professores são mal pagos, as escolas cobram valores exorbitantes, os pais não educam seus filhos para respeitarem os professores, os professores são cobrados pela tríplice aliança: pais/filhos/donos das escolas. E o Governo, por onde anda?

O Governo anda por aí criando leis importantíssimas, como no caso do governo municipal de São Paulo, que criou a lei de inspeção veicular para automóveis fabricados a partir de 2003. Já que os outros não pagam mesmo licenciamento, multas ou irregularidades, vamos arrecadar de quem paga. E depois, devolvemos. Com muita burocracia, para aqueles decididos a enfrentar. O Governo também está preocupado com problemas de Honduras, de Cuba, de aviões fabricados na França, de quem serão os candidatos para continuar a roubalheira, ops, a governança.

É de interesse do Governo investir em educação? Claro que não. A partir do momento que o povo receber uma educação de qualidade, muita gente deixará de fazer parte do senso comum e utilizar do bom senso para levar a vida. E quando a ficha da população cair, através da educação, o único instrumento capaz de mudar a forma de pensar e de agir de uma nação, o Brasil não será mais terra de ninguém. Alguém sairá perdendo. E como quem não quer perder é quem está no comando da organização, melhor deixar tudo como está.

Como li outro dia na página virtual de uma amiga, é a campanha pela vida: “cada um cuida da sua”.

Úrsula Hummel – 35 anos – Mãe da Isabela, que completará 10 anos em novembro e do Leonardo, que completará 4 no mesmo mês – cidadã brasileira – professora de línguas Inglesa e Espanhola

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