quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O último domingo


O dia dos pais passou. Procurei não pensar no assunto, até porque havia muitos outros em meu cérebro. No sábado, levei as crianças a uma festa de aniversário. Já tinha 20 dias que só saíamos de casa para ir ao médico, à fisioterapia e ao laboratório (sem me esquecer da farmácia). A festa foi da filha de um casal de amigos de infância. Hoje já não são mais um casal, mas a filha continua sendo dos dois. Revi pessoas queridas, dei boas risadas, voltei para casa com as crianças ainda sem pensar no tal dia dos pais. A noite chegou e conversei com meu marido. Falei sobre a sensação estranha da morte. Tem vezes que fico pensando que eu nunca tive pai, que aquele homem que me criou foi uma alucinação que durou quase 33 anos e agora a alucinação acabou. É um sentimento estranho, algo que a psicologia explicaria como uma negação. Acordei no domingo. O presente que havia comprado para meu marido (e também para o meu sogro) pela internet não chegou (anotem aí a loja que JAMAIS entrega na data: http://www.brandsclub.com.br/). Meu marido levantou. As crianças abraçaram e beijaram o pai. O pequeno estava frustrado por não haver presentes. Não saímos para tomar café da manhã, não saímos para almoçar, não tivemos almoço especial. Uma hora, minha filha me perguntou por que eu estava triste. Não esperou a resposta e me abraçou. Fui para o banheiro e chorei. Que sensação esquisita. Não lembrava mais do meu pai. Não conseguia conceber a imagem dele no meu pensamento. Só queria pegar o telefone e dizer “Paizinho, feliz dia dos Pais”, mas ligar para onde, se não sei onde ele está, se ele realmente existiu, se tudo foi fruto da minha imaginação. Almoçamos, deitei e dormi um pouquinho. A sensação estranha não mudou. Conversei com Deus. Tive a impressão de que estou me esquecendo do meu pai. Tentei um conforto divino, que não veio. Resolvi continuar assistindo a segunda temporada de House. Houve um óbito em um episódio e o corpo foi levado para a higienização. Fiquei pensando novamente no meu pai. Quem será que o lavou, quem será que o vestiu? Eu e meus irmãos tivemos a notícia da sua morte já algumas horas depois do acontecido. Viajamos por cinco horas e chegamos faltando algumas horas para o sepultamento, mas horas que, para mim, pareceram dias. Meses. Anos. Foi infinito. Consegui me lembrar dele, mas não como eu gostaria. Apenas aquela imagem fúnebre. Não uma imagem feia, pois nunca tinha visto meu pai tão bonito em toda a minha vida. Tentei entender a minha covardia, o porquê da minha fuga nestes dois anos que se passaram, por que até hoje nunca procurei saber mais detalhes, como foi, por que foi, onde foi, com quem foi. Só sei que foi. E não há como voltar. Portanto, não há explicação que me conforte. Aquele domingo, enfim, acabou. Na segunda-feira, li vários blogs e as mais lindas homenagens de tantas outras filhas órfãs e inconformadas. Descobri que, mesmo sem meu pai, faço parte de uma tribo neste mundo. A tribo das fugitivas sofredoras solitárias.

4 comentários:

  1. Oi minha querida, não precisa se frustrar nessa busca pq o seu Pai (querido) ..o Paizão (poderoso) ...ou Paizinho (carinhoso) ..., não o Ernani homem, pessoa, mas o seu paizinho amado, querido, legal, divertido ou tantas outras coisas mais que vc conseguiu enxergar nele, está dentro de vc desde o momento que vc o conheceu e se apaixonou por ele....
    Desde então ele mora dentro do seu coração ... portanto é aqui que vc vai encontrá-lo sempre que precisar ... ele vai estar ai para sempre... igualzinho, da mesma forma que sempre foi.... eu garanto isso a vc pq vivo essa experiência há 34 anos. A morte doi, choca, mas não consegue separar as almas dos que se amam....
    bjs te amo muito!!!!
    Dinda

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  2. Ah Dinda querida... me debulhei em lágrimas agora... qd minha tia Ana morreu, achei que nunca pararia de chorar e com o meu pai, parei antes do que imaginava... mas a impotência de não podermos ver alguém nunca mais é o sentimento mais cruel que já vivi. Sei que a dor passa, mas saudade é eterna e também dói. Ainda bem que sempre terei vc para me entender. Te amo, obrigada por existir em minha vida.

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  3. Engraçado... comigo acontece exatamente o contrário. Só consigo lembrar dele vivo, rindo, pedindo um gelinho. A imagem do caixão existe, mas ele tá sempre vazio. Ainda bem...

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  4. Já falei que Freud explica... é o sentimento de negação... é tudo muito confuso, mas basta colocar os neurônios em ordem com algumas sessões de choque e td se resolve!

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