quinta-feira, 9 de julho de 2009

O último capítulo

1997. Final do mês de agosto. Madrugada de sábado para domingo. Eu, que sempre dormi cedo, estava até aquela hora assistindo aos noticiários da BBC, para treinar o inglês, necessidade profissional. A apresentadora noticiou o acidente com um veículo. Uma das ocupantes era a Princesa Diana. Minha relação com Lady Di era muito peculiar, graças ao senso de humor do meu pai. Por ocasião do casamento dela com o Príncipe de Gales, o mundo parou. Morávamos na Avenida Rebouças. Meu pai saiu para trabalhar e me avisou que seu primo, Charles, se casaria naquela manhã, em uma bonita cerimônia. Fiquei assistindo ao espetáculo e mesmo crescendo e sabendo que foi tudo história do meu pai, tinha o meu parentesco com a Princesa. Mal sabia eu que muitos e muitos anos mais tarde, pregaria a mesma peça na minha filha, desta vez, no casamento do Príncipe Felipe da Espanha, com a Princesa Letícia. Morávamos na Europa e nos sentíamos próximos da cerimônia. Disse à minha filha que a Letícia era minha prima. Com relação à Lady Di, sofri com a sua morte, assim como se sofre a morte de um ente querido. Sem explicações tais sentimentos, que nos aproximam de alguém tão distante, criando uma situação real dentro daquilo que só é imaginário.

1994. Início do mês de maio. Domingo. O almoço já estava mais que digerido em meu estômago. Estava na praia assistindo a corrida de Fórmula I, no circuito de Ímola, na Itália. Era fanática pela categoria. Por ser moradora da Zona Norte, sempre me senti mais próxima ao Ayrton Senna. Achava que ele era gente do povo e eu era o povo. Um ano antes, tinha ido ao autódromo de Interlagos assistir a corrida, que ele infelizmente não ganhou. O carro bateu. Liguei para São Paulo imediatamente e perguntei se meu pai estava vendo a corrida. Ele disse que sim. Pior que isso. Disse com estas palavras: “ele foi pro saco. Já era”. Fiquei muito brava com o comentário infame do meu pai e desliguei o telefone, sem ao menos me despedir. Muito pouco tempo se passou até que a Rede Globo anunciou o óbito: “morre o maior piloto de todos os tempos, Ayrton Senna do Brasil”. Chorei por muitos dias. Acompanhei tudo que passou na televisão, tudo que saiu na mídia. Anos mais tarde, fui ao autódromo do Estoril, local em que Senna ganhou sua primeira corrida. Visitei exposições por ocasião do aniversário da primeira década da sua morte. Eu nem era prima do Ayrton, só da Diana. Mas sofri a morte dele igual sofri a dela.

2009. Final do mês de junho. Quinta-feira. Morre a atriz Farrah Fawcett. Comentei a noite com o meu marido, que não havia acompanhado a notícia. Dormimos. Sexta-feira. Levei as crianças à escola e passei em casa para dormir um pouquinho antes de ir para a faculdade. Meu marido me liga e me pergunta se eu vi quem morreu também. E completou: Michael Jackson. Tive as sensações mais estranhas possíveis. Meu marido não é uma pessoa que brinca com nada sério. Aliás, ele abomina tal comportamento. Se meu pai estivesse vivo e tivesse me dado a mesma notícia, sei que viria uma piada por trás. Não só meu pai, qualquer outra pessoa que conheço, seria capaz de fazê-lo. Menos meu marido. Liguei a televisão, o computador. Conectei-me a todos os sítios de notícias. E também a todos os canais. Era verdade, como nunca duvidei. O astro estava morto.

Todos eles eram queridos pelo povo. Todos eles eram famosos, cada qual com a sua fama. Todos eles foram aclamados pelo público. Mas apenas um deles, o mais polêmico durante toda a sua vida, teve sua despedida pública de forma extravagante, exagerada. Emocionou? Não a mim. Entendi tudo como um grande teatro, uma superexposição de uma criança, de uma família. Um verdadeiro circo. O caixão sumiu. Em minha opinião, não havia corpo lá dentro. A família conseguiu ser fria a tal ponto de enterrar o artista e seguir para um show, com um elemento de madeira e ouro representando seu corpo, que lá já não se encontrava. Minha opinião. Que agora, ele descanse em paz. Amém.

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