quarta-feira, 1 de julho de 2009

A diferença entre o roceiro e o carroceiro


Gosto de coisas boas e as coisas boas custam caro. Meu olhar clínico consegue parar em qualquer vitrine, de qualquer tipo de produto, e se apaixonar pelo item mais caro que lá estiver. O que eu posso fazer? Muito. Posso lutar, batalhar, de maneira honesta, para conseguir conquistar tudo que quero. O que não posso fazer? Criar um mundo que só existe para mim, entrar em uma bolha de ilusão e achar que coisas inimagináveis são reais.


Disse e repito insistentemente: humildade é fundamental. Também repito que as pessoas que realmente têm dinheiro, não ficam por aí contando vantagem.


No último final de semana, fomos a uma festa infantil. A festa foi regada a comida, bebida e salgados da melhor qualidade. Já tínhamos ido a festas no mesmo Buffet, mas o serviço dessa vez surpreendeu a todos. O que determinará se o Buffet fará ou não um bom serviço, é o valor pago por ele. A pessoa pode escolher um lugar de luxo e fazer da festa um lixo. Mas a questão aqui é que a família que ofereceu a festa é de uma simplicidade ímpar. E podre de rica.


Conheci uma pessoa que vivia na bolha. Aliás, tive o infortúnio de cruzar com várias, mas duas me marcaram. A que está em questão aqui era uma pessoa de família simples e humilde. Digo era, pois ela já se foi. Da minha vida. Criada no interior de São Paulo, tinha em sua família pessoas que batalhavam para ganhar o pão nosso de cada dia de forma sacrificada. Vários de seus vários irmãos, tiveram vários filhos. Aquela coisa de família mais humilde, vai tendo filho e o mais velho vai cuidando do menor, enquanto todos vão para a roça. Mas essa pessoa negava suas origens. Conseguiu estudar com sacrifício, bolsista em faculdade de segunda... terceira... quarta linha, mas insistia em dizer que entrou na USP. E por que não concluiu o curso? Porque era mentira, simples não? Época do aniversário de filho era um delírio total. Havia justificativas no bairro inteiro para dizer que não havia acontecido A FESTA, no melhor lugar, pois exatamente naquele final de semana, sua melhor amiga casaria e daria uma festa de arromba. As fotos mostravam a festa de arromba: garrafas de Dolly espalhadas ao longo do salão da garagem, emprestada por um amigo. Morava de aluguel, mas possuía imóveis pelo interior e dinheiro no banco para adquirir o que residia com sua família. O lugar mais longe que já tinha ido era lá no interiorzão, nos confins de onde veio; mas não viajar e nunca ter saído do país era um detalhe. Medo de avião, será? O que essa pessoa ganhou? A indiferença daqueles que a cercavam, as conversas paralelas sempre rindo dela pelas costas e, muitas vezes, até mesmo pela frente. Que Deus a tenha... longe de mim.


Sou uma pessoa muitas vezes deslumbrada, pois vivenciei coisas que minhas origens jamais me permitiriam. É um deslumbre de orgulho, de querer mostrar que somos capazes de vestir mais que um tênis Conga; podemos sim, almejar calçar o tênis Bamba e por que não um All Star? Podemos ou não compartilhar com aqueles que gostamos, nossos feitos, conquistas e vitórias, mantendo o pé no chão e sem nos tornarmos uma pessoa pernóstica, ou pior, uma pessoa mentirosa.


Tem gente que nasceu para ser roceiro e nunca chegará ao carroceiro, mesmo que a conta bancária diga o contrário. Quando o carroceiro pensa que está se tornando roceiro e contando vantagem sobre sua nova carroça, está nada mais do que fazendo um papel de ridículo. Melhor é cada um aceitar sua condição, sua situação econômica, social e cultural e fazer da sua vida a melhor vida, sem lorotas, sem mentiras, sem ilusões...


Lembrei dessas histórias hoje, não sei por qual motivo, mas recordar é viver! Ou morrer de rir.

2 comentários:

  1. Nessa onda de não dormir, vou acabar esquecendo de perguntar depois. Então faz um favor para o roceiro do seu irmão e vai lá me responder por email a dúvida que esse email despertou, please!
    bjoca

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  2. Nossa, vc não nega de quem é irmão... será que é possível escrever no atestado de óbito: "causa da morte - CURIOSIDADE"?

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