domingo, 21 de junho de 2009

O dia em que quase acreditei em Santos


Cresci no seio de uma família católica, criada com os avós maternos cujo avô era praticante fervoroso. Não me lembro de nenhuma imagem de santo, nem na casa dos meus avós e nem na nossa casa. O máximo que me lembro de minha mãe ter em casa era uma minúscula imagem do Buda. Aquele Buda gordo e careca, não o tradicional Buda. O de casa ainda tinha uma moeda colada nele e tinha sempre que estar de costas à porta de entrada de casa. Claro que eu não perdia a oportunidade de virar o Buda e colocá-lo olhando para a porta, só para provar que aquilo não trazia mal algum.

Na igreja católica, nunca aprendi sobre santos. Podem até ter ensinado histórias sobre eles, mas eu, particularmente, não aprendi nenhuma.

Quando tinha vinte anos, fiquei desempregada. Distribui meu currículo para várias agências de emprego. Um dia, me mandaram fazer entrevista em uma indústria farmacêutica, na Avenida dos Bandeirantes. Tinha que descer na estação São Judas do Metrô e andar “um pouquinho”. Depois de andar por vários quarteirões, desisti. Claro que um dia fazer aquilo, tudo bem, mas todos os dias, ida e volta depois de trabalhar o dia todo, nem pensar. Liguei para a agência de emprego ainda na rua, dizendo que não iria fazer a tal entrevista. Chego em casa e uma segunda agência me envia um telegrama. Entrevista marcada para o dia seguinte, na Avenida dos Bandeirantes. Conferi, eram os mesmos números. Algo me mandava para aquela empresa e achei melhor não desafiar a sorte. Acordei cedo no dia seguinte e, certa de que tinha me perdido no dia anterior, rumei à empresa novamente. Pela segunda vez, não consegui chegar ao lugar. Tinha algo de estranho naquela história. Voltei para casa, liguei para a agência e sinistramente, fui chamada por uma terceira agência de empregos para a mesma vaga, na mesma empresa. Decidi que chegaria, nem que fosse de táxi com os últimos tostões que me restavam. Mas antes, tentaria o Metrô e as solas dos meus sapatos pela última vez.

Desembarquei na estação São Judas e resolvi conhecer a famosa igreja que leva o nome da estação (ou ao contrário). Afinal, todo final do mês de setembro, há um acúmulo de fiéis peregrinando para homenagear o seu santo protetor, o das causas perdidas (ou impossíveis?). Entrei na igreja, ajoelhei-me e pedi ao santo, que se fosse meu destino percorrer a poluída Avenida dos Bandeirantes diariamente, como forma de pagar meus pecados na Terra, que aquele emprego fosse meu, afinal, eu precisava muito dele.

Após andar até cansar, cheguei à empresa. Era uma dinâmica de grupo. Eu e mais todas as moças desempregadas da minha faixa etária. Não me lembro qual era a vaga oferecida, mas me senti lesada em meio a tantas pessoas, sabendo ainda que aquilo já durava três dias. Fiz a dinâmica e aguardei. Quinze anos se passaram desde aquela vez e até hoje não me deram uma resposta, positiva ou negativa. Assim, minha crença em São Judas durou poucas horas.

Há cinco anos, estivemos no santuário de Fátima. Foi emocionante estar naquele lugar e sentir a energia que ele emana. Foi emocionante adentrar na igreja, assistir às missas paralelas dentro daquele enorme lugar, observar o número de fiéis que ali estavam e a fé em cada um deles. Trouxe de Fátima várias imagens da Santa, mas eu mesma não tenho nenhuma.

Nunca visitei a igreja da nossa Padroeira, coisa que ainda quero fazer, por achar bonita demais a fé dos fiéis, as graças alcançadas, e mais ainda, sentir a energia que a união de pessoas é capaz de transmitir.
Semana passada, estive com as crianças em um atacadista, no Pari, para comprar “coisas de crianças”: bolinhos, sucos, biscoitos, achocolatados, enfim, lanchinhos de escola. Sempre vamos neste lugar para tais compras; eu nunca tinha notado que na parte de fora, há uma gruta com quatro imagens: Nossa Senhora de Fátima (padroeira de Portugal, provável terra natal do dono do estabelecimento, pelo nome dele), Nossa Senhora de Aparecida, nossa padroeira e São Cosme e São Damião, protetores das crianças. Levei as crianças para ver as imagens e me senti até um pouco envergonhada por minha filha não conhecer sequer a imagem de Nossa Senhora, vergonha que passou rapidinho, já que ela conhece Maria, mãe de Jesus, sem devoção qualquer a uma imagem. Expliquei a eles quem eram Cosme e Damião e as duas santas, fizemos nossas compras e voltamos para casa.

O dia terminou e fomos dormir. Meu filho, com três anos e sete meses, tosse há exatos quarenta e três meses, ou seja, desde que nasceu. Naquela noite já tínhamos levantado várias vezes para dar água, mel, xarope, rezar, fazer promessa e nada do moleque parar de tossir. Pedi para Santo Antônio, o santo casamenteiro, que meu filho casasse logo, pois não aguentava mais ter minhas noites interrompidas por tosses há tantos meses. Na milésima vez que me deitei, fiz minhas orações novamente, pedindo a Deus que me desse uma resposta do motivo daquela criança tossir tanto, sendo que já fizemos de tudo e procuramos todas as alternativas para que a tosse noturna sumisse. A resposta veio em forma de lembrança de Cosme e Damião.

Quando criança, lembro-me de que minha mãe fazia, anualmente, uns saquinhos com doces para distribuir no dia dos santinhos, mas não sei o que ela havia pedido. Mas já que eles protegem as crianças, fiz ali minha promessa, pedindo para que meu filho não tossisse mais a noite. Ele parou de tossir imediatamente. Virei devota dos santos. Por quarenta e oito horas, pois a tosse voltou e minha crença foi embora. Vou continuar acreditando em Deus e seus desígnios para compreender a tosse do meu filho e as horas acordadas noites e noites até que a famigerada cesse e eu consiga pegar no sono novamente.

2 comentários:

  1. Boa! Gostei desse!
    Ótimas lembranças de quando era criança e enchia a cara de doce por causa dos tais santos... Viva o açúcar!
    bjoca

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  2. Viva o açúcar, é como eu sempre digo... o que seria da infância sem os docinhos de Cosme e Damião? Bejokitas

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