quarta-feira, 24 de junho de 2009

Emergência: emergentes!


Emergente é um adjetivo usado muito nos dias de hoje para qualificar os países em ascensão ou para vangloriar o novo rico. Novo rico?

A palavra emergente significa surgir, aparecer, decorrer. Remete-nos a algo de sucesso, que ganhou dinheiro, que cresceu, que passou à frente. Há pessoas que passaram uma vida inteira comendo pão com margarina. De repente, passam a comer pão com salame, sem ter passado pelos estágios da manteiga, da mortadela e do presunto, passos necessários para aprender a degustar as variadas espécies de salame existentes no mercado. Fiquemos no salame. Se as pessoas não passaram pelos estágios necessários, como podem se dizer conhecedoras de salame?

Metáforas a parte, acredito que para algumas famílias, as coisas nos dias de hoje são mais abonadas que na época de seus pais. Gente que sempre morou em uma casinha de vila e vai morar em um prédio, condomínio fechado, piscina, um parquinho e o básico salão de festas, começa a se sentir milionário. Na sala, a televisão de quarenta e duas polegadas adorna o móvel comprado nas Casas Bahia, em várias prestações.

Não estou sendo preconceituosa nas minhas palavras, estou apenas constatando uma situação muito comum e corriqueira nos dias de hoje e o tema começou a ser debatido no último almoço de domingo. Estávamos na casa dos meus sogros, juntamente com a minha cunhada que mudou recentemente para um condomíniotemtudo.com.br. Quem acompanha meu blog, lembra-se da mega festa que minha sobrinha, filha dessa minha cunhada, teve no mês de maio, do High School Music.

Vale contextualizar: meu sogro, hoje aposentado, foi Agrimensor. Minha sogra, ex-funcionária pública, virou dona de casa. Criaram seus três filhos com muita dificuldade, assim como meus pais nos criaram. Nunca faltou arroz com feijão, mas muitas vezes não teve a carne. Escolas públicas, passeios inexistentes, viagens então, nem pensar. Assim crescemos sem frustrações e sem grandes anseios. Estudamos, nos formamos, trabalhamos e galgamos algumas facilidades para nossos filhos inexistentes nas nossas infâncias. Mas não somos emergentes. Emergentes são as pessoas que moram no prédio da minha cunhada e a acusaram de promover uma festa empresarial no condomínio, que teve até diploma na saída. Meu Deus, já que a alma dessas pessoas está perdida mesmo, que haja um lugar especial no purgatório a todas elas.

O emergente é aquela pessoa que o salário melhora um pouquinho. Ao invés de guardar para o amanhã, compra. Compra roupas de grife, vai a bons restaurantes e viaja para o exterior. Ok, tudo coisa legal de se fazer, desde que sejam feitas sem ostentação. O verdadeiro rico não precisa sair em busca ao consumo de maneira desenfreada, pois já nasceu rico, sempre consumiu. O pobre é quem consome demais. Só que o pobre só enriquece materialmente falando; preserva seu eu interior, seu espírito de porco, sua mesquinhez e, por que não, sua breguice.

Tem coisa que é de doer. Estive em um evento. Uma mãe e uma filha sentaram-se próximas a mim e a minha família. A menina tinha, aparentemente, a idade do meu filho. Seu cabelo reluzia de tanto brilho que a mãe colocou. Os olhos da criança estavam esticados de uma ponta a outra, pintados com delineador. A roupa todinha de paetês. Unhas vermelhas com decalques. Os brincos alcançavam os ombros da criança. Tive dó da criança. Tive vontade de falar com a mãe. Só vontade. A situação, apesar de chocante, não me dizia respeito. A criança não tinha espontaneidade nenhuma, era uma caricatura da mãe. A mãe. Preciso falar da mãe. Seus cílios deram lugar a um tubo inteiro de rímel, provavelmente da Lâncome, mais ainda provável de ter sido comprado no Dutyfree, na primeira viagem feita à Buenos Aires, naquela excursão que será paga em várias vezes. A roupa era de doer. Casaco de pele sintética. Um ponche mais sintético ainda nas mãos. Branco e com brilhos. Contrapondo esteticamente ao casaco que ela vestia. A bolsa dourada, enorme, cheia de frutas, sucos, bolachas. Da marca mais barata que se pode encontrar em supermercados, geralmente, marca própria. Um celular dourado, último modelo, cheio de recursos que nunca se usam. Junto da bolsa dourada, uma pequena bolsinha de pelo sintético também. Estava de doer. Tive pena das duas.

Todo mundo conhece minhas histórias e sabe que eu não sou de reparar nas coisas. Não reparo nem na minha casa. Mas ontem não deu. Cheguei em casa e pedi perdão a Deus por ter reparado tanto, mas não tive culpa. Eu e todos os outros presentes não conseguíamos tirar o olho daquela pobre família, cujo pai começou a ascender na carreira profissional, ganhar um pouco mais de dinheiro e a esposa quis posar de nova rica. Como eu já disse tantas vezes aqui nesse blog, berço não se compra em lugar nenhum. Nem com o dinheiro dos emergentes.

2 comentários:

  1. Fora os emergentes que enchem o saco... só faltam tirar a roupinha de grife e esfregar nas fuças da gente para mostrar que agora PODEM!!!
    Aconteceu comigo rsrsrsr
    Lá estou eu bem quieta e despercebida da vida, também não costumo reparar nas coisas, o que eu acho bonito, é BONITO e pronto, não importa se eu comprei no camelô ou na DASLU, nunca tive acesso ao consumo exagerado, e pouco conheci o que era grife. O ápice da grife que eu possa me lembrar foi o de comprar uma bolsa de couro na 775!!!! com o meu dinheiro, do meu suado salário o que torna tudo muito diferente e mais gostoso. Lógico que gosto do que é bom, mas não necessita ser carésimo para ser o melhor. Detesto frescuras, aprendi a me comportar muitíssimo bem em qualquer ocasião, fui secretária executiva por anos, e isso me ajudou muito, ensinou tudo sobre etiqueta e meu deu parêmetros para escolher o que prefiro e é por isso que digo: - Odeio frescura.
    Voltando a vaquinha fria, lá estava eu sentada numa festa de aniversário "gênero churrascão com pagode" para meu desespero. E uma emergente em potencial, interrompe meu silêncio, ou meu transe, para não surtar com aquela musiquinha do Katinguelê que rolava no fundão para falar das roupas de grife que havia comprado para seu rebento, enquanto ela eu reparava que o garoto se esfregava no chão feito um neandertal (baita churrascão, aquele chão melento de carne e afins rsrsrs) E o emergentezinho lá esfregando a roupinha de R$ 1.000,00 que a filhote de Vera Loyola do agreste tinha comprado.
    Achei de uma pobreza imensa, de um mau gosto muito maior, pouco me importava o valor, não perguntei e não estava com vontade de saber mas, como sempre; mantive meu bom senso lembrando uma frase que meu pai sempre repete: Filha mia, o silêncio é de ouro. Sábias palavras pai!!!
    Mas, como diz minha professora Solange: - Podem nos impedir de falar, mas jamais vão nos impedir de pensar". E o que eu pensei dela naquele instante não foi legal. Porém, me sinto culturalmente anos luz a frente desta figura, então relevei, e mais uma vez sorri e concordei com tudo.
    Adorei a postagem Mida!

    ResponderExcluir
  2. Mida, quem nasceu para ser pobre, não enriquece nem com a Mega Sena...

    ResponderExcluir