sábado, 16 de maio de 2009

Você gostaria de criar um novo idioma?


Se eu tivesse em minhas mãos o poder de recriar a Língua Portuguesa, esta deixaria de se chamar Língua Portuguesa, assim como aconteceu com o latim, lá no início de onde se tem história, que sofreu mutações gerando várias outras línguas, inclusive a tal Portuguesa (que no nosso caso, deveria chamar-se Brasileira).

O novo idioma se chamaria Pãdêz e consistiria, basicamente, em facilitar o uso por seus falantes, mas, principalmente, por seus escritores. Muito semelhante e ao mesmo tempo muito diferente, este paradoxo consistiria em:

1. Não haveria o uso das letras M e N para anasalar as vogais; para tanto, bastaria colocar o /~/ sobre as vogais. Problema resolvido. Vale a ressalva de que, quando necessário, faz-se o uso do /~/ por mais de uma vez na mesma palavra, como em “Pãdolãdia”.


2. Os acentos agudo e circunflexo seriam usados em toda e qualquer palavra, para dar tonicidade à sílaba. Som fechado, acento circunflexo; som aberto, acento agudo. Até as monossílabas levariam acentos, para distinguir o ponto de articulação do som.

3. Adeus confusão com o uso do /s/ /ss/ /ç/; em palavras como sapo, espaço, bolsa, fizesse, cujo o som do /s/ se dá de maneira foneticamente idêntica, a regra seria única: usa-se apenas um /s/; o /ç/ seria morto e enterrado, de preferência no mundo bem longe da Pãdolãdia; som de /z/, usa-se a mesma: caza, nasal; bye bye confusão! E para acabar definitivamente com o problema do uso do /s/ /z/, todo e qualquer plural ou final de palavra que antes terminava com /s/, passa a ser escrito apenas com /z/. Nada de pensar.

4. Para que saber se o /r/ é forte ou fraco na pronúncia? To fora. Com a letrinha que vai sobrar na regra no. 5, o /h/, surgiria uma nova forma de grafar algumas palavras. Seria só uma questão de costume para os novos usuários do Pãdêz. Assim, teríamos: som forte, uso do /r/, apenas um; som fraco, uso da nova letra, com novo som, novo fonema, nova pronúncia: /h/; assim, o que hoje se escreve /levaria/, passaria a ser /levahia/, mas com o mesmo som da primeira grafia. Aqui complica um pouco, mas como já disse, uma questão de hábito.

5. O /r/ também não seria mais usado ao final das palavras, uma vez que, ao pronunciarmos um verbo no infinitivo, geralmente “comemos” a pronúncia da letra; então, vamos fazer uma refeição completa e comê-la também na escrita.

6. Falando em hábito, outra coisa que acabaria: o uso do H. A letra cairia em desuso, uma vez que é uma letra muda. Para início de palavras (como por exemplo /hora/), a letrinha muda iria ficar também transparente. Para o uso em palavras que hoje se escrevem com /ch/, simplesmente haveria a troca pelo /x/; outros dígrafos, como o /nh/ e /lh/, a grafia e pronúncia seriam feitas com a vogal /i/, ficando então ília (ao invés de ilha), iniãme (ao invés de inhame) e assim por diante.

7. Por quê é que usamos o /l/ para expressar o som do /u/? Cada um no seu quadrado, cada letra com o seu fonema.

8. No Pãdêz, não haveria a distinção entre a língua falada e a língua escrita. Aí vem a pergunta: no nosso imenso Brasil, além do dialeto existente em cada região, em cada pedacinho do país, há também as variantes fonéticas. Uma mesma palavra não se pronuncia do mesmo modo, por exemplo, em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Bahia (falando só dos Estados mais vizinhos).

É isso aí, no Pãdêz, apesar de ainda existir a arbitrariedade entre o significado e o significante de cada signo lingüístico, acho que facilitaria a vida dos pequenos seres em suas alfabetizações, que chegam a ter verdadeiros ataques ao não entender que aquilo que se fala não é aquilo que se escreve. E dizem do lado de cá dos trópicos que isso só ocorre no inglês.

Claro que existe muito mais coisas envolvidas na criação de um novo idioma, do que sonham meus profundos devaneios. Prova disso é o Esperanto, desenvolvido para ser uma língua universal e que está aí, até onde se conhece, vivendo no ostracismo.

Devaneios a parte, temos que agir urgentemente com nossas crianças, crescendo cada vez mais conhecedoras do mundo, e cada vez mais ignorantes da nossa língua.
Úrsula Hummel

2 comentários:

  1. Irmã, antes de oficializar seu idioma, dê um pulinho na Grécia. Aquilo sim é complicado...
    bjoca

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  2. Fala sério, aí já é programa de grego... he he he...

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