sexta-feira, 22 de maio de 2009

Túnel do tempo


Etimologicamente, a palavra nostalgia tem sua origem através do prefixo grego “nostos”, que significa retorno para casa e o sufixo “algia”, com significado de dor, aflição. O “Michaelis” define a palavra como doença ou tristeza profunda causada pela saudade da pátria. Outro dicionário complementa a definição anterior, com a sentença “saudade do passado ou de algum lugar”. Para mim, nostalgia vai além de todos os significados que encontro. Nostalgia não é algo triste, pois nem sempre a saudade significa tristeza. Nostalgia me remete a lembranças, a situações, a fatos, acontecimentos, situações vividas e sempre com um sentido positivo, me trazendo sensação de felicidade.

Quando tinha nove anos, morava na avenida Rebouças. Número 2012 (ou 2011?). O pequeno prédio de três andares, quatro apartamentos por andar, a casinha do zelador nos fundos e vagas para visitantes à frente (acho que nenhum morador tinha carro naquela época), já foi demolido. Deu lugar a um posto de gasolina. A lojinha de comidas macrobióticas que ficava ao lado, em tempos que mal se falava de vegetarianos, vegans ou qualquer outra corrente de comidas saudáveis, também se foi; já sentia gosto ruim na boca só de imaginar as comidas do local. Meu pai trabalhava na Oscar Freire, em um açougue que nem sei se ainda existe. Um dia, não sei bem dizer o porquê, ele foi transferido para um lugar muito, mas muito longe. Chamava-se Alto do Mandaqui. Não tínhamos a menor idéia de onde ficava o lugar.

Meus avós maternos e paternos moravam no Alto de Pinheiros, em um conjunto do BNH onde meus pais se conheceram. Quando minha avó paterna faleceu, um ano antes de eu nascer, meu avô voltou à sua cidade natal, Passos, cidade no Sul de Minas Gerais. Os maternos mudaram-se para Santa Cecília, onde meu avô morou até falecer e minha avó ainda se encontra. Acho que fomos parar na Rebouças devido à proximidade do trabalho do meu pai. Mas com aquela transferência, migramos para o outro lado do planeta. Era essa a sensação que a distância nos trazia.

Fui conhecer o lugar onde moraríamos só no dia da mudança. Dia dez de julho de 1983. Não sei o motivo de lembrar-me de algumas coisas com tanta riqueza de detalhes, mas era um domingo. Nosso apartamento ficava no quarto andar. Conjunto dos Bancários, um lugar com muitos e muitos mini prédios. A mudança chegou naquele domingo pela manhã e quando entrei naquele que seria meu quarto, tive a maior sensação de liberdade que já senti na vida. Enxerguei um parquinho e mal podia acreditar que moraria em um lugar com parquinho. No dia seguinte, soube que o parquinho pertencia ao condomínio vizinho, o Vitória Régia, onde fui morar depois de casada e onde minha filha nasceu. Fiz muitos amigos no Conjunto dos Bancários e no Vitória Régia. De muitas pessoas, tenho a felicidade e o prazer de ainda ter contato, notícia ou fazerem parte da minha vida, como a madrinha do meu filho.

Essa mudança foi muito difícil para mim. Estudava na Pedroso de Moraes, na escola estadual Fernão Dias Paes. Era a melhor aluna da terceira série, professora Amábile Ruy. Quando terminou o semestre, minha mãe me levou para a despedida com minha querida mestra; levamos a ela um presente e fui surpreendida também com um: o livro “No Reino Perdido do Beleléu”, que tive a felicidade de ter encontrado há uns dois anos e presenteado minha filha. Amava minha escola e o espaço dela. Mas chegar ao Conjunto dos Bancários me fez esquecê-la imediatamente.

Logo na segunda-feira, dia seguinte à mudança, fui à padaria sozinha comprar pão e leite. Senti-me como gente grande, aos nove anos de idade. Fiz amizade com uma moça que passeava com suas pequenas filhas, com idade semelhante a dos meus irmãozinhos e a amizade entre ela e minha mãe perdurou anos e anos. Não que tenha acabado. Foi apenas a questão de mudanças físicas de ambas. A Norfinha foi minha primeira "patroa". Meus irmãos iam para a escola de educação infantil e a filha mais velha dela estudava junto com a minha irmã. Minha mãe levava meus irmãos e a Norfinha me pagava alguma quantia para que eu fosse junto, levando a lancheira da sua filha Carol e dando-lhe a mão.

Durante a primeira semana no novo bairro, descobri que havia uma biblioteca itinerante, que parava todas as quartas-feiras, ao lado da igreja, onde fiz minha primeira comunhão. Minha catequista, a tia Inêz, trabalha hoje no colégio dos meus filhos e no ano que vem será a Coordenadora da minha filha, no Ensino Fundamental II. Descobri a escola mais perto da minha casa, um tal de Gastão. Meu vizinho foi quem deu a dica. Disse que tinha piscina na escola. Pedi para que minha mãe me matriculasse naquela escola e meu desejo foi atendido. Durante cinco anos e meio, o Gastão foi a minha vida. Tenho a felicidade de ainda ter contato e notícias de vários professores daquela época. Meu professor de Educação Física foi meu orientador de estágio, dois anos atrás. O de Matemática, é diretor da EMEI que fica em frente à Universidade a qual estudo. A de Língua Portuguesa ainda mora no mesmo lugar e seu sobrinho neto, pasmem, estudou ano passado na classe do meu filho. A de Desenho Geométrico encontrei há pouco tempo no salão de cabeleireiro.

Fico feliz com o advento do Orkut e a possibilidade de reencontrar tantas pessoas queridas: meu primeiro namoradinho, amigos queridos, amigas que marcaram e fizeram parte de momentos maravilhosos da minha vida e muitas que, infelizmente, ainda não reencontrei fisicamente, mas sonho com o momento, como minha amiga querida daquela época, a Paula (Regina), que hoje é mãe de um menino lindo e que um dia ainda espero ver brincando com o meu. Outra amiga em comum, a Adrianinha, será minha vizinha daqui alguns meses, quando mudarmos para o apartamento novo. Minha amiga Andréa, que encontrarei semana que vem, na festa de 15 anos da sua filha mais velha. Que saudades! Tanta gente casou, separou, casou de novo, teve filhos, viajou, voltou. Aquele lugar tem uma história de vida única, tenho certeza que não só da minha, mas de muita gente.

Hoje, fui complementar o material escolar do meu filho, que como disse anteriormente, está mudando de escola. Não achei em nenhum lugar dois brinquedos pedagógicos que a escola pediu. Procurei em várias lojas virtuais e físicas e tive o “insight” de procurar no velho Bazar que minha mãe comprava meus materiais escolares e o lugar o qual comprei o primeiro material da minha filha. Bingo! Achei os dois jogos que faltavam. Na verdade, achei muito mais do que brinquedos. Achei dentro de mim lembranças importantes que cada pedacinho daquele lugar gravou dentro de mim.

Foi assim que apresentei hoje ao meu filho a escola que a mamãe estudou, o prédio que a mamãe morou, o lugar onde a mamãe viu o papai pela primeira vez, a rua que a mamãe brincava. Mais ainda, mostrei ao meu filho uma parte de mim, que está lá, marcada em cada esquina e principalmente em meu coração. Esse dia nostálgico foi de lembranças felizes, de um tempo em que era possível ser feliz sem coisas materiais, de um tempo em que amigos eram importantes, de um tempo o qual brincar era possível, de um tempo em que sonhar ia muito além do sonho. De um tempo em que sou grata por ter vivida e, principalmente, por sentir saudades.
Úrsula Hummel

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