quinta-feira, 21 de maio de 2009

Qualidade de vida


É a palavra chave nos dias de hoje. Todo mundo fala na busca pela tal qualidade de vida, mas não vejo ninguém fazer algo concreto para alcançar seu objetivo.

A noite que passou foi uma regência filarmônica na casa dos Hummel. Enquanto um tossia fortemente, outro espirrava e o terceiro, para não ficar de fora, tossia e espirrava simultaneamente. Eu, para cumprir meu papel de maestra, acompanhei o sono da família, sempre pensando em que fazer para mudar o quadro.

Somos uma família de alérgicos, sem escapar ninguém. Meu marido é o pior de todos, pois a qualquer contato com poeira, fica com o rosto vermelho, começa a inchar e... fecha sua glote. Há poucos anos, descobrimos que para conter o risco de morte, até que consiga ser socorrido em um hospital, precisa tomar uma dose cavalar de corticóide. No trânsito de São Paulo, muitas vezes nem uma ambulância chega a tempo. Há alguns anos, ele foi e voltou da Europa em três dias. Considerando o tempo de vôo nos dois trechos e o período em que ficou em reunião, pode-se resumir que passou três dias sentados. Quando voltou para casa, sentiu dores estranhas no peito e corremos para o hospital. Sempre avisamos da sua alergia a qualquer tipo de medicamento. Como estávamos em outro país, pode ser que por algum problema de entendimento, ministram-lhe uma dose intravenal de anti-inflamatório. Em minutos, sua glote começou a fechar, precisando de atendimento imediato para que algo pior não acontecesse.

Eu sou alérgica desde criança. Meus pais gastaram tubos de dinheiro com tratamentos para que eu conseguisse viver sem tantas crises, mas só me garantiram a sobrevivência. As crises continuam até hoje. A rinite alérgica é sempre a desencadeadora da minha sinusite. E assim, minha cabeça dói, dói e dói. Claro que já tentei tratamentos alternativos, como a homeopatia e a acupuntura. Foi em vão. Até dois anos atrás, eu só respirava usando Otrivina. Consegui, com a ajuda da nossa otorrino, cortar a medicação aos poucos. Agora faço uso de corticóides, via oral e nasal, constantemente.

Meus filhos têm rinite alérgica que chega a irritar. Nossa casa tem vidros de rinossoro espalhados por todo canto, cada um com seu nome, para que todos lubrifiquem constantemente suas narinas. Baldinhos, desses de brincar na areia, vivem cheios de águas pelos cantos. Também usamos umidificadores de ar, o que culmina em paredes sempre suadas e o uso excessivo de desumidificadores dentro dos armários, senão as roupas emboloram. É um ciclo, mas só com começo e meio, o fim não acaba.

Já recebi as mais variadas indicações de tratamento. A próxima que tentaremos será com uma médica homeopata, cara, só atende particular e com agenda lotada. Minha sobrinha, filha de médico pediatra, está tratando com ela e diminuiu as internações médicas e o uso excessivo de antibióticos. Quem sabe seja a nossa luz.

Qualidade de vida é tudo que um ser humano precisa. Se eu pudesse fazer parte de uma Assembléia Constituinte, votaria na qualidade de vida como direito constitucional. Mas quem disse que tudo que está escrito na Constituição Federal, como direito líquido e certo do indivíduo, existe na prática?

Tenho um amigo que mora em Caieiras. Quando começou a fazer faculdade na nossa selva, leia-se São Paulo, passou o primeiro ano inteiro doente. Depois, a coisa foi melhorando. Ele é saudável e tem uma cor diferente dos paulistanos. Aos finais de semana, tem contato com o Sol, com a terra e o ar puro da sua cidade acaba por compensar a poluição ingerida durante a semana. Tenho uma amiga de 24 anos e um amigo seu, da mesma idade, está com câncer nos pulmões. Nunca fumou. Resultado da poluição da nossa amada São Paulo.

Amo a cidade de São Paulo e toda a praticidade que ela nos oferece. Após a Semana da Arte Moderna, Oswald de Andrade já havia escrito a nossa adorada São Paulo com todas as características da vanguarda Futurista que assolava a Europa. Imagino só o que Oswald diria hoje. O que me consola um pouco, bem pouquinho, muito pouco mesmo, é quando meu marido volta de viagens à China e narra o quão pior é do lado de lá.

Qual é o meu projeto para a qualidade de vida da minha família? Vivo um pós-moderno árcade. Quero viver de maneira bucólica, morar no campo, em busca da simplicidade, da natureza, do contato com coisas que o homem e sua ganância destroem cada vez mais. E tenho certeza que faço parte da destruição, mas quero poder contribuir para a melhora do nosso Planeta. Seria a solução para uma qualidade de vida para todos.
Úrsula Hummel

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