sábado, 23 de maio de 2009

Muito dinheiro no bolso

Ao final do ano de 1996, comprei meu primeiro carro zero. Uma parcela de entrada (na verdade, uma mísera parcela de entrada) e o saldo financiado em 24 prestações fixas. Para se ter uma idéia do que representava, em valores, uma prestação fixa, treze anos atrás, pagava a quantia de R$ 600,00 cada uma. Perdi o carro ao final de doze meses. O seguro cobriu o prejuízo. Mas como o valor do automóvel havia aumentado e muito neste ano que se passou e o seguro não corrigia o valor do bem, para não sair da história com o nome no Serasa, ainda tive que pagar R$ 2.000,00 para a financeira. Decidi que só compraria outro carro à vista. Financiamento, nem pensar.

Passei 1998 juntando dinheiro. Recebia meu salário, pagava o aluguel, luz, condomínio, faculdade, consórcio, inglês, ônibus fretado, academia e guardava tudo que sobrava no bolso fundo de um casaco. Depois de um ano saindo diariamente do Horto Florestal, rumo à Berrini, no ônibus fretado, voltando para Santana e, por muitas vezes, indo para a faculdade, na Vila Guilherme, a pé, carregando todos os códigos jurídicos e a marmita vazia na bolsa, em cima de um par de saltos que apertava meus pés, decidi que era hora de ter um carro novamente, mesmo que não fosse zero. Contei o dinheiro do bolso do casaco e abri o jornal. Achei o anúncio de um Uno, 1.5, meu sonho de consumo de outros anos. Tinha só três anos de uso, movido a álcool (o que barateava o valor). Fui até o Morumbi ver o carro na Concessionária. Gostei. Falei para o vendedor que ia levar. Ele me perguntou sobre a forma de pagamento. Respondi que seria em dinheiro vivo. Comecei a tirar de dentro das calças várias notas de cinqüenta Reais. O vendedor ficou perplexo e me levou imediatamente para a Tesouraria. Sim, eu tinha ido de ônibus, do Horto até o Morumbi, carregando R$ 8.500,00 dentro das calças.

Em vinte e quatro horas (acho que após dar tempo de analisar cada uma das notas e conferir sua autenticidade), liberaram o veículo. Após alguns meses e no terceiro mês de gestação da minha filha mais velha, sofri um acidente. Desmaiei ao volante, capotei o carro e dei perda total no meu querido automóvel. Mais uma vez, tive prejuízo com o seguro. Quando comprei o Uno, quis me resguardar: segurei o veículo em um valor maior do que o mercado pagava. A perda total só era dada pela seguradora se o valor a ser pago pelo conserto fosse maior do que 70% do valor segurado. Valor maior segurado, carro mais valorizado. A seguradora mandou consertar meu Uno. Claro que o carro nunca mais foi o mesmo. Assim que minha filha nasceu, quitei um consórcio de automóvel que tinha, vendi o Uno para meu irmão, com 18 anos recém-completados, por algum valor que nem sei qual foi e fui toda feliz comprar o novo carro dos meus sonhos: um Corsa Sedan. E vermelho, minha cor favorita para carros.

Fui com minha amiga Fernanda (dessa vez no carro dela) na concessionária Guaporé. Tinha visto o anúncio no jornal, estávamos no início de 2000 e o carro era ano 1999. Seguindo conselho dos meus amigos homens, decidi comprar um carro novo, mas sem ser zero, para não pagar emplacamento e sofrer a depreciação logo ao tirar o veículo da Concessionária. Lá fomos nós, cheias de pose, como se entendêssemos tudo de carros. Demos algumas batidinhas na lataria, deitamos no chão para ver se havia problemas de vazamento, ligamos o carro, ouvimos o barulho do motor. O maior teatro para a vendedora. Fechei negócio e no dia seguinte sai com meu Chapolim da loja. Era uma sexta-feira e aos sábados, costumávamos reunir a turma toda na Portuguesa, onde todo mundo era sócio. Cheguei eu, minha bebê e meu Chapolim. Foi meu compadre o primeiro a entrar na caranga, após todos elogiarem o visual da máquina. Ao olhar o marcador de quilometragem, quase fui morta por ele e pelos outros homens presentes. O carro tinha quase oitenta mil quilômetros. Chamaram-me de imatura, inconseqüente, como pude fazer um negócio daqueles? Claro que minha frustração foi tão grande que dali três meses, troquei de carro novamente. Comprei outro Sedan, zero quilômetro, que ficou em minha companhia até a nossa partida para o Chile, quando vendi meu Corsa Sedan Azul com menos de quinze mil quilômetros e em perfeito estado. Fomos grandes companheiros de viagens, baladas, festas e histórias mil.

Mas não é exatamente sobre carros que queria falar, apenas precisei contextualizar. Acabei de ler a Veja São Paulo e, como sempre, vou até a última página para ler a crônica da semana. O Ivan Ângelo contou sobre pessoas que acham dinheiro de forma inesperada, aquele dinheirinho que todo mundo um dia esconde e alguém acha. Depois de tanta falta de sorte com carros, eis que estava no segundo Corsa, o zero. Já no quarto ano da faculdade, levanto em um dia de frio e visto aquele casaco que guardava o dinheiro para comprar o Uno. Trabalhei o dia todo, fui para a academia e de lá para a Uniban. Hora do intervalo, queria tomar um lanche, mas a grana estava curta. Fiquei passeando pelo campus com as mãos no bolso. Descobri que um deles estava furado. Rasgado na verdade. Enfiei a mão ao fundo, para descobrir o quão profundo era o rombo. Eis que encontro dez notinhas de cinqüenta lá no fundo, bem no fundo, já quase nas costas do casaco. Comecei a rir e a pular de alegria e felicidade.
Nunca ganhei nenhuma partida de bingo, nenhuma rifa, nunca fui sorteada em nada. Mas aquele dia, foi o dia da minha loteria particular, foi como se uma árvore de verdinhas tivesse sido plantada no bolso do meu casaco. Claro que depois do episódio, nunca mais deixei de vasculhar bolsos das roupas, até porque, nos ternos do meu marido, sempre há algo que se aproveitar.
Úrsula Hummel

2 comentários:

  1. A propósito... sei que tô te devendo algo, mas... não sobrou nenhuma dessas notinhas aí?
    bjoca

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  2. Cara, to procurando até hoje... mas a esperança é a última que morre!

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