terça-feira, 7 de abril de 2009

Troca de promessas


Já ouvi falar em troca de família, troca de casais, troca de emprego, troca de escola. Mas troca de promessa, foi minha primeira vez.
Hoje, minha empregada me participou que trabalhará na sexta-feira santa. Não me deu nenhuma escolha e já veio logo contando que lá no Norte (entenda-se na Paraíba, sua terra natal), sexta-feira santa é santa mesmo. Não se pode sequer limpar a casa, porque Deus castiga.

Lembrei da minha infância. Minha mãe, criada em colégio de freiras; meu avô materno, por quem fui criada até os sete anos de idade, era católico fervoroso. Só me restava viver sob as rígidas tradições católicas da família. Lá pelos dez anos de idade, eu já não agüentava mais tanto ritual e só gostava do sábado de aleluia, para malhar o Judas, e do domingo de Páscoa, para ganhar os ovos. No domingo que antecedia o da Páscoa, sempre gostei de participar da procissão de Ramos e participava dos grupos da minha paróquia; sabia cantar todas as músicas, conheci o calendário religioso católico e o significado de todas as datas. Fiz primeira comunhão, me casei na igreja católica, me confessei com um padre sempre que julguei necessário, e diariamente com Deus. Mas o resguardo da sexta-feira santa sempre me sufocou.

Um dia, resolvi falar um palavrão, pois se minha mãe brigasse comigo, estaria pecando junto. Não me lembro se o fiz. Só sei que eu e meu irmão éramos loucos para termos a autonomia da nossa sexta-feira santa, para que pudéssemos comer carne. E na primeira oportunidade que tivemos, foi no primeiro McDonalds que paramos. Como nada de errado nos aconteceu, abandonamos as tradições.

Acredito em Deus e sou cristã. Faço o bem sempre que possível e tento fazê-lo quando impossível também. Oro todos os dias, diversas vezes ao dia. Acredito em Jesus como um profeta, um canal direto da palavra divina para todos nós. Alguns entenderam seus ensinamentos, outros não. Mas não é o fato de eu guardar a sexta-feira santa que me fará mais ou menos cristã. Tem muita gente por aí cumprindo rituais católicos e roubando por debaixo dos panos. Para meu entendimento, ser cristã, além de crer em Nosso Senhor Jesus Cristo, é fazer uso dos seus ensinamentos para aprender a ser melhor e assim, evoluir nesta nossa passagem.

Contei para minha mãe o caso da empregada e confessei nosso pecado, meu e do meu irmão. Ela então me contou em extremo estado de choque que havia pecado. Como não se alimenta de carne durante toda a quaresma, acabou se distraindo e devorou com toda a voracidade, uma farta fatia de pizza de calabresa. Quando terminou de saborear a delícia, se deu conta do pecado cometido. Pediu perdão por sua falha e no dia seguinte, prometeu ficar sem fumar por dois períodos do dia: das 12 até as 14 horas e depois das 16 até as 18. Não me contive. Cai na gargalhada e estou rindo até agora.

Não estou rindo da fé, ou até mesmo da troca de promessa, o que foi um tanto engraçada. Estou rindo da ingenuidade dela em achar que realmente fez alguma coisa em troca. Se for para cuidar e zelar por seu espírito, precisa também zelar por seu corpo, que Deus empresta a cada um de nós para que possamos viver nesta esfera terrestre. Então, por quê não parar de fumar de uma vez? Coisas de mãe. Mas o bom é que ela tem consciência do significado da Paixão de Cristo ser muito mais amplo do que seu pecadinho da calabresa.

Que todos tenham um feriado de Páscoa de reflexão interior, de união com o próximo e de amor em seus corações.

p.s.: o parabéns hoje vai para uma pessoa muito querida e que não vejo tem alguns anos, o Dilsinho ou, como é conhecido hoje no meio artístico, o cantor Sall.

3 comentários:

  1. Amiga, vc tem uma forma peculiar até para falar sobre religião, conseguindo expôr seu ponto de vista sem se expôr, dá pra entender?

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  2. Correção: não trata-se apenas de nada errado ter acontecido. Eu sigo comendo carne todas as sextas-feiras (santas ou não) e a porra da vida só melhora! E viva as promessas quebradas!!
    bjos

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