sábado, 1 de novembro de 2008

Uma questão de escolha

Minha vontade de escrever hoje era nenhuma; minha inspiração, abaixo de zero, em uma escala de zero até cem. Fui de manhã à Exposição Cultural do SAA; de lá, fui ao Shopping resolver umas pendências, encontrei minha amiga Lucianta por lá e nossos filhos estavam simplesmente impossíveis. Vim para casa com um enorme desejo de colocar meu fone de ouvido e continuar ouvindo “1808”, até acabar, sem sequer lembrar que o mundo existe.

Como desejo e realidade são situações antagônicas, de volta ao mundo real, dei almoço às crianças, sobremesa e sentei para brincar de Mega Bloks com o Leleco, com o computador ao lado. Eis que recebo uma mensagem da minha amiga Ave Maria, divulgando sua nova publicação em um site. Acessei a matéria, tentei postar um comentário e não consegui. Resolvi então, ler outros artigos publicados por ela e um me chamou a atenção, em especial: “Mulheres de Coragem” (http://www.pastoralis.com.br/pastoralis/html/modules/smartsection/item.php?itemid=302). Sai do mundo do IPod, dos Mega Bloks e mergulhei em uma reflexão que vem me acompanhando já há alguns dias.

Ouço muitas pessoas me dizerem: “que vida boa a sua, não trabalha, não faz nada o dia inteiro”. Confesso que tal comentário não me atinge. Realmente, minha vida é muito boa, mas não pelo fato de “não trabalhar”, tampouco “não fazer nada da vida o dia inteiro”.

Tenho o privilégio de ter um marido que consegue prover todas as necessidades materiais da nossa família. Porém, para que ele possa dedicar-se integralmente ao seu trabalho e seus estudos, alguém precisa fazer as outras tarefas que envolvem a sobrevivência da nossa família: administrar a casa, pagar as contas, cuidar dos filhos, levá-los às escolas, aos médicos, acompanhar as tarefas escolares, cuidar das compras, lavar, passar e cozinhar quando se está sem empregada (e, pelo que ouço, estar sem empregada é algo muito corriqueiro, uma vez que, definitivamente, há pessoas que não estão com vontade alguma de trabalhar, afinal, é muito mais fácil viver de doações, fazendo-se de “pobres, coitadas e injustiçadas”). Ah, claro. Esqueci que, como “apenas estudo”, ainda tenho que estudar, afinal, se quisesse comprar um diploma, na Praça da Sé vendem-se até diplomas de advogados formados pelo Largo São Francisco, pela bagatela de R$ 500,00.

Não me recordo com quem conversava na semana que passou e ouvi algo do tipo: “maldita mulher que começou o feminismo”. Não sei se foi uma maldição o tal movimento. Mas há coisas que tenho certeza, embasada em fatos os quais vivo e já vivi, com mulheres ao meu redor, as quais gostaria de expor:

Excessivamente cobradas, as mulheres buscam sucesso profissional, custe o que custar; para tanto, estudam por anos a fio, dedicam-se integralmente a tudo que estiver ligado às suas profissões e esquecem de viver seus anseios pessoais;
Quando chegam a uma certa idade, percebem que a vida passou; elas não casaram, não tiveram filhos, o corpo não responde mais ao desejo de ser mãe, são atacadas pela famosa endometriose, passam por anos de tratamentos caríssimos para ser mãe, estando casadas ou não, e...
Aquelas que finalmente conseguem realizar o sonho de ter filhos, passam poucos meses (as que conseguem) com seu rebento e desesperam-se em busca de uma babá de confiança, um berçário que funcione até o horário mais tarde possível, tem pouco contato com seus filhos e em muitos finais de semana, precisam recorrer às avós, para conseguir terminar aquele trabalho inadiável.

Ter mais de um filho então é algo de outro mundo. Quando moramos no Chile, em 2003, ainda não havia a aprovação para o uso de pílulas anticoncepcionais. Sempre me olhavam como se eu fosse alguém doente, pelo fato de ter apenas uma filha. Na ocasião, já tentava a segunda gravidez, mas as coisas não são como nós queremos, tudo depende da vontade divina. Lá, para provarem à Igreja Católica que não faziam o uso do anticoncepcional, as famílias precisavam ser numerosas. No ano seguinte, com a liberação do contraceptivo, não sei o que mudou na cabeça das pessoas. Uma coisa é fato: as numerosas famílias eram felizes.

Não quero levantar bandeira contra mulheres que decidem investir suas vidas, seja na carreira profissional, seja na carreira de dona-de-casa. Eu quero investir minha vida em ser feliz. E dane-se quem acha que não faço nada da vida. Sou feliz com meus dois filhos e, mesmo com todo o trabalho que eles dão e todo o tempo que me consomem, teria mais filhos, se tudo não custasse tanto. Também, poderia voltar à minha carreira de Executiva, dobrando a renda doméstica e dobrando o número de filhos. Mas para que tê-los e não vivê-los?

Um comentário:

  1. Amiga querida,

    Continue sendo essa mulher especial, cheia de vida! Fico muito feliz que meu artigo tenha a levado à reflexão e que esta reflexão a mostre o quanto você é uma previlegiada neste mundo onde tudo foi "coisificado".
    Você é uma mulher forte, linda e amada! E estou amando ler seu blog!
    Parabéns!
    Há um link do seu blog no meu.
    Fique com Deus e continue escrevendo!

    Chris

    ResponderExcluir