terça-feira, 18 de novembro de 2008

A questão é tomar atitude, é acreditar, é agir!

Continuarei focando meus textos em educação, pois tenho a convicção que é através da educação que o ser humano se descobre, se torna um ser político, aprende a analisar os caminhos que a vida lhe proporciona e graças a sua formação, é capaz de escolher um caminho dentre tantos.

Sempre estudei em escola pública. E não desdenho dessa condição. Tive uma boa formação, tive bons professores, muitos deles empenhados em formar aqueles cidadãos que eram lhe postos de forma aleatória dentro de uma sala de aula com a árdua missão de ensinar, não apenas aquela matéria escrita nos livros didáticos. Ensinar a cada um a ser gente.

Nesta jornada, fui aluna do professor Waldir Romero, de Educação Física. O professor era um completo “porra louca”. Imaginem um bando de pré-adolescentes, fazendo aulas de educação física as 7 horas da manhã (às quintas-feiras) e o horário do início das aulas era apenas as 15 horas. Muitos iam para passar o dia na escola; talvez por morar longe; talvez por não ter alguém em casa para cuidar; talvez, por não ter o que comer em casa. Este ano de 1987 me marcou bastante.

Havíamos perdido no ano anterior uma querida professora de educação física, a professora Cleide, que foi vítima de um cancro. O Waldir assumiu nossa turma. Cabeludo, um pouco acima do peso, meio largadão. No início, todo mundo achou que seria moleza. Mas de moleza não teve nada. Nosso aquecimento começava com dez voltas ao redor dos dois prédios principais da escola (ainda havia o prédio do refeitório aos fundos). Não havia aluno nenhum que não tentava “burlar” as contas dele. Tentávamos nos esconder atrás de um dos prédios, fazíamos grupos para passar em frente a ele e, assim, não ser notada a presença daqueles que estavam escondidos. Não tinha jeito. Enquanto as dez voltas não fossem dadas, não começavam as aulas. Eu pensava que ia morrer. Um dia, decidi não me esconder atrás de prédio algum. Cheguei para ele e disse que meu coração doía muito e por isso não conseguia nunca dar as dez voltas, era praticamente a última a chegar (quando não dava para roubar nenhuma voltinha). Vinte e um anos depois, as palavras dele ainda estão na minha cabeça: “Úrsula, o dia que você sentir dor no coração, você morre. Não existe dor no coração. Melhor continuar e acabar logo, senão, perderá toda a aula resmungando”. Minhas dores no coração continuaram naquele e no ano seguinte. Então, completei o ginásio e mudei de escola. E a nova escola tinha prédios muito maiores e também tínhamos que aquecer correndo ao redor deles. Ainda bem que comecei a trabalhar e com a declaração de trabalho, me livrei das aulas de Educação Física.

Cinco anos atrás, a filha do Waldir me encontrou no Orkut. Estávamos morando em Portugal e fiquei muito feliz ao reencontrar meu professor. Perguntei se ele lembrava-se de mim e tive como resposta: “quem no Gastão não lembra da senhora, dona Úrsula”. Foi um recomeço. Naquele momento, jamais me imaginei cursando uma Licenciatura dali dois anos.

Ano passado, procurei o Waldir na escola municipal, a qual ele dirige tem treze anos. Pedi uma oportunidade de estágio e encontrei muito mais que isto. Encontrei um homem que havia trilhado caminhos diferentes na sua vida profissional e dentro das suas ideologias, conseguiu mudar. Mudou completamente a história de uma escola, fez história com a sua escola, que hoje, é modelo pelo Brasil afora. Fiquei muito feliz quando falei para a professora Elisete que estagiaria no Garcia Dávilla. Ela me falou muito sobre a escola. Foi gratificante estar ali com as professoras Conceição e Sara, convivendo com uma realidade muito diferente daquela que proporciono aos meus filhos. O que mais aprendi por lá? Que o ser humano é carente e antes de livros, lápis, cadernos, ele precisa de amor, de atenção, de carinho.

Aqueles adolescentes o sexto até o nono ano tinham os mais diversos comportamentos ao me ver entrar em suas salas. Quando me viam nos corredores da escola, iam logo perguntando: “psora, a sóra vai lá na nossa sala hoje?”. Sei que as professoras não gostam de estagiários em sala, pois eles dispersam a atenção dos alunos, que de alguma forma, querem aparecer, chamar a atenção, ser notado.
Os dois meses se passaram, fui a primeira da sala a concluir o estágio. A lição que ficou foi fundamental: querer é poder e conseguir. O Waldir quis, fez acontecer, mudou, transformou, trouxe os alunos para junto da escola. Tirou das ruas futuros delinqüentes, para transformar cada um em grandes sonhadores. Um dia, uma aluna me disse: “prô, eu nunca vou fazer faculdade porque meus pais são muito pobres e faculdade é coisa de rico”. Disse que faculdade não é para rico. Faculdade é para qualquer um, basta querer, trilhar o caminho do bem, desejar, buscar e alcançar. Tenho certeza de que aquela garota será uma brilhante universitária, independente de sua condição financeira. E, quiçá, daquela pequena transformação que começou treze anos atrás com uma pessoa que acreditava, dando vida a um grande projeto comunitário, sejam formados tantos outros idealizadores que coloquem em prática aquilo que acreditam, transformando seus sonhos em realidade.

Para saber mais:
http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL864349-15605,00.html

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM886857-7823-DESEMPENHO+DE+ESTUDANTES+BRASILEIROS+E+PREOCUPANTE,00.html

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