terça-feira, 3 de junho de 2008

Nostalgia

Amanhã, iniciam as avaliações. Há tantos anos se fala em mudanças no sistema de ensino e as tais provas continuam aí, deixando alguns nervosos, outros ansiosos ou até com dores de barriga. Minha ansiedade é mera obsessão. Adoro tirar nota DEZ. Aqui em meio a pilhas de papéis, encontro minha avaliação da disciplina de Leitura e Produção de Texto. Nota dez. Ah, não sei o porque de eu gostar tanto do tal dez, mas fico extasiada cada vez que o recebo. É como se me dissessem: “parabéns, seus esforços valeram a pena”. Mas o assunto principal não é educação ou nota dez, mas sim, como consegui este dez.

Hoje é dia 3 de junho e minha tia Ana, caso fosse viva, completaria 56 primaveras. Ela nos deixou há 12 anos, de forma quase que repentina, após a constatação de um tumor maligno no intestino que tomou outros órgãos vitais. Fiquei aqui imaginando como ela seria hoje, 12 anos mais velha.

Tia Ana deixou-me uma boa herança quando foi embora, nada de material, dinheiro ou bens. Deixou lições de vida, de garra, de determinação, do quanto é importante batalhar, construir pensando no futuro, o valor dos estudos (será que é por isto que sou uma maníaca por faculdade?). Sempre tentei passar aos meus irmãos mais novos um pouco destes ensinamentos que não vivenciaram tanto quanto eu. Agora, é aos meus filhos que sempre trago minha tia como exemplo.

Sua partida foi minha primeira perda na vida. Sofri muito durante alguns anos e este sofrimento, só o tempo para amenizar.

Em 12/06/96 minha bisavó paterna completaria 96 anos e faleceu neste mesmo mês. Quando a bisa faleceu, tia Ana me telefonou e pediu que eu participasse aos demais familiares o ocorrido. Ficamos de nos falarmos assim que ela voltasse e ela nada de me ligar.

As férias de julho chegaram e insistia nas ligações para sua casa, em vão. Após alguns dias, liguei para meu pai tentando ter notícias e ele me disse que a tia Ana se encontrava internada no HU, com dores fortes e fazendo exames, mas ninguém sabia do que se tratava. Começo de agosto e recebo a ligação da tia Cristina, pedindo urgentemente doadores de sangue para reserva; tia Ana sofreria novas intervenções cirúrgicas.

Não tinha a idéia ou sequer a dimensão dos fatos até este dia, quando fui com minha amiga Fernanda fazer a doação. Após a coleta do sangue, a tia Augusta perguntou se eu queria ir até o quarto ver a tia Ana e este é o único ato que me arrependo ao longo dos meus 34 anos de vida. Quarto, porta adentro, minha tia; aquela mulher sempre vaidosa e sempre na luta para se livrar de uns quilinhos a mais; magra, pesando 35 quilos, ossos do rosto visíveis; a própria imagem de uma caveira. Conversei com ela sob forte emoção, sem conseguir falar muito. Saí de lá aos prantos e já sem esperança. Esta é a imagem que fiquei dela e, por tal motivo, meu arrependimento.

Na família, ela sempre foi tida como “chata, mandona, intrometida”. Hei de concordar com isto. Tudo isto, porém, se justificava pela sua preocupação excessiva e o querer exercer a posição de matriarca, deixada precocemente pela minha avó, sua mãe, dois anos antes do meu nascimento, aos 37 anos.

E o que tudo isto tem de ligação com as provas? Bom, tia Ana sempre acreditou no fim do mundo. Tinha em sua cabeceira, livros de Nostradamus, não perdendo qualquer oportunidade para dizer que o mundo acabaria no ano 2000. Eu, crédula em suas palavras e sua admiradora, lamentava o fim da minha vida aos 26 anos. No dia 31 de dezembro de 1999, esperei até o último momento pela grande explosão. E nada aconteceu, além da queima de fogos e o sono profundo da Bibi, que tinha apenas 45 dias de vida.

Um mês atrás, a professora pediu a produção de uma narrativa; o mote era: “remetam-se às 23horas de 31/12/99; façam idas e vindas no tempo partindo deste dia”. Escrevi sobre minha infância e os “causos” da tia Ana e do profeta. Meu texto rendeu um belo dez que, tenho certeza, minha tia deve ter sentido muito orgulho de mim e do meu empenho, não só no âmbito acadêmico, mas de uma vida guerreira que foi tendo cada luta vencida através de muitos dos seus ensinamentos.

Dedico este e outros dez que quero tirar na vida, como aluna, como esposa, como mãe, como ser humano em evolução, aos ensinamentos deixados pela minha tia Ana! Um brinde a ela.

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